Em um intervalo de pouco mais de três meses, o jornalista Paulo Massini analisou duas partidas do Vitória contra os principais concorrentes ao título brasileiro e adotou posturas bastante diferentes diante de lances disciplinares semelhantes. Após a vitória do Flamengo por 2 a 1, no dia 22 de abril, no Maracanã, o comentarista defendeu expulsões de jogadores rubro-negros, cobrou explicações da Comissão de Arbitragem e afirmou que a CBF não poderia permanecer em silêncio. Depois da goleada do Palmeiras por 4 a 0, em 29 de julho, no Barradão, classificou como amarelo uma cotovelada de Maurício, rejeitou a avaliação predominante sobre a jogada e se irritou ao ser confrontado durante o debate.
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A discussão não está na possibilidade de um profissional interpretar dois episódios de maneiras distintas. Lances de futebol raramente são idênticos, e a análise disciplinar depende de fatores como intensidade, movimento do braço, ponto de contato, disputa da bola e risco provocado ao adversário. O problema surge quando os argumentos utilizados para exigir rigor em uma situação desaparecem diante de outra, especialmente quando a mudança coincide com a troca dos clubes envolvidos.
A cobrança após Flamengo x Vitória
Flamengo e Vitória se enfrentaram pela partida de ida da quinta fase da Copa do Brasil. O time carioca venceu por 2 a 1, com gols de Evertton Araújo e Pedro, enquanto Erick marcou para os baianos. Apesar do resultado construído dentro do jogo, a atuação de Anderson Daronco ganhou protagonismo por causa de três possíveis expulsões não aplicadas.
O primeiro episódio ocorreu logo no início, quando Luiz Araújo atingiu Ramon com o braço durante uma disputa. Na etapa final, Arrascaeta pisou no tornozelo do mesmo adversário enquanto acompanhava o desenvolvimento da jogada. Pouco depois, Saúl acertou Caíque no rosto, mas Daronco assinalou uma infração a favor do Flamengo e não foi chamado pelo árbitro de vídeo para revisar a decisão.
A avaliação de Massini foi dura. O jornalista considerou que a entrada de Luiz Araújo poderia receber vermelho, entendeu que Arrascaeta deveria ser advertido e tratou a cotovelada de Saúl como expulsão indiscutível. Ao resumir os três momentos, afirmou enxergar “no mínimo dois cartões vermelhos” e cobrou um posicionamento imediato da Comissão de Arbitragem.
“Não dá para achar que essa é uma arbitragem normal”, declarou o comentarista, antes de defender que a entidade explicasse os critérios adotados. A exigência por transparência era pertinente. Decisões de campo e intervenções do VAR precisam ser debatidas, principalmente quando existem dúvidas sobre a uniformidade das interpretações.
O Vitória também formalizou uma representação à CBF, apontou “erros claros e manifestos” e solicitou os áudios das revisões. Especialistas ouvidos por diferentes veículos divergiram sobre a quantidade de expulsões. Houve quem defendesse dois cartões vermelhos, enquanto PC de Oliveira avaliou que apenas Saúl deveria ter sido retirado da partida. A falta de consenso não impediu Massini de cobrar uma resposta institucional.
Maurício permanece em campo contra o Vitória
No dia 29 de julho, o clube baiano voltou a protagonizar uma partida marcada por decisões da arbitragem, desta vez diante do Palmeiras, pela 21ª rodada do Campeonato Brasileiro. O time paulista venceu por 4 a 0, mas a construção da goleada passou por uma sequência de acontecimentos disciplinares ainda durante o primeiro tempo.
Com o placar em 0 a 0 e as equipes completas, Maurício atingiu Cacá no rosto com o braço. As imagens mostram o jogador palmeirense olhando para a posição do adversário antes do contato. O atleta do Vitória caiu, levou a mão à boca e apresentou um corte na região atingida. O árbitro Alex Gomes Stefano não aplicou cartão vermelho, e o VAR, comandado por Marco Aurélio Augusto Fazekas Ferreira, não recomendou a revisão.
Na sequência, a arbitragem de vídeo interferiu para expulsar Cacá após uma entrada em Jhon Arias. Antes mesmo do reinício da partida, houve uma segunda intervenção, que resultou no cartão vermelho para Luan Cândido por um gesto obsceno. A infração do defensor estava prevista na regra e justificava a punição, mas a diferença de atuação do VAR provocou questionamentos: a equipe de vídeo foi rigorosa nos dois episódios envolvendo atletas do Vitória e não chamou o árbitro para rever a cotovelada de Maurício.
Massini, porém, adotou um tom diferente daquele apresentado em abril. Para ele, a jogada do meia palmeirense merecia apenas cartão amarelo. Ao ser lembrado de que outras análises apontavam expulsão, respondeu que não era obrigado a acompanhar a unanimidade e recorreu à conhecida frase de Nelson Rodrigues de que “toda unanimidade é burra”.
O jornalista tem o direito de discordar de especialistas, colegas e ex-árbitros. A divergência faz parte do debate esportivo. O que exige explicação é a alteração da régua usada para medir os dois casos. Contra o Flamengo, a intenção de impedir o adversário, o movimento adicional do braço, o ponto de contato e o risco causado foram argumentos suficientes para defender vermelhos e cobrar a CBF. Diante do lance de Maurício, elementos semelhantes perderam peso, mesmo com o jogador olhando previamente para Cacá e deixando o braço no rosto do defensor.
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A mudança não está apenas na cor do cartão
A contradição mais evidente não se limita à escolha entre amarelo e vermelho. Em Flamengo x Vitória, Massini ampliou a responsabilidade para além de Daronco e do VAR. Queria saber a opinião do presidente da Comissão de Arbitragem, exigiu manifestação da CBF e sustentou que a entidade não poderia tratar os episódios como decisões normais.
Depois de Vitória x Palmeiras, a cobrança institucional desapareceu. Não houve a mesma ênfase sobre o silêncio da comissão, nem questionamento equivalente a respeito dos critérios do árbitro de vídeo. A discussão foi conduzida como se a avaliação individual sobre o cartão amarelo encerrasse o assunto, embora o VAR tivesse atuado diretamente nas duas expulsões dos donos da casa e permanecido distante justamente na jogada envolvendo o palmeirense.
Outro problema apareceu na descrição de uma entrada de Murilo. Massini afirmou que o defensor havia recebido cartão amarelo, embora a advertência não tivesse sido aplicada. Ao ser corrigido, reconheceu que o jogador deveria ter sido punido. O erro factual não determina sozinho a qualidade de toda a análise, mas demonstra como a segurança utilizada no discurso não estava acompanhada pela conferência de uma informação elementar da partida.
Durante o debate, a contestação produziu irritação. Massini insistiu que o olhar dos demais participantes estaria direcionado apenas para um lado, elevou o tom e se recusou a aceitar a avaliação majoritária sobre Maurício. A reação desviou a conversa do ponto central. A questão não era obrigá-lo a aderir a uma opinião coletiva, mas compreender por que o rigor defendido contra o Flamengo foi substituído pela relativização quando a decisão beneficiou o Palmeiras.
Arbitragem não pode ser analisada pela camisa
Também merece atenção o uso da origem federativa dos árbitros como instrumento de suspeição. Em uma manifestação anterior, Massini afirmou que a escolha de um juiz carioca para uma partida envolvendo Flamengo e Palmeiras teria ocorrido com a intenção deliberada de prejudicar o clube paulista. Trata-se de uma acusação grave, que exigiria provas além do estado ao qual o profissional está vinculado.
O árbitro de Vitória x Palmeiras também pertencia ao quadro do Rio de Janeiro. O VAR, por sua vez, era de Minas Gerais. Essas informações não demonstram favorecimento ou perseguição a qualquer equipe, assim como a presença de profissionais paulistas em jogos do Flamengo não permite concluir que exista uma atuação coordenada em benefício dos clubes de São Paulo.
Questionar escalações, histórico de erros e critérios de atuação é legítimo. Transformar a federação de origem em indício de parcialidade, sem evidências concretas, enfraquece a análise e alimenta um ambiente no qual qualquer decisão passa a ser interpretada por meio de teorias convenientes para cada torcida.
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Entre a opinião e a representação clubística
Paulo Massini mantém conteúdos direcionados ao público palmeirense e possui uma relação pública de identificação com o clube. Não há problema em um jornalista produzir material segmentado ou assumir sua preferência esportiva. O conflito aparece quando essa identidade interfere na régua usada em espaços apresentados como debates jornalísticos mais amplos.
O comunicador não precisa abandonar sua ligação afetiva, mas deve deixar claro quando fala como analista e quando exerce o papel de representante de uma comunidade de torcedores. Misturar as duas posições cria uma zona de conforto na qual o rigor é aplicado contra adversários, enquanto situações favoráveis ao clube de preferência recebem justificativas mais brandas.
Reconhecer um erro de arbitragem não retira o mérito de uma vitória, altera o placar ou diminui a qualidade de uma equipe. O Flamengo continuou vencedor diante do Vitória mesmo depois das críticas às decisões de Daronco. Da mesma forma, admitir que Maurício poderia ter sido expulso não apaga a superioridade apresentada pelo Palmeiras no Barradão, embora seja necessário considerar que o jogo ainda estava empatado e com onze atletas de cada lado no momento da infração.
A credibilidade de uma análise não depende de acertar todos os lances, algo improvável diante da subjetividade existente na própria regra. Ela se sustenta na coerência dos argumentos. Quando intenção, intensidade, risco e atuação do VAR são decisivos em uma partida, esses mesmos elementos precisam conservar relevância na seguinte, independentemente da camisa vestida pelo jogador. Sem essa estabilidade, a opinião deixa de ajudar o público a compreender a arbitragem e passa a funcionar como mais uma peça da disputa entre torcidas.
Coerência? Massini muda versão em lance idêntico de Palmeiras e Flamengo
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