O Conselho Deliberativo do Flamengo aprovou nesta terça-feira (15) a reforma estatutária que institucionaliza a gestão profissional no clube. O Texto Substitutivo da emenda “Profissionalismo”, elaborado pela Comissão Permanente de Estatuto a partir da proposta apresentada pelo presidente Luiz Eduardo Baptista, Bap, recebeu o apoio de 92% dos 696 conselheiros votantes e passa a integrar o Estatuto do Flamengo. A mudança estabelece uma divisão mais clara entre governança e operação, transformando em regra permanente um modelo que já vinha sendo adotado pela atual administração.
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A principal alteração não está apenas na nomenclatura dos órgãos, mas na definição de quem deve cuidar de cada parte da instituição. O antigo Conselho Diretor passa a ser Conselho Gestor, com atribuições estratégicas, de orientação, supervisão e fiscalização, enquanto a administração cotidiana fica sob responsabilidade de uma Diretoria Profissional. O texto aprovado determina que os executivos sejam contratados segundo critérios técnicos, com dedicação integral, metas de desempenho e avaliações periódicas.
Uma discussão que começou antes da atual gestão
Embora a aprovação aconteça em 2026, a ideia de reduzir a interferência de dirigentes não remunerados na rotina do clube é anterior. Em 2013, durante a gestão de Eduardo Bandeira de Mello, a chamada Chapa Azul já defendia que os vice-presidentes deixassem o cotidiano operacional para profissionais contratados, permanecendo mais concentrados na definição estratégica. Algumas áreas passaram a funcionar dessa maneira, embora o modelo não tenha sido incorporado integralmente ao Estatuto.
Nos anos seguintes, a estrutura voltou a ter maior presença de diretorias ocupadas por dirigentes não remunerados. Na gestão de Rodolfo Landim, por exemplo, houve maior participação de vice-presidentes e conselheiros em diferentes áreas. A proposta apresentada por Bap durante a campanha de 2024 retomou justamente a ideia de ampliar a autonomia dos profissionais na condução diária do clube. Desde o início da atual administração, essa lógica já vinha sendo aplicada em diferentes departamentos.
O futebol é um exemplo dessa transição. A estrutura profissional passou a concentrar a condução do departamento, enquanto o espaço dos vice-presidentes na operação cotidiana foi reduzido. A reforma agora leva esse desenho para dentro do Estatuto, impedindo que o funcionamento profissional dependa apenas da decisão de quem estiver ocupando a presidência.
Conselho Gestor deixa de operar
O novo Conselho Gestor passa a representar uma mudança importante na relação entre os dirigentes eleitos ou nomeados e os executivos contratados. Pela proposta, o colegiado continua ligado à direção estratégica do Flamengo, mas sem ingerência nas atividades operacionais. Entre suas funções estão acompanhar estratégias, metas, indicadores de resultado, processos, organização, riscos e pessoas.
A composição também muda. O Conselho Gestor será formado pelo presidente e pelo vice-presidente do Flamengo, pelo procurador-geral e por membros não executivos nomeados pelo presidente, respeitados critérios de experiência e capacidade técnica. O texto estabelece ainda restrições relacionadas a parentesco e determina requisitos de experiência para os integrantes.
A lógica, portanto, é criar uma camada de governança responsável por acompanhar o trabalho dos executivos sem substituir quem foi contratado para executá-lo. O próprio Estatuto prevê que os membros do Conselho Gestor assumam compromisso de não interferir na área gerencial ou operacional.
Diretoria Profissional ganha espaço definitivo
A Diretoria Profissional será o braço executivo do clube. O texto a define como órgão remunerado responsável pela gestão operacional e pela administração cotidiana dos ativos do Flamengo, subordinado ao Conselho Gestor e obrigado a prestar contas. A estrutura terá como principais gestores o Diretor-Geral e o Diretor de Futebol, além dos demais executivos responsáveis por departamentos, diretorias, gerências, coordenações e supervisões.
A mudança alcança praticamente toda a organização administrativa. Entre as áreas previstas estão finanças, marketing, comunicação, administração, jurídico, esportes olímpicos, futebol, futebol de base, remo, tecnologia e inovação, relações institucionais e gestão de compliance, processos, projetos e riscos. O modelo também estabelece que os departamentos e secretarias sejam conduzidos por profissionais remunerados e com dedicação integral ao Flamengo.
No setor corporativo, o Diretor-Geral terá a responsabilidade de coordenar a estrutura profissional e responderá ao presidente e ao Conselho Gestor. O futebol terá tratamento próprio: o Diretor de Futebol comandará o departamento e o futebol de base, subordinado ao presidente. A separação é uma das características centrais do novo desenho.
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Quem poderá mexer na estrutura?
A reforma também redistribui competências entre os poderes do clube. A criação e a extinção dos departamentos da Diretoria Profissional passam ao Conselho de Administração. Já o organograma corporativo será aprovado pelo Conselho Gestor, enquanto a estrutura funcional do futebol ficará sob aprovação do presidente.
O Conselho Gestor também passa a acompanhar metas e resultados dos profissionais, analisar relatórios, orçamento, indicadores financeiros e administrativos e fiscalizar a execução das estratégias. O texto prevê ainda avaliação do desempenho da Diretoria Profissional, além de regras para contratação, remuneração e bonificação dos executivos.
Isso cria uma diferença importante em relação ao modelo anterior. O dirigente deixa de ser, necessariamente, o responsável por executar uma determinada pasta. A função passa a ser estabelecer diretrizes, acompanhar resultados e exercer controle institucional, enquanto a operação fica vinculada a profissionais contratados.
A reforma não cria uma SAF
A mudança estatutária também não transforma o Flamengo em Sociedade Anônima do Futebol. O clube continua sendo uma associação civil. O que muda é a maneira como sua estrutura interna deve funcionar.
A intenção expressa no texto é justamente tornar o profissionalismo uma característica permanente da instituição. A proposta afirma que essa opção não deve ser uma decisão do “mandatário da vez”, mas uma escolha institucional definitiva.
Na prática, isso significa que uma futura administração poderá mudar nomes, profissionais e organogramas, mas encontrará no Estatuto uma divisão previamente estabelecida entre governança e execução. A própria proposta determina prazos para a atualização das estruturas: o Diretor-Geral deverá apresentar o organograma corporativo ao Conselho Gestor em até 60 dias, enquanto o Diretor de Futebol terá o mesmo prazo para apresentar a estrutura do futebol ao presidente.
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Próximos passos
A aprovação pelo Conselho Deliberativo encerra a etapa política da reforma e transforma o profissionalismo em regra estatutária do Flamengo. A partir daí, começa uma fase de implementação que envolve adequação dos regimentos internos, organização dos departamentos e definição mais precisa das estruturas executivas.
O impacto da mudança, portanto, será percebido menos pela troca de nomes dos órgãos e mais pela forma como o clube será administrado no cotidiano. A proposta procura estabelecer que estratégia, fiscalização e operação tenham responsabilidades distintas, criando mecanismos para que a gestão profissional não dependa exclusivamente da vontade de uma determinada administração.
Para um Flamengo que cresceu em tamanho, receitas, patrimônio, torcida e complexidade operacional, a discussão deixa de ser apenas sobre quem ocupa uma vice-presidência e passa a tratar de como a instituição pretende funcionar independentemente de quem estiver no poder. É esse o ponto central da reforma aprovada nesta terça-feira: fazer com que o profissionalismo deixe de ser apenas uma prática de gestão e passe a ser uma obrigação estatutária do clube.
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