O Flamengo permanece como o clube de maior torcida do país e ampliou a vantagem sobre os principais concorrentes na pesquisa Datafolha realizada em julho de 2026. O Rubro-Negro foi citado por 22% dos entrevistados, oito pontos percentuais acima do Corinthians, segundo colocado com 14%, enquanto Palmeiras e São Paulo aparecem na sequência, com 7% e 6%. O levantamento reforça uma liderança construída ao longo de décadas, mas sua divulgação voltou a provocar um debate no qual parte da imprensa parece mais interessada em procurar maneiras de diminuir o resultado do que em compreender o que ele revela sobre o futebol brasileiro.
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Foram ouvidas 2.004 pessoas com 16 anos ou mais, nos dias 22 e 23 de julho, em 139 municípios das cinco regiões. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, dentro de um nível de confiança de 95%. Em termos simples, o percentual estimado do Flamengo pode oscilar entre 20% e 24%, enquanto o Corinthians estaria entre 12% e 16%. Mesmo considerando essa variação, os intervalos não se encontram, o que torna a liderança nacional estatisticamente consistente.
A pesquisa não determina quantas pessoas existem exatamente em cada torcida, tampouco representa um censo capaz de visitar todas as cidades brasileiras. Ela oferece uma estimativa construída a partir de uma amostra distribuída pelo território nacional. Questionar metodologia, recortes e margens faz parte de qualquer leitura séria, mas rejeitar o levantamento apenas porque o resultado contraria preferências pessoais transforma a crítica estatística em reação clubística.
Liderança nacional não depende apenas do Rio de Janeiro
A dimensão do Flamengo aparece com maior clareza quando os números são divididos regionalmente. O clube lidera no Nordeste, com 29%, e no bloco formado por Norte e Centro-Oeste, onde alcança 34%. Neste último recorte, aproximadamente uma em cada três pessoas entrevistadas declarou torcer pelo Rubro-Negro.
No Sudeste, o Corinthians aparece numericamente à frente, com 20%, contra 16% do Flamengo, mas a pesquisa registra empate dentro da margem de erro regional. No Sul, o clube carioca ocupa a terceira posição, com 11%, atrás de Grêmio e Internacional, porém acima de Corinthians, Palmeiras e São Paulo. A presença rubro-negra, portanto, não se limita a uma concentração estadual: ela atravessa regiões com identidades esportivas próprias e clubes tradicionais.
Essa distribuição ajuda a explicar por que o Flamengo possui uma torcida nacional, e não apenas uma grande base localizada no Rio de Janeiro. A força no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste compensa a liderança corintiana no estado mais populoso do país e garante ao clube da Gávea uma capacidade de alcance que nenhum adversário consegue reproduzir na mesma proporção.
A estimativa central de 22% também coloca o Flamengo ligeiramente acima da soma de Corinthians e Palmeiras, que alcançam 21%. O dado precisa ser apresentado com cautela porque todos os percentuais possuem margens próprias, mas oferece uma dimensão da distância existente entre o líder e as demais instituições. No Nordeste, a participação rubro-negra supera a soma de diferentes clubes tradicionais da região; no Norte e no Centro-Oeste, a vantagem sobre os concorrentes nacionais é ainda mais ampla.
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Uma liderança formada ao longo de décadas
A posição do Flamengo não surgiu de uma temporada vitoriosa nem de uma oscilação isolada. A série histórica do Datafolha começou em 1993, quando o clube já liderava com 17%, diante de 10% do Corinthians. O rival paulista cresceu nos anos seguintes e chegou ao empate em 16% em 2012, período marcado por conquistas esportivas, aumento de receitas e maior exposição nacional.
Depois daquele momento, o Flamengo retomou a dianteira e voltou a abrir distância. O instituto registrou vantagem rubro-negra em levantamentos divulgados em 2018, 2019, 2023 e 2024, ainda que os percentuais tenham apresentado oscilações naturais entre uma rodada e outra. Em 2019, por exemplo, o clube possuía 20%, contra 14% do Corinthians; em 2023, alcançou 21%, seu maior índice registrado até então.
A consolidação também acompanha a transformação esportiva e econômica do Flamengo. Títulos ajudam a renovar gerações, ampliar identificação e manter crianças e adolescentes próximas ao clube, mas a pesquisa atual não inclui pessoas com menos de 16 anos. Por isso, a afirmação de que a vantagem crescerá automaticamente no futuro deve ser tratada como projeção, não como resultado comprovado por este levantamento.
Existe uma hipótese razoável de que jovens formados durante o ciclo de conquistas iniciado em 2019 aumentem a participação rubro-negra nas próximas pesquisas. Ainda assim, será necessário esperar que essa população entre nas amostras e declare sua preferência. O entusiasmo não pode substituir a medição.
Os 22% sem clube não anulam a maior torcida
Outro ponto utilizado para reduzir o significado da pesquisa é o percentual de brasileiros que afirmaram não torcer por nenhuma equipe: também 22%. O dado merece atenção porque revela uma parcela expressiva da população distante do futebol de clubes, sobretudo entre as mulheres, grupo no qual o índice de pessoas sem preferência chega a 29%.
Essa categoria, entretanto, não disputa a classificação com Flamengo, Corinthians ou qualquer outra instituição. “Nenhum time” representa ausência de escolha, não uma torcida organizada ao redor de uma marca, de jogos ou de produtos. O número é relevante para analisar o alcance social do futebol e o espaço disponível para atrair novos públicos, mas não altera o fato de que o Flamengo lidera entre todos os clubes citados.
A tentativa de colocar os sem time como uma espécie de campeão da pesquisa mistura perguntas diferentes. Uma delas procura saber qual agremiação possui mais adeptos; a outra mede quantas pessoas não mantêm vínculo com nenhuma equipe. Em 2019, o Datafolha já havia encontrado 22% sem clube, diante de 20% de flamenguistas, mostrando que esse contingente não surgiu agora nem representa necessariamente uma rejeição crescente ao futebol.
Comparações internacionais apresentadas no debate também sugerem que a parcela brasileira não é excepcionalmente elevada. Ainda assim, diferenças culturais e metodológicas impedem a utilização automática de pesquisas feitas na Argentina, Espanha, Itália, Alemanha ou Inglaterra como se todas medissem exatamente o mesmo comportamento. O dado pode oferecer contexto, mas não deve ser usado como prova definitiva de que o Brasil possui mais ou menos interesse por clubes do que outros países.
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Torcida representa potencial, não receita garantida
A pesquisa possui valor comercial evidente. Um clube com presença nacional pode apresentar sua dimensão a patrocinadores, negociar exposição de marca, desenvolver produtos regionais e construir estratégias de comunicação além de sua cidade de origem. O recorte com entrevistados a partir dos 16 anos também contempla uma população mais próxima do mercado de consumo, embora isso não signifique que todos possuam renda disponível ou o mesmo poder de compra.
Transformar torcida em dinheiro exige trabalho. O Flamengo precisa converter alcance em programas de associação, produtos licenciados, audiência digital, consumo de conteúdo e relacionamento direto. Ter 22% da preferência nacional oferece uma vantagem competitiva, mas não garante eficiência comercial. Uma instituição pode possuir milhões de adeptos e, ainda assim, desperdiçar parte desse potencial com preços excludentes, atendimento precário, produtos pouco acessíveis ou ausência em regiões distantes.
Os números também deveriam influenciar decisões institucionais. Um clube que alcança 29% no Nordeste e 34% no Norte e Centro-Oeste não pode organizar toda a sua estratégia como se sua comunidade estivesse restrita aos bairros próximos da Gávea. Jogos, eventos, lojas, ações sociais, conteúdos e programas comerciais precisam reconhecer onde essa população vive.
Esse debate é mais produtivo do que procurar defeitos seletivos apenas quando o Flamengo aparece na liderança. Toda pesquisa amostral possui limitações, e o próprio tamanho de determinados recortes regionais aumenta as margens de erro. A postura correta é confrontar estudos diferentes, observar tendências e exigir transparência metodológica, não escolher o instituto que apresenta o resultado mais conveniente para cada torcida.
O Datafolha não encerra a discussão sobre o tamanho exato das torcidas brasileiras, mas confirma uma tendência histórica difícil de negar: o Flamengo possui a maior base nacional, apresenta capilaridade superior à dos concorrentes e mantém vantagem relevante sobre o Corinthians. A pesquisa pode ser debatida, comparada e questionada, desde que a crítica não seja utilizada como disfarce para recusar um resultado consolidado ao longo de mais de três décadas.
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