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Entenda a reforma do profissionalismo que pode mudar radicalmente a governança do Flamengo

Entenda a reforma do profissionalismo que pode mudar radicalmente a governança do Flamengo

O Flamengo iniciou a discussão de uma das mais profundas alterações de governança de sua história recente. A proposta de reforma estatutária apresentada pela gestão de Luiz Eduardo Baptista, o Bap, pretende formalizar no estatuto um modelo que, na prática, já começou a ser implantado em 2025: reduzir o protagonismo operacional dos dirigentes políticos e transferir a condução cotidiana do clube para profissionais remunerados, contratados por critérios técnicos e submetidos a metas de desempenho. A iniciativa está em fase de emendas no Conselho Deliberativo e, caso aprovada, consolidará uma mudança estrutural que começou a ser desenhada ainda na eleição de 2012, quando a chamada Chapa Azul assumiu o comando do Flamengo com a promessa de profissionalizar a administração rubro-negra.


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A proposta não trata de SAF, privatização ou venda de ativos. O objetivo é outro. O que está em discussão é a criação de mecanismos permanentes que impeçam futuras gestões de desmontarem uma estrutura profissional em favor de modelos baseados na atuação direta de vice-presidentes e dirigentes estatutários. Em outras palavras, o Flamengo tenta transformar uma escolha administrativa em obrigação institucional.

Uma ideia que nasceu em 2013

Para entender a reforma, é necessário voltar ao início da gestão de Eduardo Bandeira de Mello. Quando a Chapa Azul venceu as eleições de 2012, uma das bandeiras centrais era retirar das mãos dos dirigentes amadores a execução cotidiana do clube.

A ideia consistia em deixar vice-presidentes e conselheiros concentrados em funções estratégicas, enquanto profissionais de mercado passariam a tocar áreas como finanças, administração e futebol. Ao longo dos anos, essa lógica foi aplicada de maneira desigual. Alguns departamentos aderiram mais rapidamente ao modelo, enquanto outros continuaram sob forte influência política.

Na área financeira, por exemplo, executivos contratados ganharam protagonismo e ajudaram a conduzir a recuperação econômica que transformou o Flamengo em uma das instituições mais sólidas da América do Sul. No futebol, houve momentos de maior profissionalização, especialmente durante a passagem de Rodrigo Caetano.

Já na gestão Rodolfo Landim ocorreu uma reaproximação das vice-presidências com a operação diária do clube. Diversas áreas voltaram a contar com participação mais intensa de dirigentes estatutários, ainda que o processo de profissionalização nunca tenha sido completamente abandonado.

A chegada de Bap ao comando do Flamengo retomou a concepção original. Desde a campanha eleitoral, o atual presidente defendia a redução da influência operacional dos vice-presidentes e a ampliação do poder decisório dos profissionais contratados.

O que muda na prática

A principal transformação proposta é a substituição do atual Conselho Diretor por um Conselho Gestor.

A alteração vai além da mudança de nomenclatura. O novo órgão deixaria de atuar como operador do cotidiano para assumir funções de planejamento estratégico, supervisão, orientação e fiscalização. A execução das atividades passaria para uma Diretoria Profissional composta por executivos remunerados e avaliados periodicamente.

A proposta estabelece uma separação formal entre política e gestão.

Enquanto o Conselho Gestor definiria metas, estratégias e diretrizes institucionais, a Diretoria Profissional ficaria responsável pela implementação dessas decisões. Trata-se de um modelo semelhante ao adotado por grandes corporações, em que o conselho define o rumo e os executivos executam o plano aprovado.

Outro ponto relevante é o fim das atribuições específicas das vice-presidências tradicionais. Os vice-presidentes passariam a integrar o Conselho Gestor sem necessariamente controlar uma pasta operacional específica. A mudança reduz significativamente a influência direta de grupos políticos sobre departamentos do clube.

Paulo Dutra e José Boto ganham centralidade

O organograma projetado pela reforma cria dois polos centrais de comando.

De um lado estará o diretor-geral, atualmente representado por Paulo Dutra, responsável pela administração corporativa. De outro ficará o diretor de futebol, cargo ocupado por José Boto, que concentrará praticamente toda a estrutura esportiva relacionada ao futebol profissional e às categorias de base.

Na prática, o futebol passa a funcionar quase como uma unidade independente dentro do clube. Compra e venda de atletas, empréstimos, relacionamento com agentes, política salarial, planejamento esportivo, categorias de base e gestão de desempenho ficariam sob responsabilidade direta da estrutura liderada pelo diretor de futebol.

O modelo também procura acelerar processos decisórios. Em vez de depender de múltiplas instâncias políticas, a operação passaria a seguir uma cadeia de comando mais curta e tecnicamente especializada.

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Transparência deixa de ser escolha e vira obrigação

Outro aspecto importante da reforma está relacionado à governança.

A proposta torna obrigatória a manutenção de instrumentos como portal de transparência, organogramas atualizados, matriz de alçadas, código de ética, relatórios de gestão e mecanismos de controle de risco. Parte dessas ferramentas já existe atualmente, mas a ideia é incorporá-las definitivamente ao estatuto.

Também chama atenção a tentativa de blindar a estrutura profissional das disputas eleitorais.

Os integrantes da Diretoria Profissional ficariam proibidos de participar de campanhas políticas internas ou externas. A proposta ainda prevê mecanismos de incompatibilidade para quem desejar disputar cargos eletivos ou atuar diretamente em processos eleitorais dentro do clube.

A mensagem é clara: quem faz gestão não faz política.

A mudança mais importante não está no organograma

O debate público sobre a reforma tem se concentrado nos desenhos dos organogramas e na redistribuição de cargos. Porém, a transformação mais profunda é filosófica. O texto não pretende apenas reorganizar departamentos. O que está sendo proposto é uma redefinição do papel dos dirigentes dentro do Flamengo.

Historicamente, os clubes brasileiros foram construídos sobre estruturas associativas nas quais o poder político e a gestão operacional frequentemente se confundiam. Presidentes, vice-presidentes e conselheiros participavam simultaneamente da formulação de estratégias e da execução diária das atividades.

A reforma busca romper com essa tradição. Se aprovada, a estrutura passará a funcionar com uma distinção muito mais clara entre quem fiscaliza e quem executa. O dirigente político continuará existindo, mas atuará predominantemente como formulador de diretrizes e fiscalizador de resultados.

A execução ficará nas mãos de profissionais contratados especificamente para essa finalidade.

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O desafio da permanência

A grande questão não é se a profissionalização funciona. Em muitos aspectos, ela já funciona no Flamengo há anos.

A dúvida é se o clube conseguirá transformar uma prática administrativa em política permanente de governança. Hoje, um presidente pode reorganizar estruturas, ampliar ou reduzir poderes de vice-presidentes e alterar fluxos de decisão por meio de escolhas administrativas. Ao levar esse modelo para o estatuto, a gestão Bap tenta elevar a barreira institucional para futuras mudanças.

Isso significa que qualquer tentativa de retorno ao modelo anterior exigiria nova reforma estatutária, aprovação política e amplo debate interno. Independentemente das disputas eleitorais que cercam o tema, a proposta coloca o Flamengo diante de uma discussão que ultrapassa a rivalidade esportiva. O debate central é sobre qual modelo de gestão um clube multibilionário deve adotar para sustentar crescimento, competitividade e estabilidade nas próximas décadas.

Mais do que uma reorganização administrativa, a reforma representa uma tentativa de transformar o profissionalismo em patrimônio institucional do Flamengo.

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