Legado e saudade – Carlinhos

Estava na Gávea, percorrendo aquilo tudo como quem vistoria o seu paraíso,o seu patrimônio, o seu lar, a sua herança. E como deverei repetir ao longo dos meus anos, já havia saudado o patrono e cada remador  – exercendo um dos dogmas da minha ligação com o divino Flamengo.

Aquela terra é santa,amigos. Cada centímetro cimentado da Gávea é mágico. Aquilo ali perpassa estruturas.

Quando eu me deparei com o busto do já saudoso Carlinhos, passei as mãos pelo seu rosto, em simbolismo, mas com gratidão. Olhei fundo aqueles olhos desprovidos do seus característicos óculos, como quem ali encontrasse o portal para  memórias em ouro rosé. Revivi um pouco do que não presenciei.  Diante da imagem do ídolo que passou as chuteiras para Zico, rezei baixinho, rezei pra mim. Preces rápidas, mas sinceras. As pessoas não tem o hábito de rezar bustos de quem ainda vive – mas é que nem todo mundo é tão mítico pra ganhar bustos em vida e, ainda assim, merecer ações dessa estirpe.  Devo ter balbuciado um ‘muito obrigada’  caetaneado, e me afastei. Retornei para um café, no bar da piscina.

Voltei para a Bahia, e pouco mais de três meses depois recebi  a notícia do falecimento de Carlinhos, numa fatídica segunda de manhã. Levantei da mesa do escritório, pra quem sabe, buscar um ar menos rarefeito na janela. Inútil. Avisei aos amigos e irmãos de Manto Sagrado com pesar. Absoluto pesar. E era uma mistura de amargos sentimentos. Lamentávamos o homem, o mito, o ídolo. E eu, lamentava ainda uma geração tão profunda quanto uma gota d’água. Não saberia descrever a minha decepção frente a indiferença do fato para alguns, sei apenas que a minha maturidade emocional foi quase toda pro lixo e temi desrespeitar  a individualidade das pessoas  (se de fato, não o fiz). Eu bradava pelo verdadeiro sentido de ídolo, ainda que soubesse que é uma questão muito pessoal. Eu bradava para que o respeito deixasse de ser, por um pouco de tempo, em nome de uma vida e daquele momento, pauta pra rir dos nossos rivais . Queria que o respeito assumisse a  sua forma nas cores que nós amamos e o Carlinhos sempre soube honrar – vermelho e preto, que nos veste e nos define sem nos limitar.

Era ali pelo meio que Carlinhos, primeiro homem da região, desfilava talento, classe e cordialidade. Jogou muito. Foi maestro – maestro de ditar, servir, e inspirar outro maestro. Tanto brilhou, que se sagrou como um dos maiores nomes do país.  Campeoníssimo dentro e na beira dos gramados, sua herança para nós foi além de títulos, postura. Jamais foi expulso de uma partida, e como técnico, soube proteger,coordenar e motivar.

É, o Violino, do fino trato com a bola, colegas, aprendizes e liderados nos deixou muito. Primeiro  muito legado, e agora muita saudade.

Bruna Uchôa.

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