Entrevista com o escritor Marcelo Schwob – Autor da biografia de Silva Batuta

Bati um papo com o escritor e autor da biografia de Silva Batuta, Marcelo Schwob. O livro lançado no dia 15 de novembro na Gávea é o oitavo na carreia do escritor e o primeiro que tem como tema o futebol. Na entrevista Marcelo Schwob fala dos motivos que o levaram a escrever a biografia de Silva Batuta, o desafio de ser um escritor independente no Brasil e muito mais!

Tulio Rodrigues – Por que fazer um livro sobre Silva Batuta? Quando surgiu a ideia?

Marcelo Schwob – Escrevi o livro porque o primeiro jogo do Flamengo que vi no Maracanã contou com a presença brilhante do Silva e nesse dia (19 de dezembro de 1965) o Flamengo foi campeão carioca de 1965. Uma tarde inesquecível. Ele tinha um estilo clássico de jogar futebol, com muita técnica. Milhares de outros torcedores rubro negros naquele ano em que ele conduziu o Flamengo à vitória no campeonato sentiram o que senti. Ele começava a ocupar um espaço no coração da torcida rubro negra. Ele era o ídolo que havia tempos não tínhamos. Aliás, isto está ocorrendo agora. Nosso time atual carece de um ídolo.

A ideia de escrever um livro sobre o Silva surgiu há mais de seis anos, mas só em começo de 2013 é que passei a ter tempo para pesquisar, entrevistar e escrever o livro. Não contei, infelizmente, com o apoio de uma editora. Banquei todos os custos e todas as funções, até mesmo registrar o livro na Biblioteca Nacional. Por outro lado, escrevi o livro do modo como desejava. Acho que saiu o melhor que eu poderia ter feito. O único problema é que não consegui cobrir os custos com a tiragem de 200 exemplares que mandei imprimir (vendi 150 exemplares no dia do lançamento, dei cerca de 10% em agradecimento e o resto vendi nos últimos dias), mas tenho a esperança de conseguir um patrocínio ou um canal de venda que me ajude a canalizar uma tiragem maior. Talvez as lojas do clube, quem sabe?        

Capa do livro “Silva, o batuta”

Tulio Rodrigues – O livro é bem extenso, 612 páginas. Como foi o processo de criação e as maiores dificuldades?

Marcelo Schwob – O livro ficou com 612 páginas, sendo 80 delas com fotografias (mais de 200 fotos). Eu não esperava que chegasse a tanto, mas descobri que o Silva da minha memória (Flamengo 65/66 e Flamengo 68/69) era apenas uma parte da história deste grande craque. De certa forma, atirei no que vi e acertei no que não vi. Descobri que ele teve passagens brilhantes em muitos outros clubes, inclusive na Seleção Brasileira. E, portanto sua trajetória exigia um relato bem feito e detalhado. Foi a minha forma sincera de homenagear o Silva e sua família, que procuraram me ajudar da melhor forma com informações, relatos e fotografias. Por outro lado, tive que pesquisar por dezenas de vezes na Biblioteca Nacional, Arquivo Nacional etc. em busca de artigos de jornal e antigas fotografias. Muitas das fotos tive que adquirir. Só com fotos compradas, gastei cerca de R$ 900,00. Livros e revistas: R$ 1.500,00. Diagramação e capa do livro: R$ 4.300,00… Impressão do livro (200 exemplares): R$ 5.300,00… Xerox: R$ 1.000,00. Produção editorial (ajuda para contatar e entrevistar alguns jogadores): R$ 1.000,00. Como você vê, a conta passa de R$ 14.000,00 !! Isso sem contar com o custo das horas trabalhadas… Com a venda dos livros, apurei menos de R$ 9.000,00. Mas não estou chorando miséria. É difícil no Brasil obter-se lucro com uma produção literária em pequena escala. Eu já tive outras experiências. Este é meu oitavo livro. Apenas percebo que neste caso o assunto tem enorme potencial de interesse e seria uma pena deixar de fazer uma nova tiragem. O problema é como falei, financiamento, ao menos de forma parcial ou patrocínio para a impressão, distribuição e comercialização.

Tulio Rodrigues – Aqui no Brasil os Clubes até bem pouco tempo não se preocupavam em preservar a sua história. Como foi a sua busca e a receptividade dos Clubes que Silva jogou para obter informações, e como você fez para testar a veracidade dos fatos?

Marcelo Schwob – De fato, só recentemente os clubes brasileiros começaram a se preocupar com a memória. Antes tarde do que nunca. A receptividade nos clubes em relação à minha pesquisa foi sempre boa, mas o conteúdo nem sempre. Na verdade, procurei dar prioridade à pesquisa nos jornais (Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, Globo, Folha de São Paulo) através da hemeroteca da Biblioteca Nacional e também do Arquivo Nacional. Consegui descobrir muita coisa interessante. Não posso esquecer de citar que a família do Silva me emprestou fotos preciosas, assim como alguns artigos de jornal. Tive também boas revelações e histórias interessantes contadas pelo Silva e outros jogadores, como o Jayme Valente e o Juarez. Consegui muitas informações sobre a brilhante passagem do Silva no Racing de Buenos Aires através de um jornalista do El Clarin de Buenos Aires. O Barcelona me respondeu de pronto (em dois dias apenas), enviando tudo que tinham sobre a passagem do Silva por lá. O São Paulo também me atendeu muito bem através do Michael Serra. No Flamengo, não tive tempo para conversar com o Bruno (Lucena), que faz um trabalho ótimo no clube, porque na verdade estava conseguindo muita coisa através das pesquisas nos jornais. Mesma coisa no Corinthians.

Quanto à veracidade das informações, tem uma que sempre me chamou a atenção, mostrando como a internet pode propagar um erro. Em inúmeras referências ao Silva, em quase todas fala-se que nasceu em Ribeirão Preto, quando na verdade foi em São Paulo capital. Ribeirão é a cidade onde ele jogou (Botafogo de Ribeirão Preto), onde conheceu a Martha, sua esposa, e onde se casou (1964). Todavia, não foram muitas as informações sem base que tive acesso.

Pelé e Silva Batuta na Copa de 1966

Tulio Rodrigues – Silva fez histórias em diversos Clubes como Flamengo, Vasco, Corinthians, Santos, Racing da Argentina, mas a capa mostra o Silva com a camisa do Flamengo e o seu lançamento se deu na Sede do Clube. Por que vocês deram essa cara Rubro-Negra ao livro e você acha que pode haver rejeição por parte dos torcedores dos outros Clubes?

Marcelo Schwob – A capa rubro negra do livro foi uma forma de mostrar a identidade especial que ele teve dentre os treze clubes em que jogou. Foi no Flamengo que ele se tornou o Batuta e onde a torcida mais se identificou com seu futebol, ainda que tenha sido campeão e respeitado nos outros clubes em que jogou, em especial no Corinthians, Vasco da Gama, Santos e Racing de Buenos Aires. Neste último, em minha opinião, foi, tanto quanto no Flamengo, onde ele teve uma de suas melhores temporadas na carreira.

Quanto à possibilidade de rejeição do livro, se houver, será proveniente de quem não cultua a história do futebol brasileiro e talvez nem tenha o costume de ler livros. Para mim, trata-se de um processo de evolução, separando paixão clubística da história do futebol. Afinal, o Flamengo teve Leônidas, Zizinho, Domingos e tantos outros craques monumentais que não foram brilhantes somente na Gávea. Suas histórias perpassaram por outros grandes clubes. O Silva é um deles.

Tulio Rodrigues – Você fez uma ampla pesquisa que transcendeu a carreira de Silva Batuta como jogador. Como foi a participação da família e do próprio Silva Batuta na construção do livro?

Marcelo Schwob – A família do Silva me ajudou muito, sempre de forma cordial e simpática, no fornecimento de informações e fotografias e contatos com antigos jogadores. Por sinal, fiquei impressionado com o modo como ele é querido no meio esportivo.

O Blog Ser Flamengo prestigiando o lançamento do livro de Silva Batuta

Tulio Rodrigues – Esse é seu oitavo livro e o primeiro relacionado ao futebol. Tem mais algum projeto de livro relacionado ao futebol?

Marcelo Schwob – Quanto aos projetos literários, de fato este é o primeiro sobre futebol. Na verdade, eu procuro escrever sobre as minhas paixões. O trabalho que tive para pesquisar e escrever 612 páginas teve a energia e a paixão de um menino de 9 anos que pela primeira vez foi ao Maracanã (80 mil pagantes) e viu o Flamengo jogar com Silva e ser campeão. Acho que um jogador que merece um livro, se já não tem, é o Evaristo de Macedo, mas este eu vi jogar no final da carreira. Mas eu vi muitos outros. Tenho um carinho especial pela figura simples, modesta e talentosa do Carlinhos pela sua trajetória como técnico e jogador. Um jogador que suava a camisa do Flamengo, mas com extrema classe, sem nunca ter sido expulso de campo. Um técnico que nos deu títulos importantíssimos, sem nunca se ufanar. Sobre este, confesso, gostaria muito de escrever sua biografia.

Tulio Rodrigues – Hoje, o mercado editorial literário está dando bastante espaço para os livros relacionados a futebol, o que vem fazendo crescer o número de biografias de jogadores e outros livros que abordam outros assuntos relacionados ao tema. Como você analisa esse mercado hoje?

Marcelo Schwob – Quanto ao mercado literário no tema futebol, concordo plenamente que teve um crescimento grande nos últimos anos, mas o mercado comercial continua difícil para quem, como eu, pratica a autoprodução. Somente com muita paixão a gente pode cumprir o trabalho imenso que é preciso para fazer um livro sério e honesto, além de arcar com seus gastos. E ao mesmo tempo enfrentar as barreiras da distribuição e comercialização, mesmo tendo um livro com um tema com um potencial de venda tão significativo como este.  

É isso. Mais uma vez agradeço a atenção de vocês e a oportunidade, enviando minhas saudações rubro-negras.

 

Entrevista feita por Tulio Rodrigues: @PoetaTulio

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