O legado que Jorge Jesus nos deixou.

Olá, leitor do Blog Ser Flamengo e rubro-negro apaixonado pelo único clube do Rio de Janeiro que é bicampeão da Libertadores da América e campeão do mundo, que “botou os ingleses na roda” em 81 e ficou marcado na história. Quase 4 anos após, retorno à minha casa, onde tanto fui feliz e que por uma série de questões individuais não pude estar aqui presente com todos vocês. Mas não mais falando de mim e agora, sim, sobre o assunto ao qual vim tratar com você, torcedor, e dividir a minha opinião.

Exatamente 13 meses atrás, desembarcava no Rio de Janeiro um homem um tanto desconhecido. Cabelo grande, liso e grisalho. Sério, focado, trabalhador, e ao mesmo tempo muito afetivo. Que antes mesmo de chegar ao Rio já brincava, perante Rodolfo Landim e dizia que “quem sabe o Liverpool não termine campeão europeu e o Flamengo o enfrente no fim do ano”. Ele jogou aquela possibilidade no ar, como também o fazia quando chegou ao Brasil e sempre insistia no Flamengo vencedor. No “ganhar, ganhar e ganhar”.

E quem de nós podemos dizer que ele estava errado? Nós que nos habituamos a ver o Flamengo brigando contra rebaixamento, fazendo conta em fim de ano para chegar nos famigerados 45 pontos na tabela do Campeonato Brasileiro e “suar sangue” pra ser campeão carioca em cima dos nossos rivais, vimos o Flamengo sacudir a poeira diante do Emelec(onde passamos um sufoco danado no primeiro jogo, chegando a ficar sem “ninguém” no meio-campo e, se não me falha a memória, apenas Cuéllar ali para tentar algo ofensivo), vencer por 2 a 0, no Maraca, um jogo que podia tranquilamente ter sido 3 ou 4, ou até mesmo 5, para vencer nos pênaltis e avançar, depois de 9 anos às quartas da tão sonhada Taça Libertadores.

Aliás, o 5 que poderia ter vindo contra o Emelec e veio em forma de “CINCUM” contra o Grêmio. E chegando ao estado surreal de vermos os jogadores gremistas pedindo em campo para os nossos pararem, porque se não seriam 6, 7 ou 8, quem sabe… Renato Gaúcho passando o mês de setembro inteiro nos provocando através da imprensa. E Jesus? Calado! Quieto! Só observava… Preferiu devolver com trabalho, com um banho de futebol, com uma noite espetacular, que nem o flamenguista mais otimista imaginaria o que nos aconteceu naquela semifinal do Maracanã.

E se voltarmos mais no tempo, assim que Jorge Jesus começou o seu trabalho, viu as carências do time, que era uma máquina mau conduzida mas não deixava de ser uma máquina de jogar futebol, e o fez jogar. Num jogo-treino, o grito que virou meme “ATENÇÃO, ARÃO! Ta mal, Arão! TA MAL, ARÃÃÃO!” Eu, particularmente, no dia em que vi isso, pensei que ali Willian Arão seria sacado do time e teríamos um meio-campo, na época, com Cuéllar e Piris da Motta(Gérson não havia chegado ainda) na “volância”, com Miguel Trauco na lateral esquerda, por saber da qualidade do peruano no jogo ofensivo e imaginar que fosse ser utilizado pelo mister. Ledo engano…

Jorge Jesus começava a revolucionar tudo o que a gente sabia, ou achava que sabia a respeito do futebol. O grito com Arão foi, na verdade, para transformá-lo num jogador melhor, mais atento, mais confiante, mais ligado ao jogo, mais elétrico. Ele continuou sendo um volante flutuante limitado, fazendo a transição entre defesa e meio-campo, mas virou um jogador e um ser humano mais confiante em si. Começou a jogar mais rápido, tocar a bola, desarmar e até subir no primeiro pau e fazer gol de cabeça em escanteio, coisa que era raro.

Contra o Emelec, o Flamengo tomou um sacode no Equador, mesmo sendo “apenas” 2-0 no placar final do primeiro jogo. Contra o Bahia, com Filipe Luís recém-contratado, 3-0, com Gilberto deixando sua marca e os “antis” aproveitando-se do que, mal sabiam, seria seu último momento de alegria em meses contra o Flamengo. Dali em diante, o jogo difícil de xadrez que Jorge Jesus começou a jogar de dentro do Flamengo para o campo de jogo e para a vida dos torcedores, sejam eles àquela altura rivais nossos ou do mundo em geral, começava a mudar.

O Flamengo, que em 2016, 17 e 18 caçava a liderança do Campeonato Brasileiro, perdia o fôlego e não a segurava, em 2019 a agarrou, no primeiro turno, e para não soltar mais. Recordes e mais recodes quebrados. Ida às quartas de final da Libertadores. Será que dava pra sonhar mais alto? Pensava o torcedor, se referindo ao título continental. E Jorge Jesus respondia que, não apenas dava, mas que ele ia conseguir. Era faminto por vitórias, por ver seus atletas marcarem gols e jogar futebol bonito, encantar. Como não lembrar de quando o Flamengo já tinha a semifinal da Libertadores “resolvida”, placar em 3-0 a nosso favor, logo após o gol de pênalti de Gabigol, e Pablo Marí e Gerson trocavam passes calmamente na defesa? Jesus não aguentou aquela cena e esbravejou à beira do gramado. Queria mais, queria o “CINCUM”(imortalizado da coletiva épica quando questionado sobre alguns atletas que estavam, salvo engano, poupados) ou até mais.

Em Fortaleza, quase certo do empate, Reinier faz o gol de cabeça que nos dá a vitória, de virada, e nos mantém na batida rumo ao título brasileiro, pois a intenção era chegar à decisão contra o River Plate já heptacampeões nacionais. É fato que não conseguimos, mas não foi delicioso ver o Palmeiras “nos dar” a taça ao perder para o Grêmio? No sábado, fomos bicampeões da Libertadores, e no domingo, “em cima do trio elétrico” e sem jogar, fomos heptacampeões brasileiros.

O efeito Jorge Jesus também foi às cabines de tevê. Galvão Bueno, que só nos brindava com sua emoção em jogos de Copa do Mundo ou eliminatórias e Fórmula 1, voltou à vida do rubro-negro e nos deixou o “GABIGOL TA PEDINDO!”, que virou funk, que virou lembrança das mais valiosas de uma época em que vivemos o que só nos era contado sobre 1981, e que levamos ao Maraca ao cantar “em dezembro de 81”, e sem saber que quase fomos forçados a mudar a música, como fizemos com “o brasileiro já ganhamos SETE”… e com toda a alegria do mundo.

Hoje ouço relatos de amigos que dizem que sua relação com o Flamengo, antes de Jorge Jesus, era um tanto fria, que não conseguia mais sentir tesão e aquela verdadeira paixão em assistir ao Flamengo jogar, e que o mister resgatou esse sentimento. Foi no fundo do nosso coração, deu aquela revirada na nossa alma e nos trouxe para o patamar que a gente sempre esteve mas não lembrava mais, porque não conseguíamos mais alcançá-lo.

Jorge Jesus que em cada pré-jogo, andava pelos corredores dos estádios pelo qual o Flamengo passava e cumprimentava as crianças que ali estavam, prontas para entrar no gramado com seus ídolos. Ele passava, alisava seus cabelos, cumprimentava uma por uma e as fazia sentir-se tão grandes como ele era. No banco de reservas ou no campo sabia gritar com seus jogadores, gesticular, cobrar aos berros, elevar um dedo em riste na cara de um Reinier e o fazê-lo evoluir. Berrar com um Vitinho até conseguir extrair dele o que ele sabia que tinha de bom. Fazer um Gabigol ser mais letal e mais “cabeça no lugar”, que respirou fundo em Lima antes de empatar o jogo, e que meses perdia a cabeça por bobagem e era expulso contra um Penarol. Que discordava da imprensa brasileira e achava absurdo como a mesma trabalhava por aqui.

O mister despediu-se do Flamengo e não apenas deixou um legado para o clube, mas para o nosso país, de como devemos pensar o jogo, de como devemos trabalhar com seriedade, humanidade e perceber que o tempo passa e as coisas mudam, evoluem. De que adianta passar anos e anos se orgulhando de ter 5 Copas do Mundo e quando ela chega, vem um europeu e coloca o brasileiro na roda? Não é melhor saber se orgulhar do seu passado vitorioso mas construir um presente incrível para ser lembrado num futuro próximo?

Eu, Germano, que escrevi esse texto para você leitor e rubro-negro, não o fiz para te pedir que concordasse com a minha visão sobre o nosso técnico e ídolo Jorge Jesus. O fiz deixando de lado os eventuais motivos de sua saída do Flamengo. Esta foi apenas uma análise do período onde ele passou ao nosso lado, comandando o nosso time e nos fazendo ter dias e lições incríveis durante 2019 e uma pequena parte de 2020. Sinta-se à vontade para expressar sua opinião nos comentários, afinal, estamos aqui servindo ao Flamengo e querendo, acima de tudo, o bem do clube. Nada do Flamengo e tudo pelo Flamengo! Muito obrigado por tudo, mister Jorge Jesus!

Foto: Fox Sports

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Por Germano Medeiros (@43Germano)

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