Ícone do site Ser Flamengo

Danilo Lavieri muda discurso sobre Flamengo após debate com Mauro Cezar Pereira

Danilo Lavieri muda discurso sobre Flamengo após debate com Mauro Cezar Pereira

A discussão sobre a sequência de vitórias do Flamengo ganhou um novo capítulo após o jornalista Danilo Lavieri recorrer ao termo “sorte” para explicar a utilização da palavra “presente” em uma coluna publicada no UOL. O debate ocorreu no programa Posse de Bola, durante uma conversa com Mauro Cezar Pereira, e expôs uma diferença de interpretação que vai além de uma simples escolha vocabular: ao afirmar que o Rubro-Negro teria recebido presentes de adversários que pouparam titulares, a publicação abriu margem para uma leitura de favorecimento que não está demonstrada pelos fatos. Quando questionado, Lavieri passou a tratar as expressões como equivalentes, embora tenham sentidos distintos e produzam efeitos diferentes na construção de uma narrativa.


Ouça nossas análises e entrevistas sobre a eleição do Flamengo no seu agregador de podcast preferido: Spotify, Deezer, Amazon, iTunes, Youtube Music, Castbox e Anchor.


A coluna de Lavieri abordou a sequência recente do Flamengo e a participação de equipes que utilizaram formações alternativas em partidas contra o clube. O problema não está em apontar que o calendário, as escolhas dos treinadores e a condição física dos atletas podem ter favorecido circunstancialmente o time rubro-negro. Esse tipo de análise é legítimo e faz parte da cobertura esportiva. A questão está na maneira como o argumento foi apresentado e no significado atribuído à palavra escolhida para o título.

Sorte não é presente

A diferença entre os dois termos não é mero preciosismo. Sorte está relacionada ao acaso, a uma circunstância favorável que ocorre sem que necessariamente exista uma intenção por trás dela. Um time pode ter sorte em um sorteio, encontrar um adversário desfalcado ou ser beneficiado por um resultado paralelo. Presente, por outro lado, pressupõe uma concessão. É algo oferecido por alguém a outra pessoa, o que introduz uma relação entre quem entrega e quem recebe.

Quando se afirma que o Flamengo ganhou um presente dos rivais, a construção sugere que os adversários lhe proporcionaram uma vantagem. Dependendo do contexto, a expressão pode alimentar a interpretação de que houve uma espécie de facilitação, mesmo sem uma acusação explícita. Não é necessário afirmar diretamente que um clube entregou uma partida para produzir essa associação na cabeça do leitor. A escolha das palavras também orienta a percepção sobre os acontecimentos.

Foi justamente esse ponto que Mauro Cezar Pereira colocou em discussão. Ao ser confrontado com a expressão utilizada na coluna, Lavieri passou a falar em sorte, argumentando que a palavra poderia ser entendida como uma forma de descrever circunstâncias favoráveis. O deslocamento, entretanto, não resolve a questão central: o título não utilizou sorte, mas presente. Se a intenção era apenas apontar um cenário de casualidades positivas para o Flamengo, havia uma maneira mais precisa de fazê-lo.

A tentativa de tratar os dois termos como sinônimos enfraquece a própria defesa do texto. Um jornalista pode sustentar que o Flamengo foi beneficiado pelo planejamento de outros clubes, assim como pode avaliar que determinadas escalações facilitaram o caminho de uma equipe. O que não deveria acontecer é alterar o sentido da formulação original quando ela passa a ser questionada, sem explicar por que a palavra escolhida inicialmente seria adequada.

TRANSMISSÃO AO VIVO COMPLETA:

O mérito do Flamengo e o planejamento dos adversários

A discussão também precisa considerar o contexto dos jogos. O Flamengo construiu uma sequência expressiva de resultados, com dez vitórias em onze partidas, e enfrentou adversários que, em determinados momentos, optaram por preservar jogadores. Isso não elimina o mérito da equipe de Leonardo Jardim, tampouco autoriza ignorar as circunstâncias de cada confronto. O trabalho jornalístico exige justamente separar uma coisa da outra.

O Grêmio, por exemplo, utilizou uma formação alternativa em uma partida no Maracanã, mas o Flamengo já havia vencido o adversário em Porto Alegre, no primeiro turno, quando o time gaúcho contava com seus principais jogadores. A hipótese de que uma escalação mais forte necessariamente mudaria o resultado não passa de especulação. O mesmo raciocínio vale para o Vasco, que atravessava uma sequência ruim e tinha desfalques, e para o Fluminense, que também precisou administrar seu elenco em meio ao calendário de competições.

A decisão de poupar atletas não é uma exclusividade dos adversários do Flamengo. Trata-se de uma prática recorrente no futebol brasileiro, sobretudo em períodos de partidas decisivas por torneios diferentes. O Palmeiras também já preservou jogadores no Campeonato Brasileiro para priorizar outras disputas. Em 2022, por exemplo, o Fla, então comandado por Dorival Júnior, enfrentou o clube paulista com uma equipe reserva, mesmo ainda tendo possibilidade de brigar pelo título nacional. Na ocasião, a decisão rubro-negra também interferiu nas condições da disputa.

A lógica é simples: treinadores e departamentos de futebol fazem escolhas a partir dos objetivos e das necessidades de seus próprios clubes. Um time que poupa titulares não está necessariamente oferecendo uma vantagem a outro. Pode estar tentando evitar lesões, administrar desgaste ou preparar a equipe para uma partida considerada mais importante. A análise pode questionar a estratégia, mas atribuir uma intenção de beneficiar o Flamengo exige evidências que não foram apresentadas.

LEIA MAIS:

CASO PREFIRA OUVIR:

A diferença de tratamento e o peso da narrativa

Outro aspecto relevante é a maneira como a discussão ganhou dimensão. O Flamengo não precisa ter seus resultados blindados de críticas, nem está imune a avaliações sobre o nível dos adversários que enfrentou. É perfeitamente possível discutir o impacto de escalações alternativas na campanha. O que causa estranheza é transformar uma circunstância comum do calendário em elemento central para relativizar uma sequência de vitórias, sobretudo quando o argumento passa a ser associado à ideia de que o clube recebeu algo de seus concorrentes.

A comparação com a trajetória do Palmeiras na Copa do Brasil ajuda a ilustrar a diferença. O clube paulista encontrou adversários de divisões inferiores que, no início da competição, chegaram a vender o mando de campo. É possível dizer que o sorteio foi favorável ao Palmeiras naquele momento. Isso não significa que alguém tenha presenteado o time ou que os adversários tenham agido para facilitar sua classificação. A expressão adequada descreve uma condição do caminho percorrido, sem atribuir intenção a terceiros.

O mesmo critério deveria valer para o Flamengo. Se houve sorte em enfrentar equipes com desfalques ou formações modificadas, isso pode ser apontado. Mas o desempenho rubro-negro não desaparece por causa dessa circunstância. A equipe precisa entrar em campo, executar seu plano, superar o adversário e conquistar os resultados. A vitória sobre o Grêmio, por exemplo, não pode ser reduzida à escalação utilizada no confronto do Maracanã, ignorando o resultado obtido anteriormente em Porto Alegre.

Há ainda uma dimensão editorial nessa discussão. Uma coluna publicada em um veículo de grande alcance não tem o mesmo impacto de uma opinião isolada em uma conversa informal. O título funciona como porta de entrada para o conteúdo e, muitas vezes, é a única parte lida ou compartilhada pelo público. Por isso, a escolha de uma palavra que sugere uma concessão dos rivais não é irrelevante. Ela pode ampliar uma interpretação que o próprio autor, quando questionado, procura suavizar.

Lavieri poderia defender que sua intenção era apenas apontar a sorte do Flamengo diante das escalações adversárias. Poderia também sustentar que a sequência rubro-negra foi favorecida pelo contexto dos jogos. São posições legítimas, sujeitas a contestação. O problema é tentar justificar uma palavra com outra de significado diferente, especialmente quando a primeira foi escolhida para dar força ao título da publicação.

O debate não deveria servir para impedir críticas ao Flamengo ou transformar qualquer observação sobre seus adversários em perseguição. Jornalismo esportivo precisa questionar desempenho, planejamento e decisões técnicas, inclusive quando o assunto envolve o clube de maior torcida do país. Mas a precisão da linguagem é parte desse trabalho. Se o argumento é sobre sorte, que se fale em sorte. Se a afirmação é de que houve um presente, cabe explicar quem o ofereceu e em quais condições. Sem essa distinção, a discussão deixa de ser apenas sobre futebol e passa a alimentar uma suspeita que os fatos apresentados não sustentam.

Danilo Lavieri critica o jornalismo esportivo que ele próprio ajudou a construir

—

+ Siga o Ser Flamengo no Twitter, no Instagram e no Youtube.

Comentários
Sair da versão mobile