O jornalista Sérgio Xavier Filho contestou a efetividade da pesquisa Datafolha que apontou o Flamengo com 22% da preferência nacional, diante de 14% do Corinthians, após o instituto ouvir 2.004 pessoas em diferentes regiões do Brasil. O argumento central apresentado por ele é que o futebol brasileiro possui uma distribuição territorial fragmentada demais para ser retratada por levantamentos com dois ou quatro mil entrevistados, o que exigiria, em sua avaliação, uma base próxima de 20 mil respostas. A crítica identifica uma dificuldade real, mas chega a uma conclusão que não se sustenta apenas pela quantidade de participantes.
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O debate não deveria ser reduzido à defesa apaixonada do resultado favorável ao Flamengo nem à desqualificação automática de quem questiona o estudo. Toda pesquisa amostral possui limites e precisa ser examinada com atenção. O problema começa quando uma dúvida legítima sobre a representação de determinadas regiões se transforma na afirmação de que a margem de erro seria “infinita”, como se o desenho estatístico pudesse ser substituído por uma impressão pessoal sobre o tamanho ideal da amostra.
A fragmentação regional existe
Sérgio Xavier está correto ao apontar que as torcidas brasileiras não estão distribuídas de maneira homogênea. Minas Gerais possui áreas dominadas por Atlético-MG e Cruzeiro, influência paulista no sul do estado, presença de equipes cariocas na região de Juiz de Fora e aproximações culturais com o Nordeste em outras localidades.
O Paraná apresenta complexidade semelhante. Clubes paulistas possuem força em determinadas regiões, enquanto Grêmio e Internacional avançam sobre áreas do oeste. Essa fragmentação dificulta a medição precisa de equipes com percentuais menores e pode esconder variações relevantes dentro de um mesmo estado.
Uma pesquisa nacional com pouco mais de duas mil entrevistas não consegue informar com exatidão a força de cada clube em todas as microrregiões brasileiras. Também não oferece precisão suficiente para afirmar, sem ressalvas, que uma equipe com 2% possui necessariamente mais torcedores do que outra situada em 1%.
Reconhecer essas limitações, contudo, não significa considerar o levantamento inútil. O estudo foi desenhado para estimar o comportamento nacional, não para produzir um censo detalhado de cada cidade, bairro ou faixa territorial. Para responder a perguntas regionais mais específicas, seria necessário criar outra amostra, com maior concentração de entrevistas nos locais investigados.
Quantidade não substitui representatividade
A principal fragilidade da crítica aparece na comparação com uma pesquisa feita a partir de aproximadamente 50 mil assinantes de uma revista esportiva. Um número elevado de respostas causa impressão de robustez, mas não resolve os problemas provocados pela seleção do público.
Assinantes de uma publicação podem compartilhar características de renda, idade, escolaridade, localização, gênero e interesse por futebol diferentes das encontradas na população brasileira. Mesmo com 50 mil participantes, a base continuaria excluindo ou sub-representando pessoas sem condições financeiras para manter a assinatura, leitores ocasionais e cidadãos que consomem esporte por outros meios.
Esse problema é conhecido como viés de seleção. A amostra cresce, porém continua formada por um grupo específico. Em determinadas situações, duas mil entrevistas distribuídas com critérios geográficos, demográficos e socioeconômicos podem representar melhor o país do que dezenas de milhares de respostas obtidas entre consumidores de um único produto.
Não basta perguntar qual é o clube de cada assinante e transformar a contagem em retrato nacional. Uma pesquisa precisa definir quem será entrevistado, como essas pessoas serão selecionadas, quais pesos serão aplicados e de que maneira a composição da amostra reproduzirá as características conhecidas da população.
O tamanho importa, mas não trabalha sozinho. Representatividade, estratificação e correção dos desequilíbrios são fundamentais para que o levantamento não reflita apenas o universo mais fácil de alcançar.
Ampliar a amostra não elimina o erro
Outro ponto problemático está na defesa de 20 mil entrevistas como uma espécie de número mínimo. A redução da margem de erro não ocorre na mesma proporção do crescimento da amostra. Multiplicar a quantidade de participantes por dez não divide a incerteza por dez.
Em termos aproximados, uma pesquisa com duas mil entrevistas pode apresentar erro máximo pouco superior a dois pontos percentuais, dependendo de seu desenho. Para reduzir esse intervalo para cerca de um ponto, seria necessário chegar próximo de dez mil participantes. Com 20 mil, a margem cairia para algo ao redor de 0,7 ponto, mas o custo aumentaria de forma muito mais acentuada do que o ganho de precisão.
Isso não significa que pesquisas maiores sejam dispensáveis. Elas oferecem melhor capacidade para analisar subgrupos, regiões e clubes com percentuais reduzidos. A questão é que não existe fundamento para declarar inválido um levantamento nacional somente porque ele não alcançou o número arbitrariamente escolhido por um comentarista.
O Datafolha informa margem de erro e nível de confiança justamente porque não apresenta seus números como uma verdade absoluta. O resultado é uma estimativa produzida dentro de determinados parâmetros, não a contagem individual de todos os brasileiros.
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Oito pontos não desaparecem na margem
A amostra pode ter limitações para organizar os clubes menores, mas o resultado principal é muito mais difícil de contestar. O Flamengo aparece com 22%, enquanto o Corinthians registra 14%. A distância de oito pontos percentuais é ampla demais para ser apagada pela margem geral declarada.
Mesmo considerando oscilações para cima e para baixo, os intervalos dos dois primeiros colocados não se encontram. Isso oferece sustentação estatística para afirmar que o Flamengo lidera e o Corinthians ocupa a segunda posição no recorte nacional.
A série histórica também precisa entrar na análise. O Datafolha realiza pesquisas de torcida desde 1993 e o Flamengo permaneceu na primeira colocação ao longo desse período. Os percentuais variaram, o Corinthians chegou a encurtar a distância e houve momentos de empate técnico, mas a liderança rubro-negra não surgiu apenas em uma rodada isolada.
Quando estudos conduzidos em diferentes anos apontam repetidamente para a mesma direção, a tendência ganha força. Uma eventual distorção territorial poderia afetar percentuais e posições intermediárias, porém seria necessário demonstrar por que o método produziria continuamente uma vantagem artificial para o mesmo clube durante mais de três décadas.
Pesquisa eleitoral não é a comparação central
O debate também recuperou o fato de que institutos utilizam amostras semelhantes para medir intenções de voto em eleições nacionais. A comparação possui alguma utilidade, pois mostra que não é necessário entrevistar milhões de pessoas para estimar o comportamento de uma população numerosa.
Ainda assim, preferência clubística e escolha eleitoral são fenômenos diferentes. O voto pode se alterar com campanha, conjuntura econômica, candidaturas e acontecimentos recentes, enquanto a relação com um time tende a ser mais estável. Essa permanência não torna automaticamente a pesquisa de torcidas mais simples, pois a fragmentação regional do futebol possui características próprias.
O melhor argumento em defesa do Datafolha não é afirmar que, se duas mil entrevistas funcionam para eleições, obrigatoriamente servirão para qualquer assunto. A sustentação mais sólida está no método, no desenho amostral, na distribuição dos entrevistados e na coerência dos resultados ao longo do tempo.
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CASO PREFIRA OUVIR:
A crítica precisa usar as ferramentas que cobra
Sérgio Xavier trouxe uma inquietação relevante ao lembrar que o futebol brasileiro muda de perfil dentro dos próprios estados. O problema não está em questionar a pesquisa, mas em apresentar como solução uma base de assinantes que carrega seus próprios vícios e pode representar o país de maneira ainda menos fiel.
A contestação seria mais consistente caso identificasse falhas concretas na seleção dos municípios, nos pesos demográficos, na distribuição regional ou na formulação da pergunta. Dizer apenas que duas mil pessoas são insuficientes e que 20 mil seriam necessárias troca o debate metodológico por uma escolha sem demonstração técnica.
Também seria possível defender uma pesquisa complementar, voltada aos interiores, às torcidas mistas e às zonas de influência entre estados. Esse novo estudo poderia aperfeiçoar a compreensão sobre clubes que aparecem com percentuais pequenos, sem apagar as conclusões nacionais que possuem diferenças suficientemente amplas.
O Datafolha não oferece uma fotografia perfeita de cada pedaço do Brasil, e nenhum instituto sério deveria reivindicar essa capacidade com uma única amostra nacional. O levantamento, no entanto, apresenta evidências fortes para a liderança do Flamengo e a segunda posição do Corinthians, enquanto exige cautela nas disputas entre equipes com índices próximos.
Questionar é parte do jornalismo. A responsabilidade seguinte é submeter a própria crítica ao mesmo rigor exigido da pesquisa. Quando a objeção abandona a metodologia e se apoia apenas no tamanho bruto de uma base enviesada, deixa de esclarecer as limitações do estudo e cria uma conclusão mais frágil do que os números que pretende combater.
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