As recentes críticas de Alícia Klein a Abel Ferreira reacenderam um debate que vai além do comportamento do treinador do Palmeiras. Ao comentar, com Milly Lacombe, o episódio em que Abel chutou um microfone, a jornalista afirmou que o português demonstra “uma falta de humildade e uma arrogância quase colonizadora”. A declaração ganhou repercussão justamente porque, quatro anos antes, a própria Alícia havia escrito uma coluna em que reconhecia características semelhantes no treinador, mas adotava uma postura essencialmente defensiva em relação a ele.
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A diferença entre os dois momentos está menos no reconhecimento dos defeitos de Abel e mais na maneira como eles são interpretados. Em março de 2022, na coluna intitulada “O Abel Ferreira que não querem ver”, publicada no UOL, Alícia abriu o texto relacionando uma série de adjetivos que já eram utilizados para definir o português: “esquentado”, “nervosinho”, “retranqueiro”, “limitado”, “colonizador” e alguém que “fala mal de jornalista”. A partir daí, porém, o texto seguia em outra direção.
A jornalista apresentava um Abel diferente daquele retratado por seus críticos. Destacava o treinador sorridente depois das partidas, simpático com torcedores, vulnerável ao falar sobre a dificuldade de conciliar a carreira com a família e capaz de demonstrar emoções. Também valorizava seus resultados à frente do Palmeiras, lembrando as conquistas e a capacidade de variar escalações e estratégias.
O trecho mais importante para compreender a comparação atual aparece quando Alícia afirma que era necessário mudar o “viés” e olhar para Abel “com um pouco menos de ranço”. Naquele momento, ela argumentava que parte das críticas ao treinador havia se tornado excessiva e que seus quatro títulos, incluindo duas Libertadores, já não permitiam ignorar sua capacidade profissional. Ao final, reconhecia que Abel havia conquistado a identificação com a torcida palmeirense e se transformado em ídolo em pouco tempo.
É justamente aí que está a contradição explorada no debate atual. Não se trata de dizer que Alícia desconhecia o comportamento controverso de Abel ou que nunca havia feito ressalvas a ele. Ela conhecia e registrou essas características em 2022. O que mudou foi o enquadramento. Naquele texto, o reconhecimento dos problemas servia como ponto de partida para uma defesa do treinador e para uma crítica ao que considerava um excesso de rejeição. Agora, diante de novos episódios, características semelhantes aparecem como elementos centrais de uma condenação muito mais severa.
O episódio do microfone
A discussão ganhou novo combustível depois que Abel Ferreira chutou um microfone no campo. Ao comentar a cena, Alícia adotou uma linguagem bastante mais contundente do que aquela utilizada em sua coluna de 2022. A expressão “arrogância quase colonizadora” não surgiu apenas como uma crítica pontual ao episódio, mas foi inserida em uma avaliação mais ampla sobre a postura do treinador.
O argumento apresentado por Alícia também passa pela responsabilidade que acompanha o tamanho alcançado por Abel no Palmeiras. Depois de anos de conquistas, estabilidade e respaldo institucional, a avaliação é de que o treinador teria condições de assumir maior responsabilidade pelos resultados e pelos episódios em que se envolve, em vez de transferir constantemente o foco para arbitragem, gramado, jogadores ou decisões do STJD.
Essa é uma discussão diferente daquela feita por Alícia quatro anos antes. Em 2022, o sucesso esportivo era utilizado para relativizar a rejeição ao treinador. Agora, o próprio tamanho alcançado por Abel aparece como razão para cobrar dele uma postura compatível com sua posição.
O “colonizador” de 2022
A palavra “colonizador” merece atenção especial porque é justamente um dos pontos que tornam a comparação mais interessante. Alícia não passou a conhecer esse rótulo agora. Ela já o havia colocado no início de sua coluna de 2022. A diferença é que, naquele texto, a palavra fazia parte de uma lista de características atribuídas ao treinador que seriam posteriormente relativizadas.
A jornalista não negava que Abel pudesse ser “esquentado”, “nervosinho” ou alguém que tivesse problemas com jornalistas. Ao contrário, essas características estavam explicitamente no texto. Mas o argumento era que elas não deveriam apagar outras dimensões do personagem. A autora apresentava o treinador como alguém vulnerável fora do campo, competente tecnicamente e merecedor de reconhecimento pelo que havia construído no Palmeiras.
Até mesmo quando tratava da relação de Abel com a imprensa, a coluna buscava apresentar um contraponto. Alícia lembrava um episódio de conflito entre o treinador e profissionais da mídia e observava que, naquela ocasião, ele havia elogiado o jornalista Gabriel Yokota pela qualidade da pergunta e pelo conhecimento sobre futebol.
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A questão do dedo do meio e outros episódios
O contraste também pode ser observado quando entram na discussão episódios anteriores envolvendo Abel e gestos considerados inadequados. No debate atual, são recuperadas situações em que o treinador teria adotado comportamentos provocativos ou ofensivos, incluindo o episódio do gesto obsceno.
O ponto levantado não é necessariamente que Alícia estivesse proibida de rever sua opinião. Jornalistas, como qualquer pessoa, podem mudar de avaliação conforme novos acontecimentos, comportamentos e informações aparecem. Uma análise feita em 2022 não precisa determinar para sempre a posição de alguém quatro anos depois.
A questão é outra: o que explica a mudança de interpretação sobre comportamentos que, em essência, já estavam presentes no personagem analisado anteriormente? Se o treinador era chamado de “colonizador” naquela época e a autora reconhecia conflitos com jornalistas, por que esses elementos eram relativizados enquanto agora são utilizados para sustentar uma crítica muito mais dura?
É essa pergunta que dá força ao argumento apresentado no vídeo.
O peso de Palmeiras e Abel
Outro aspecto importante da discussão é o papel do próprio Palmeiras na construção da figura de Abel Ferreira. Alícia argumentava em 2022 que o treinador havia capturado a identidade da torcida, abraçado o ambiente palmeirense e se transformado rapidamente em ídolo. Para ela, os títulos já haviam tornado impossível ignorar sua relevância.
Hoje, a avaliação apresentada por ela parte de uma posição diferente: justamente por ter alcançado esse status, Abel teria uma responsabilidade maior sobre aquilo que faz e fala. A força institucional do Palmeiras, seus recursos e a segurança que o treinador conquistou ao longo dos anos seriam fatores que deveriam ampliar, e não diminuir, sua cobrança.
Essa mudança torna o debate mais interessante do que uma simples disputa entre quem gosta ou não de Abel Ferreira. O treinador pode continuar sendo um dos profissionais mais vitoriosos da história recente do clube e, ao mesmo tempo, ser questionado por sua conduta. O problema está em saber se os mesmos critérios utilizados para avaliar seu comportamento são aplicados de maneira consistente ao longo do tempo.
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Mudança de opinião ou mudança de critério?
É perfeitamente legítimo que Alícia Klein tenha mudado sua avaliação sobre Abel Ferreira. O futebol de 2026 não é o mesmo de 2022, o treinador acumulou novos episódios, aumentou seu peso dentro do Palmeiras e também passou a ocupar uma posição ainda mais central no debate esportivo.
Mas a comparação entre os dois momentos continua sendo válida. Em 2022, Alícia já tinha diante de si um treinador descrito como “colonizador”, “nervosinho” e alguém que falava mal de jornalistas. Ainda assim, sua conclusão era uma defesa: era preciso abandonar o “ranço”, olhar o personagem de outra forma e reconhecer que se tratava de um profissional diferenciado.
Agora, a expressão “arrogância quase colonizadora” representa uma leitura muito mais severa do mesmo tipo de comportamento. A discussão, portanto, não precisa terminar na acusação de que alguém “mudou de lado”. O questionamento mais preciso é saber se houve apenas uma mudança legítima de opinião diante de novos acontecimentos ou se os critérios usados para interpretar Abel também mudaram conforme o contexto.
No futebol, opiniões mudam com resultados, títulos, derrotas e novos episódios. O que permanece é o registro do que foi escrito e dito anteriormente. E, nesse caso, a coluna de 2022 oferece justamente o contraponto que torna a declaração atual de Alícia Klein tão relevante para o debate: ela já reconhecia os rótulos que hoje aparecem novamente, mas naquela ocasião escolheu olhar para Abel por outro ângulo e defendê-lo de parte das críticas que recebia.
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