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Atlético-MG alfineta Flamengo e passa vergonha com o Manto da Nação

Atlético-MG alfineta Flamengo e passa vergonha com o Manto da Nação

O Atlético-MG decidiu entrar na conversa sobre o Manto da Nação, projeto lançado pelo Flamengo para permitir que torcedores desenhem, votem e vistam uma camisa criada pela própria Nação, mas acabou transformando uma provocação de rede social em um problema de memória. Depois do anúncio rubro-negro, o perfil do clube mineiro publicou uma alfinetada sugerindo semelhança com o Manto da Massa, campanha do Galo criada em 2020 e mantida até 2023. A ironia poderia passar como brincadeira de social media, mas a tentativa de insinuar pioneirismo ignora um dado básico: concursos para camisas feitas por torcedores já existiam antes do projeto atleticano, inclusive no próprio Rubro-Negro, que teve um uniforme desenhado por torcedor em 2017, em uma ação internacional da Adidas ao lado de Bayern de Munique, Real Madrid, Manchester United, Juventus e Milan.


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A manifestação do Atlético-MG parte de uma premissa frágil. O clube parece querer dizer que o Flamengo teria copiado uma ideia criada em Belo Horizonte, como se a relação entre torcedor, camisa e concurso cultural tivesse nascido na Arena MRV ou no departamento de marketing alvinegro. O problema é que a cronologia derruba a piada. Em 2020, ano em que o Galo lançou sua ação, uma matéria já registrava que uniformes criados por torcedores vinham ganhando espaço em vários clubes. Náutico, Ponte Preta, Ceará e outros projetos apareciam no mesmo debate, mostrando que a ideia já circulava no futebol brasileiro e internacional.

O Flamengo já tinha feito antes

O ponto mais constrangedor para a provocação atleticana é que o Flamengo participou de uma ação desse tipo antes do Manto da Massa. Em 2017, a Adidas promoveu um concurso internacional em que torcedores puderam criar o terceiro uniforme de clubes do seu portfólio. O Flamengo esteve ao lado de gigantes europeus como Bayern, Real Madrid, Manchester United, Juventus e Milan. No caso rubro-negro, o modelo vencedor foi a camisa amarela com detalhes em azul, posteriormente lançada oficialmente e utilizada em campo.

A camisa criada por torcedor foi apresentada pelo Flamengo em julho de 2017, com estreia prevista contra o Coritiba, na Ilha do Urubu. O modelo foi desenhado por André, brasiliense de 19 anos, que contou não ser designer e ter descoberto a ferramenta que permitia aos torcedores enviar sugestões ao clube. A fala do vencedor reforça exatamente o espírito desse tipo de projeto: transformar uma ideia de arquibancada em produto oficial.

Esse episódio torna a provocação do Atlético ainda mais vazia. Se a discussão for cronológica, o Flamengo fez antes. Se a discussão for de originalidade, outros clubes também fizeram. Se a discussão for de conceito, a Adidas já tinha usado a lógica colaborativa em escala internacional. Portanto, a tentativa de tratar o Manto da Nação como uma cópia do Manto da Massa não resiste a uma consulta básica à própria história recente das camisas de futebol.

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Santa Cruz, Náutico, Ceará e a memória seletiva

Antes mesmo do Flamengo de 2017, o Santa Cruz já havia lançado o Manto das Multidões, concurso criado ainda em 2016 para definir o terceiro uniforme que seria adotado na temporada seguinte. A iniciativa teve voto popular, 160 concorrentes e terminou com o desenho de Mateus Ventura escolhido para virar camisa oficial em 2017. Ou seja, quando o Atlético-MG resolveu olhar de cima para baixo para o projeto Rubro-Negro, ignorou que a ideia de envolver torcedores em uniformes já tinha estrada no futebol brasileiro.

O próprio levantamento citado mostra que, em 2020, clubes como Náutico, Ceará e Ponte Preta também apareciam em iniciativas semelhantes. O Náutico, por exemplo, lançou o “Manto é Seu”, enquanto o Ceará e a Ponte já tinham apresentado modelos criados com participação de torcedores. A lista ainda passava por experiências internacionais, como o Pescara, na Itália. O cenário era amplo, diverso e anterior à pretensão de exclusividade atleticana.

A diferença é que o Flamengo transforma qualquer ação em escala muito maior. Quando o clube rubro-negro lança um projeto, o alcance nacional e internacional da torcida muda a dimensão do debate. O Manto da Nação teve mais de 2 mil propostas em menos de 24 horas, mobilizou rubro-negros de dezenas de países e gerou enorme engajamento nas redes. Esse impacto talvez explique a reação do Atlético. Não é que a ideia seja inédita. É que, no Flamengo, ela fica maior.

A rivalidade fabricada no marketing

O Atlético-MG tem uma rivalidade real e histórica com o Flamengo em campo, especialmente por causa dos confrontos de 1980 e 1981, das disputas nacionais e da memória construída em torno de jogos grandes. O problema é quando a instituição tenta transportar esse ressentimento para qualquer pauta, mesmo quando o assunto é camisa feita por torcedor. Aí a provocação deixa de ser rivalidade e vira necessidade de aparecer na conversa rubro-negra.

Há um componente de egocentrismo nessa postura. O Atlético parece querer ocupar o lugar de inventor de uma ideia que não inventou. O Manto da Massa foi uma ação bem-sucedida, movimentou a torcida atleticana e teve mérito dentro do seu contexto. Isso não autoriza o clube a agir como dono do conceito. Projetos colaborativos existem há anos, em diferentes formatos, com diferentes clubes e fornecedores. O Flamengo não está copiando o Atlético. Está participando de uma tendência consolidada, que ele próprio já havia experimentado em 2017.

A ironia é que, se alguém insistir em fazer comparação direta, o Atlético sai pior. Pela linha do tempo, o Flamengo lançou uma camisa criada por torcedor três anos antes do Manto da Massa. Além disso, participou de uma iniciativa global da Adidas com clubes gigantes da Europa, o que dava ao projeto um peso internacional que o Galo não tinha. O próprio vice-presidente de marketing do Flamengo à época, Daniel Orlean, destacou que estar ao lado de Bayern, Real Madrid, Manchester United, Juventus e Milan mostrava mundialmente o poder do Flamengo e da torcida rubro-negra.

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O Manto da Nação não precisa pedir licença

O Manto da Nação é uma ação do Flamengo para sua torcida. Pode ter semelhanças com projetos anteriores, como todos os concursos de camisa criados por torcedores têm. A diferença está no alcance, na execução, no modelo de votação, na produção sob demanda e no peso simbólico de transformar a criatividade rubro-negra em produto oficial. Se o Atlético quiser brincar, faz parte do jogo das redes. Mas, se quiser reivindicar autoria, precisa combinar antes com a história.

O episódio também mostra como o Flamengo se tornou referência inevitável até para quem tenta provocá-lo. O clube lança uma campanha, a torcida abraça, os números explodem, o site sofre com a procura, e o rival aparece tentando lembrar que também fez algo parecido. O efeito prático é o contrário do pretendido: em vez de diminuir o projeto rubro-negro, a alfinetada ajuda a ampliar o alcance da ação e ainda abre espaço para lembrar que o Flamengo já esteve nesse tipo de iniciativa antes do próprio Atlético.

No fim, a tentativa de lacrada virou autogol institucional. O Atlético-MG poderia simplesmente valorizar sua própria história com o Manto da Massa, sem tentar insinuar que o Flamengo copiou algo que não nasceu em Minas. Ao escolher a provocação, expôs uma memória seletiva e uma vontade permanente de medir forças com o Rubro-Negro até quando os fatos não ajudam. O Flamengo não inventou os concursos de camisa, o Atlético também não. A diferença é que, quando a Nação entra em campo, até uma ideia conhecida ganha escala de acontecimento.

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