A Supercopa do Brasil terminou no placar, mas segue no debate. Corinthians e Flamengo se enfrentaram em Brasília, o jogo foi decidido dentro de campo, porém o que veio depois expôs mais uma vez as fragilidades do VAR no futebol brasileiro. A expulsão de Carrascal, confirmada apenas na volta do intervalo, transformou um lance isolado em um caso que envolve protocolo, transparência e, agora, suspeita de interferência externa na cabine de arbitragem.
Ouça nossas análises e entrevistas sobre a eleição do Flamengo no seu agregador de podcast preferido: Spotify, Deezer, Amazon, iTunes, Youtube Music, Castbox e Anchor.
O episódio ganhou novos contornos a partir da análise do especialista Paulo Caravina, conhecido nas redes como “Soul do Apito”. Em um segundo vídeo dedicado exclusivamente ao lance, ele aponta algo ainda mais grave do que a já conhecida confusão inicial: a participação ativa de Péricles Bassols, observador do VAR da CBF, durante a revisão que culminou no cartão vermelho. Não se trata de opinião isolada ou leitura apressada. O argumento se baseia no áudio oficial divulgado pela própria Confederação.
Durante a divulgação do material, uma voz que não pertence nem ao árbitro de campo, Rafael Klein, nem aos árbitros de vídeo designados para a partida, aparece orientando a análise. Essa voz, segundo Caravina, é de Bassols. O detalhe não é menor. Pelo protocolo internacional do VAR, o observador designado pela federação pode acompanhar, avaliar posteriormente e oferecer feedback técnico, mas não deve interferir na tomada de decisão, tampouco se comunicar sobre lances específicos, salvo em situações excepcionais de risco evidente de aplicação incorreta do protocolo. Não era o caso.
O contexto ajuda a entender a gravidade. Ao fim do primeiro tempo, após o choque entre Carrascal e Bidon, a equipe do VAR realizou a checagem padrão. As imagens disponíveis foram consideradas inconclusivas. O árbitro encerrou a etapa inicial, os jogadores desceram para o vestiário e tudo indicava que o jogo seguiria normalmente. O que veio depois foge do roteiro habitual. Durante o intervalo, a revisão continuou. Isso é permitido pela regra, mas o que se questiona é como, quando e com quais imagens a decisão mudou.
Na volta para o segundo tempo, Klein chamou os capitães e anunciou a revisão no monitor. Minutos depois, Carrascal foi expulso. O Flamengo, que havia sido orientado para reiniciar a partida com onze jogadores, precisou refazer todo o plano estratégico. Filipe Luís não escondeu o espanto na entrevista coletiva. “Nunca tinha visto isso na minha vida”, disse o treinador, ao relatar que preparou a equipe para uma condição que simplesmente deixou de existir antes do reinício da partida.
LIVE COMPLETA:
A CBF tentou preencher as lacunas com nota oficial e com a divulgação de um áudio de pouco mais de dois minutos. Segundo a entidade, houve duas checagens: a primeira, inconclusiva; a segunda, já no intervalo, com a identificação clara de uma conduta violenta. O problema é que o material divulgado não mostra o momento dessa “descoberta”. Não há áudio da primeira checagem nem do instante em que a equipe do VAR passa a considerar o lance como agressão. A transparência prometida ficou pela metade.
Há ainda outros descumprimentos objetivos. O protocolo determina que lances de possível agressão sejam analisados em velocidade real e sob diferentes ângulos, antes do uso de câmera lenta. No caso em questão, a imagem considerada conclusiva foi apresentada em slow motion e em enquadramento fechado. O próprio árbitro solicita uma imagem aberta durante a revisão, mas é informado de que ela não existe. Curiosamente, a transmissão da TV exibia um ângulo mais amplo do mesmo lance, o que levanta outra pergunta incômoda: se o VAR tem acesso prévio a todas as câmeras da transmissão, por que essa imagem não foi utilizada desde o início?
O atraso no retorno das equipes também chama atenção. O Corinthians levou mais de vinte minutos para voltar do intervalo. O Flamengo, mais de dezesseis. Nenhum desses atrasos foi relatado na súmula. A explicação oficial aponta para a continuidade da revisão, mas, mais uma vez, faltam registros que sustentem essa versão de forma completa.
Do ponto de vista esportivo, o prejuízo é claro. Não se trata de afirmar que o resultado seria outro, mas de reconhecer que houve um desequilíbrio competitivo provocado pela forma como a decisão foi conduzida. Planejar um segundo tempo com onze jogadores e reiniciar a partida com dez altera completamente o cenário tático. Isso independe da cor da camisa.
VEJA MAIS:
CASO PREFIRA OUVIR:
O caso não invalida automaticamente a partida, nem anula o título do Corinthians. Essas decisões cabem à Justiça Desportiva. O que está em jogo aqui é algo mais profundo: a credibilidade do VAR no Brasil. Quando um observador aparece interferindo, quando áudios são divulgados de forma fragmentada e quando protocolos claros são relativizados, a desconfiança deixa de ser retórica e passa a ser estrutural.
O Flamengo, até aqui, optou por um discurso protocolar. Houve nota parabenizando o adversário e silêncio sobre possíveis medidas jurídicas. Isso não encerra o debate. Pelo contrário. O episódio da Supercopa soma-se a uma longa lista de decisões controversas e reforça a sensação de que o VAR brasileiro segue operando em uma zona cinzenta, onde regras existem, mas nem sempre são respeitadas.
Paulo Calçade acusa Flamengo de se beneficiar do caos do futebol, mas fatos desmontam a narrativa
Veja outros vídeos sobre as notícias do Flamengo:
—
+ Siga o Blog Ser Flamengo no Twitter, no Instagram, no Facebook e no Youtube.

