O texto abaixo parte de um longo fio publicado no X por Tulio Rodrigues, no perfil @PoetaTulio, que reconstrói em ordem cronológica a cobertura de parte da imprensa no caso Flamengo x Libra. A sequência funciona como um registro jornalístico e documental sobre um episódio que ultrapassou a disputa por dinheiro dos direitos de transmissão e entrou em outro território: o da formação de narrativa pública, da parcialidade editorial, da desinformação repetida e da dificuldade de corrigir erros quando os fatos passam a apontar em outra direção.
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O conflito entre Flamengo e Libra começou a ganhar dimensão nacional em setembro de 2025, quando se tornou público que o clube havia entrado na Justiça para questionar a distribuição dos 30% da receita de audiência do contrato com a Globo. O ponto central era técnico e jurídico: o Flamengo sustentava que os critérios por plataforma não estavam definidos no Anexo 1 do estatuto da Libra e que a entidade havia autorizado pagamentos com base em um cenário sem aprovação unânime da assembleia, como exigiam as regras internas. O tema, porém, rapidamente deixou de ser tratado por parte da imprensa como uma discussão contratual e passou a ser enquadrado como um ato de rebeldia rubro-negra contra clubes que, supostamente, já haviam fechado posição sobre tudo.
A partir daí, a cobertura de alguns nomes relevantes da mídia esportiva passou a operar menos no mérito e mais na percepção. PVC, Danilo Lavieri, Benja, Sormani, Gustavo Zupak, Milly Lacombe e Alicia Klein aparecem no fio como personagens de uma cobertura que, em diferentes graus, reforçou a tese da assinatura, do Flamengo isolado, do clube que queria mudar regra aceita, da Libra unida contra um suposto egoísmo rubro-negro e até de uma possível parcialidade do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. O problema é que o desfecho do caso, com acordo que garantiu cerca de R$ 150 milhões adicionais ao Flamengo e redefiniu os critérios de audiência, mostrou que a discussão jurídica tinha base real e que a narrativa inicial precisava, no mínimo, ser revista.
A assinatura virou manchete antes de virar prova
A linha do tempo começa em 24 de setembro de 2025, quando Venê Casagrande noticia o bloqueio da verba após o Flamengo obter liminar na Justiça. Quatro dias depois, em 28 de setembro, PVC publica uma coluna que se tornaria peça importante na formação da narrativa: além de sugerir, sem provas, uma possível parcialidade do TJRJ em favor de dirigentes, afirma que o Flamengo havia assinado concordando com os critérios de distribuição da audiência. Foi ali que nasceu a cobrança pública que acompanharia todo o caso: cadê a assinatura?
No dia 29/09, o De Primeira, do UOL, repercute a coluna de PVC, que volta a falar sobre a tal assinatura do Flamengo. A informação dele era: o Flamengo assinou concordando com os critérios de divisão dos 30% da audiência, mas não leu. A narrativa estava criada. + pic.twitter.com/IOWe9e68yB
— Tulio Rodrigues (@PoetaTulio) May 5, 2026
No dia seguinte, 29 de setembro, o De Primeira, do UOL, repercute a coluna de PVC e reforça a tese de que o Flamengo teria assinado sem ler. A informação, apresentada como se encerrasse o mérito, ajudou a criar uma moldura poderosa: o clube não estaria discutindo uma lacuna contratual, mas tentando desfazer o que já havia aceitado. No mesmo programa, PVC ainda traz a informação de que alguns clubes cogitavam uma liga sem o Flamengo, algo juridicamente questionável e politicamente explosivo. A ideia seria aproveitada depois por Leila Pereira em entrevistas, mas a gravidade de uma tentativa de isolamento estrutural do clube mais popular do país não recebeu o mesmo peso crítico.
O ponto mais sensível é que a tal assinatura nunca provou aquilo que se dizia. O documento utilizado posteriormente por Danilo Lavieri dizia respeito à reforma estatutária da Libra e às premissas gerais da divisão, não à definição técnica completa dos critérios por plataforma. Essa diferença é decisiva. Assinar premissas não é o mesmo que concordar com uma fórmula operacional inexistente.
A entrada de Lavieri e o reforço da mesma tese
No dia 30 de setembro, Danilo Lavieri publica sua primeira coluna sobre o caso, com uma pegada semelhante à de PVC. Fala em união dos clubes contra o Flamengo, utiliza a expressão “que joguem sozinhos”, depois incorporada por Leila Pereira, e afirma que o clube havia assinado concordando com critérios de audiência que existiam, embora não fossem claros. O problema, como o fio ressalta, é que os critérios por plataforma não existiam.
Essa é a diferença entre uma cláusula genérica e um critério aplicável.
O Flamengo não contestava a existência dos 30% de audiência. Contestava a ausência de regulamentação sobre como esses 30% seriam calculados entre TV aberta, fechada, pay-per-view e demais meios. Em maio de 2025, a própria Libra discutiria cenários para a adoção desses parâmetros, o que por si só já demonstrava que nada estava definitivamente fechado antes. A reunião foi suspensa sem votação e retomada apenas em agosto, quando o Flamengo votou contra o cenário 1, impedindo a unanimidade exigida pelo estatuto.
Mesmo assim, no dia 1º de outubro, Lavieri envia mensagens ao vivo para André Plihal, no Equipe F, reforçando a informação de que o Flamengo admitia ter assinado documento concordando com os critérios, mas que tal papel ainda não havia se tornado público. A reunião de maio, citada no programa, era justamente o contrário do que a narrativa sugeria: ela demonstrava que os critérios ainda estavam sendo debatidos.
No dia 01/10, aconteceu algo inacreditável: Danilo Lavieri mandou mensagens para André Plihal, que apresentava, ao vivo, o Equipe F, e espalhou mais desinformação ao afirmar que o Flamengo admitia ter assinado um documento concordando com os critérios de audiência, mas que tal… pic.twitter.com/yyF1v9Yh11
— Tulio Rodrigues (@PoetaTulio) May 5, 2026
O Tribunal de Justiça do Rio virou alvo sem prova
Outro eixo grave do fio é a forma como parte da imprensa tratou o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. PVC voltou a insinuar parcialidade do TJRJ em 29 de setembro e repetiria a linha em 3 de outubro, até ser repreendido ao vivo por Rodrigo Mattos. Lavieri, também em 3 de outubro, entrou no mesmo terreno ao dar a entender que o Flamengo teria perdido em primeira instância e recorrido a “outro tribunal”, quando, na verdade, o clube apenas subiu para a instância superior do mesmo TJRJ.
Mais grave ainda foi a repetição da informação de que o TJRJ teria concedido liminar favorável a Ednaldo Rodrigues no caso da CBF. O fio contesta essa versão e aponta que ocorreu o oposto: decisões do TJRJ afastaram Ednaldo, enquanto Brasília, via STF, derrubou decisões tomadas no Rio. A imprecisão não é pequena. Ao relacionar decisões favoráveis ao Flamengo a supostos precedentes de favorecimento a dirigentes, criou-se uma suspeita institucional sem base sólida.
Em 5 de outubro, Benja fez insinuação semelhante e foi rebatido por Mano, que lembrou um dado básico: o TJRJ era o foro escolhido pelos próprios clubes da Libra para solucionar disputas. No mesmo dia, a AMAERJ divulgou nota de repúdio às falas de PVC e Benja, fato repercutido pelo próprio UOL. O episódio revelou uma inversão curiosa: quando a Justiça decidiu de forma desfavorável ao Flamengo na primeira instância, o sistema funcionava; quando acolheu parte das alegações rubro-negras, passou a ser tratado por alguns como suspeito.
Foi também nesse dia 29/09 que PVC novamente insinuou uma parcialidade do TJRJ em relação a dirigentes. Ele voltaria a fazer a mesma coisa quando foi repreendido por Rodrigo Mattos em 03/10. Além da gravidade da acusação sem provas, ele trouxe mais uma desinformação: a de que… pic.twitter.com/nBQ24lt8Fk
— Tulio Rodrigues (@PoetaTulio) May 5, 2026
A coluna de 6 de outubro e o “documento pela metade”
O ponto de maior repercussão veio em 6 de outubro, quando Lavieri anunciou no Posse de Bola uma reportagem que traria o documento assinado por Landim em setembro de 2024, supostamente concordando com todos os critérios de divisão de audiência. A fala continha três problemas centrais. Primeiro, confundia a natureza do documento, que era ligado à reforma estatutária da Libra e às premissas gerais, não à regulamentação técnica por plataforma. Segundo, criava uma contradição temporal ao afirmar que os clubes concordaram por unanimidade em setembro e novamente em dezembro. Terceiro, tratava a tese da gestão Bap como tentativa de mudar algo sacramentado, quando o Flamengo buscava justamente completar uma definição omissa.
A matéria publicada no UOL, segundo o fio, trouxe o documento cortado, omitindo a parte essencial da tabela do Anexo 1, justamente onde o rateio por plataforma aparecia em branco. O Anexo 1 completo já havia sido publicado por Rodrigo Mattos, e o perfil Mundo na Bola, de Fabrício Chicca, desmontou a interpretação no mesmo dia. A partir daí, Lavieri passou a ser chamado de “jornalista pela metade”, expressão que virou meme, mas que nasce de uma crítica concreta: a seleção do documento reforçava a manchete, mas não explicava o mérito.
Esse episódio é central porque mostra a diferença entre publicar um documento e contextualizá-lo corretamente. O documento existia. A assinatura existia. O que não existia era a concordância com um critério técnico completo de divisão dos 30% da audiência. Transformar uma coisa na outra é o tipo de salto interpretativo que compromete a cobertura.
Na matéria publicada no site do UOL, Danilo trouxe um documento cortado: era a tabela do Anexo 1, que mostrava que o rateio por plataforma estava em branco — ponto-chave do debate.
O Anexo 1, na íntegra, já havia sido publicado anteriormente por Rodrigo Mattos. No mesmo dia, o… pic.twitter.com/f4DhNHyEbk
— Tulio Rodrigues (@PoetaTulio) May 5, 2026
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A cobertura que parou antes do desfecho
Outro ponto relevante do fio é a interrupção da cobertura por parte dos principais jornalistas que mais reforçaram a narrativa inicial. Lavieri publicou sua última coluna diretamente sobre o caso em 6 de outubro. Depois, citou o embate de forma periférica em textos de outros temas nos dias 15, 16 e 19 de outubro, além de 12 e 29 de novembro. PVC também parou de acompanhar o caso em sua coluna em 13 de novembro, embora tenha comentado posteriormente em programas do UOL.
Enquanto isso, Rodrigo Mattos continuou cobrindo o processo até o desfecho. Foi ele quem acompanhou liminares, bloqueios, decisões, contexto jurídico, notificações e o acordo final. Quando Rodrigo Capelo revelou, em 28 de abril de 2026, que Flamengo e Libra haviam chegado a um acordo com pagamento de cerca de R$ 150 milhões extras ao Rubro-Negro, a narrativa inicial já não se sustentava com a mesma força. O contrato e o Anexo 1 não traziam os critérios definidos, exatamente como o Flamengo sustentava.
PVC voltaria ao tema dias depois e reconheceria o pleito rubro-negro, admitindo que os critérios não estavam definidos no contrato com a Globo nem no Anexo 1. Mas não houve retratação proporcional das colunas antigas, nem correção clara da tese anterior sobre a assinatura. Esse é um ponto importante do estudo: quando a cobertura cria uma percepção equivocada no auge da crise, a correção posterior precisa ter a mesma força. Caso contrário, o arquivo continua desinformando.
A reunião de 7 de outubro e o mérito ignorado
O fio também lembra um ponto pouco repercutido pela maioria da imprensa: na reunião de 7 de outubro, o Flamengo apresentou as transgressões da Libra ao próprio estatuto e à lei. Entre elas, a instrução de 25 de julho para a Globo pagar a primeira parcela com base no cenário 1 sem aprovação da assembleia; a alteração da pauta do edital em 14 de agosto sem aprovação dos associados; nova instrução em 25 de agosto para pagamento da segunda parcela, também com base no cenário 1; a adoção do cenário 1 em 26 de agosto sem unanimidade; a ata com omissões; e a recusa em fornecer ao Flamengo a gravação em áudio da assembleia.
Esses elementos foram demonstrados na Justiça e explicam por que o Flamengo teve alegações acolhidas. A discussão, portanto, não era apenas sobre “querer ganhar mais”. Era sobre validade do procedimento, cumprimento do estatuto, autorização de pagamento e legalidade das decisões tomadas pela Libra.
Quando a imprensa ignora esse mérito e prefere discutir se o Flamengo está isolado, se Bap está de “pirraça” ou se Leila estava certa em “peitar” o clube, o debate público empobrece. A divergência contratual vira novela moral. O detalhe jurídico vira torcida. A informação cede lugar à caricatura.
Mídia segmentada, grande imprensa e o incômodo do contraditório
Um dos pontos finais do fio é talvez o mais incômodo para a grande imprensa. Em vários momentos, jornalistas profissionais desqualificaram vozes independentes que apontavam inconsistências na cobertura. PVC, por exemplo, tentou descredibilizar Fabrício Chicca, do Mundo na Bola, com a frase “esse Chicca é advogado?”, ainda que ele próprio se apoiasse em interpretações jurídicas de terceiros para defender sua tese.
A crítica é legítima: se um jornalista pode citar um advogado para sustentar uma visão contrária ao bloqueio, por que um analista independente não poderia defender a tese acolhida pela desembargadora? O problema não era formação. Era incômodo com o contraditório.
Nesse episódio, a mídia independente, especialmente o Mundo na Bola, desempenhou papel superior ao de muitos profissionais ao confrontar documentos, datas e critérios. Isso não significa que a mídia segmentada esteja sempre certa ou que a grande imprensa esteja sempre errada. Significa apenas que autoridade institucional não substitui apuração. E que jornalismo não se mede pelo crachá, mas pela qualidade do método.
O caso diz mais sobre jornalismo do que sobre a Libra
O acordo final entre Flamengo e Libra encerrou a divergência financeira, mas não encerrou a discussão sobre a cobertura. Ao contrário, abriu um estudo de caso sobre como narrativas nascem, circulam, viram verdade aparente e resistem mesmo quando os documentos apontam outra direção. O Flamengo saiu da disputa com ganho econômico e validação jurídica parcial de sua tese. Parte da imprensa saiu com uma pergunta incômoda: por que houve tanta energia para acusar e tão pouca para corrigir?
O problema não é o jornalista torcer para um clube. Todos têm história, formação, referências e preferências. O problema é permitir que essa inclinação contamine a leitura dos documentos, a escolha das palavras, o enquadramento das manchetes e a disposição de corrigir quando a realidade desmente a tese inicial.
O caso Flamengo x Libra mostra que a crise do jornalismo esportivo não está apenas na ascensão da mídia segmentada, apontada muitas vezes como bode expiatório conveniente. A crise também está nos profissionais que tratam opinião como fato, suspeita como informação, recorte como documento completo e silêncio como estratégia depois que a narrativa desaba. Se o futebol brasileiro sofre com dirigentes que pensam nos próprios interesses, também sofre com jornalistas que, em vez de iluminar o debate, ajudam a incendiar o ambiente com leituras parciais e desinformação.
No fim, a pergunta deixada pelo fio é simples e dura: será mesmo que o problema está na mídia independente ou está na incapacidade de parte da grande imprensa de aceitar que, às vezes, quem fez o melhor jornalismo não estava na bancada mais famosa?
Danilo Lavieri critica o jornalismo esportivo que ele próprio ajudou a construir
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