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Danilo Lavieri ataca o Flamengo e transforma sorte em “presente” dos rivais

Danilo Lavieri cria falsa simetria em possível conflito no Flamengo com caso de Palmeiras e Vasco

Imagem: Reprodução / UOL

A coluna de Danilo Lavieri no UOL, publicada durante a reta decisiva do Campeonato Brasileiro de 2026, provocou reação ao afirmar que o Flamengo havia aproveitado o quarto “presente” dos adversários nos últimos cinco jogos. O texto, que chamou atenção para as escalações alternativas utilizadas por equipes que enfrentaram o Rubro-Negro, abriu espaço para uma discussão que vai além da escolha de palavras: até que ponto a decisão de poupar titulares, motivada pelo calendário e por outras competições, pode ser apresentada como uma espécie de benefício concedido deliberadamente ao líder da disputa?


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A controvérsia ganhou força nas redes sociais e chegou ao debate entre jornalistas. Mauro Cezar Pereira contestou a abordagem, enquanto torcedores passaram a questionar o enquadramento adotado pelo colunista. O ponto central não está em negar que o Flamengo tenha enfrentado adversários com equipes modificadas. Isso aconteceu. A questão é atribuir a essas decisões um sentido que não está necessariamente demonstrado pelos fatos.

Sorte não é presente

A palavra escolhida por Lavieri tem peso. Um presente é algo oferecido a alguém, uma concessão que pressupõe uma ação voluntária em benefício de outra pessoa. Quando o colunista afirma que o Flamengo recebeu quatro presentes, a construção pode sugerir que os adversários, de alguma maneira, facilitaram o caminho rubro-negro. Entretanto, a existência de escalações alternativas não comprova intenção de favorecer o clube carioca.

O próprio calendário do futebol brasileiro oferece uma explicação mais plausível para essas escolhas. Com competições simultâneas, jogos decisivos e desgaste físico acumulado, treinadores precisam administrar seus elencos. Em determinadas rodadas, a prioridade pode ser uma semifinal de Copa do Brasil, uma decisão continental ou a recuperação de jogadores importantes. São decisões esportivas que podem beneficiar um concorrente indiretamente, mas não significam que tenham sido tomadas para ajudá-lo.

Nesse contexto, a palavra sorte seria mais adequada. O Flamengo pode ter sido favorecido pela circunstância de encontrar adversários desfalcados ou com formações alternativas, assim como outros clubes também foram beneficiados por situações semelhantes ao longo da temporada. Isso faz parte de uma competição em que o desempenho de uma equipe não depende exclusivamente do que ela própria realiza, mas também das condições encontradas em cada confronto.

A diferença entre reconhecer uma vantagem circunstancial e insinuar uma concessão deliberada não é pequena. A primeira interpretação descreve um acontecimento esportivo. A segunda exige elementos que demonstrem uma intenção. Sem essa comprovação, a escolha de um termo como “presente” acaba produzindo uma narrativa mais carregada do que a situação permite sustentar.

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O retrospecto que ficou fora do enquadramento

Outro aspecto relevante é o desempenho do Flamengo contra alguns desses adversários no primeiro turno. A equipe rubro-negra já havia enfrentado Atlético-MG, Fluminense e Grêmio com formações titulares e conquistado resultados expressivos. Aplicou 4 a 0 no time mineiro, venceu o rival tricolor por 2 a 0 e derrotou o Grêmio por 1 a 0, em Porto Alegre. Contra o Vasco, abriu dois gols de vantagem, embora não tenha conseguido transformar o início favorável em vitória.

Esses resultados ajudam a dimensionar a discussão. O Flamengo não construiu sua campanha apenas em confrontos contra equipes reservas. Também demonstrou capacidade de vencer adversários com suas principais peças, inclusive fora de casa. A sequência recente pode ter oferecido condições mais favoráveis, mas não apaga o desempenho anterior nem autoriza reduzir a campanha do líder a uma sucessão de circunstâncias externas.

Há ainda uma contradição histórica que merece ser lembrada. Em 2022 e 2023, o Flamengo priorizou as competições eliminatórias em diferentes momentos da temporada e acabou deixando pontos pelo caminho no Campeonato Brasileiro. O Palmeiras aproveitou essas oportunidades e conquistou os dois títulos nacionais. Naquela ocasião, o clube paulista não foi tratado como beneficiário de presentes oferecidos pelo rival, mas como uma equipe que soube aproveitar os pontos perdidos pelo concorrente.

O raciocínio precisa valer nos dois sentidos. Se um clube administra o elenco e perde pontos, o adversário que vence faz o próprio trabalho. Se o Flamengo encontra um rival com jogadores poupados e conquista a vitória, também precisa ter reconhecido seu mérito dentro de campo. A análise pode discutir a influência do calendário, mas não deveria transformar decisões técnicas legítimas em indícios de favorecimento sem apresentar provas.

O problema não é falar de Palmeiras

A discussão também alcançou o perfil editorial da coluna de Lavieri. O fato de um jornalista dedicar boa parte de seus textos ao clube que acompanha profissionalmente ou pelo qual demonstra preferência não representa, por si só, um problema. Um colunista pode ter um tema recorrente, uma especialidade ou um recorte editorial. A questão aparece quando o espaço destinado à análise de outros clubes se torna muito mais restrito e, especialmente, quando o Flamengo surge quase sempre sob uma perspectiva negativa.

A comparação com outros profissionais ajuda a compreender essa diferença. Colunistas como Mauro Cezar Pereira e Rodrigo Mattos também abordam o Flamengo com frequência, mas apresentam maior variedade de assuntos, incluindo outros clubes, questões administrativas, mercado, arbitragem e temas gerais do futebol. O mesmo acontece com jornalistas que têm identificação pública com outras equipes. Juca Kfouri, por exemplo, aborda o Corinthians, mas não limita sua produção ao clube.

No caso de Lavieri, a percepção é de que o Palmeiras ocupa um espaço predominante, enquanto as referências ao Flamengo aparecem com maior frequência em contextos críticos. Isso não torna uma opinião automaticamente inválida, tampouco impede o jornalista de questionar o desempenho rubro-negro. O que se espera de um profissional que ocupa espaço em um veículo de alcance nacional é que a crítica esteja amparada por critérios consistentes e que a linguagem não conduza o leitor a conclusões que os fatos não sustentam.

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A narrativa do favorecimento

A repercussão da coluna mostra como determinadas escolhas editoriais podem ultrapassar a análise esportiva e alimentar interpretações mais amplas. Um torcedor palmeirense que questiona a sequência de escalações alternativas dos adversários do Flamengo tem todo o direito de fazê-lo. Pode discutir o calendário, a distribuição das rodadas, os critérios dos treinadores e até defender mudanças no regulamento. O problema começa quando a crítica deixa de examinar as decisões de cada clube e passa a sugerir uma articulação para favorecer um concorrente.

A hipótese se torna ainda menos convincente quando observamos os envolvidos. Fluminense, Vasco, Atlético-MG e Grêmio têm seus próprios objetivos, rivalidades e disputas. Imaginar que essas equipes tenham escolhido poupar jogadores para ajudar o Flamengo exigiria uma demonstração muito mais robusta do que a simples constatação de que alguns titulares não entraram em campo. No caso de clubes com rivalidades históricas e interesses esportivos próprios, a insinuação de uma colaboração deliberada não pode ser tratada como consequência natural de uma escalação alternativa.

O futebol oferece motivos suficientes para explicar a preservação de atletas: desgaste, lesões, suspensões, planejamento físico e prioridades competitivas. É possível discordar das escolhas dos treinadores, avaliar se foram acertadas ou apontar que determinada equipe poderia ter oferecido mais resistência. O que não se deve fazer é confundir uma decisão que favoreceu indiretamente o Flamengo com uma decisão tomada para beneficiá-lo.

A campanha rubro-negra pode ter sido favorecida por circunstâncias, assim como acontece com qualquer equipe que disputa um campeonato longo. Reconhecer isso não diminui o mérito do time, mas também não autoriza transformar adversários em agentes de uma suposta operação. A crítica esportiva ganha qualidade quando separa resultado, contexto e intenção. Quando esses elementos são misturados, a análise deixa de esclarecer o campeonato e passa a reforçar uma narrativa conveniente para quem já decidiu de que lado está.

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