Série Velho Maraca – O meu habitat

Arte de Paulo Sérgio (@Pausse)
Naquela época eu não tinha conhecimento do que era cartola, marketing, política… E naquele dia principalmente jamais imaginava que tudo isso influencia quando a bola rola no gramado. Naquele dia, eu realizava um sonho que era ver o meu Flamengo jogar na “sua casa”, o Maracanã.
Aquele dia mudou o sentido do resto da minha vida. Foram enraizados novos sonhos, novos sentidos de Flamengo, de Maracanã… Descrever a emoção ao subir a rampa do Belline e avistar o gramado tão verde diante dos meus olhos é impossível. A data era vinte e oito de maio de 1995. O jogo foi Flamengo e Vasco pelo Campeonato Carioca daquele ano.
Tímido como se todos os outros torcedores percebessem que era a minha primeira vez ali, fui aos poucos entrando naquela sincronia flamenga. Lembro-me de um jornal distribuído com as músicas que seriam entoadas que me ajudaram a decorar melodias e versos jamais esquecidos desde então. Em dez minutos passei de um neo-arquibaldo para um experiente torcedor. Senti-me mais um, uma pequena parte de um grande todo e a sensação era que aquele lugar era familiar como nenhum outro em minha vida.
Dia inesquecível como a vitória que testemunhei em campo contra o nosso rival. Um quatro a dois impiedoso com uma ótima partida do camisa 10 à época e meu ídolo Sávio fez naquele dia. A estreia vitoriosa na “minha nova” casa fez com que me apaixonasse mais por aquele ambiente, aquele clima, aquelas pessoas e por aquele novo jeito de torcer. Sim, era diferente e é estar num estádio, digo Maracanã torcendo pelo Flamengo! É como se os jogadores me ouvissem do campo, é como se eu fizesse parte do jogo e responsável direto no resultado. Em casa, pela TV, a sensação é de impotência. Lá, no Maracanã não!
Fui mais vezes ao Maracanã sendo levado pelo meu tio, mas já aos 13 ia sozinho com amigos e muitas vezes “só” mesmo no sentido exato da palavra. Não me importava à posição na tabela, adversário e até mesmo qual fosse o jogador a envergar o Manto naquele gramado. Por pior que ele fosse, sem a minha presença na arquibancada, a luta no gramado ficaria mais difícil para ele. Essa é a sensação! Isso é fazer parte.
Durante anos foram acumuladas histórias das mais diversas. Aquelas que só torcedores tem para contar para simplesmente ver um jogo. Acumulo de derrotas, vitórias, títulos e um aumento gradativo de querer voltar no próximo domingo ou quarta. Posso afirmar que assisti a jogos do Flamengo em todos os setores populares do Velho Maracanã. Arquibancada, geral, cadeiras… Conhecia com a palma da minha mão o maior estádio do mundo. Criei uma intimidade grande com aquele lugar que não era aleijada a cada nova reforma que era feita. Acabaram com geral, colocaram cadeiras nas arquibancadas de cimento e acompanhei a tudo isso como se visse uma reforma na própria casa. Sentimento diferente da última reforma.
Em 2010, o Maracanã entrou em reforma. A sensação que tive ao voltar lá esse ano no empate entre Flamengo x Botafogo foi que aquele Maracanã é outro. A carcaça é a mesma, mas lá dentro não o meu Maracanã que durante anos foi o habitat de minhas alegrias e tristezas. A alma parece ser a mesma. A sinergia com o Flamengo também. Pelo menos isso! A beleza e o estilo europeu são impactantes, porém dá uma sensação de estranheza a quem se acostumou com o Velho Maraca. Deu vontade de chorar! Segurei a emoção na alma, não externei! Fica aqui a lembrança de grandes momentos que jamais será apagada até o último dia da minha vida e a sensação de que novas histórias serão vividas nesse Novo Maracanã, mas nada, nada se compara aquele dia que adentrei ao Maracanã pela primeira vez. Nostálgico ou não, há tipos de coisas na vida que não merecem ser mudadas e o “Velho Maraca” era uma delas!
Acompanhe a Série “Velho Maraca”:
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