A discussão sobre o comportamento do torcedor do Flamengo voltou ao centro do noticiário esportivo depois que Bruno Vicari e André Hernan, durante participação em programa na ESPN, associaram a presença massiva no AeroFla a uma suposta “cultura” do carioca que “para a cidade”. As falas, feitas ao vivo em São Paulo, rapidamente repercutiram nas redes, alimentando críticas sobre xenofobia e preconceito social. A reação veio tanto do público quanto de outros profissionais, e um dos contrapontos mais fortes partiu de Mauro Cezar Pereira, que classificou a generalização como ofensiva e equivocada.
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Os comentários surgiram ao analisarem a mobilização rubro-negra no embarque para a final continental. Vicari sugeriu que manifestações daquele porte dificilmente aconteceriam em São Paulo por causa do “ritmo da cidade”, reforçando a ideia de que o carioca teria mais disponibilidade para esse tipo de evento. Hernan acompanhou a linha, argumentando que o torcedor paulista não deixaria suas obrigações para acompanhar o time. As colocações criaram um ambiente de insinuação, como se o envolvimento do torcedor no Rio fosse sinônimo de descompromisso, tese repetida em estereótipos antigos sobre baianos, nordestinos e trabalhadores de regiões populares.
O debate ganhou novo contorno quando Mauro Cezar rebateu as declarações. Em sua análise, lembrou que manifestações esportivas em dias úteis acontecem em todas as grandes capitais e que reduzir a mobilização do Flamengo a uma suposta “ociosidade” do carioca revela mais preconceito do que observação jornalística. Citou a rotina de quem acorda antes do amanhecer para trabalhar longe de casa, chamou de inconsequente a ideia de que “ninguém trabalha no Rio” e classificou o juízo como xenofóbico. A crítica atingiu o ponto sensível: a repetição de chavões que, para muitos, resvalam na tentativa de diminuir o peso cultural da maior torcida do país.
A situação não se limita ao episódio da ESPN. Nas últimas semanas, outras manifestações de teor semelhante apareceram em diferentes mesas-redondas. No programa da Placar, um torcedor do Palmeiras chamou os rubro-negros de “sub-raça”, expressão que escapa completamente do debate esportivo e remete a períodos obscuros da história. A reincidência de termos desse tipo se soma a um histórico de ataques dirigidos ao flamenguista, alguns antigos o bastante para terem sido absorvidos pelo vocabulário do futebol, como “mulambo” ou “urubu”, palavras que carregam interpretações sociais marcadas pelos anos 40 e 50, quando a presença popular e majoritariamente negra da torcida passou a incomodar rivais e setores da imprensa.
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Essa discussão reaparece sempre que o Flamengo movimenta uma massa que ultrapassa fronteiras. O AeroFla reuniu cerca de 25 mil pessoas, segundo estimativas, a maior parte formada por torcedores que dificilmente frequentam o Maracanã com regularidade ou que não têm condições de viajar para acompanhar o time fora do país. Para muitos, aquele ritual é o único contato próximo com os ídolos. O entusiasmo do público, reproduzido em imagens que circularam no mundo inteiro, incomoda justamente por mostrar a força social do clube num espaço que os rivais, por diferentes razões, não conseguem ocupar com a mesma intensidade.
A repercussão também chegou à cobertura do UOL, onde PVC comentou o episódio da invasão ao ônibus, apontando que Léo Pereira teria reprovado a atitude. Porém, na fala completa, o zagueiro não expressa rejeição; faz ponderações sobre segurança e reconhece o impacto emocional da festa. Ele ri, relativiza e tenta apenas separar empolgação de risco, algo distante da interpretação colocada no ar. A leitura rígida de PVC reforça a sensação de que há sempre uma tentativa de transformar exceções em regra, direcionando o foco para episódios pontuais e ignorando a dimensão do evento como manifestação coletiva.
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A recorrência desses comentários expõe um embate que ultrapassa a rivalidade esportiva. Parte da imprensa ainda se apoia em discursos que infantilizam ou estigmatizam torcedores, especialmente quando a mobilização envolve multidões de baixa renda ou recortes geográficos tradicionais do Rio. A resposta incisiva de Mauro Cezar, por mais dura que soe, encontra apoio justamente por reequilibrar a narrativa. Não se trata de defender o clube, mas de evitar que análises jornalísticas se transformem em reforço de preconceitos.
O Flamengo, por sua dimensão social, segue provocando reações desproporcionais. E, quando isso acontece, volta à tona a profecia repetida por Leandro em entrevistas antigas: o clube é grande demais para caber nas expectativas alheias. A pressão, o incômodo e as narrativas enviesadas sempre existiram. A diferença é que hoje, com câmeras e redes, tudo fica registrado. O torcedor, acostumado a enfrentar esse tipo de julgamento desde a infância, reconhece de longe quando a crítica ultrapassa o campo e entra no território perigoso das generalizações.
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Por Tulio Rodrigues (@PoetaTulio)
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