Leila Pereira voltou a colocar o modelo associativo no centro do debate sobre a administração dos clubes brasileiros ao classificá-lo como “completamente fracassado e falido”. A presidente do Palmeiras defendeu estruturas com proprietários, citando como exemplos a Premier League e os esportes americanos. A discussão, porém, ganha outro contorno quando colocada diante do movimento feito pelo Flamengo: em vez de concentrar o debate apenas na mudança ou não do modelo jurídico, o clube vem promovendo alterações estatutárias para criar mecanismos permanentes de proteção institucional, profissionalizar a administração e reduzir a dependência da figura de um presidente.
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A diferença não está apenas na preferência por associação ou SAF. O ponto central é o que cada clube faz com a estrutura que possui. No Flamengo, a atual administração apresentou uma reforma que separa de maneira mais clara as funções estratégicas das atividades executivas. A proposta prevê um Conselho Gestor responsável por estratégia, supervisão, metas, indicadores e riscos, enquanto uma diretoria profissional passa a cuidar da execução cotidiana. A ideia é transformar a profissionalização em característica permanente do clube, e não em uma escolha que possa desaparecer a cada eleição.
Leila questiona o modelo
A crítica de Leila parte de outra premissa. Para a dirigente, o modelo associativo apresenta um problema estrutural porque, na sua avaliação, não existe um proprietário diretamente responsável pelo patrimônio e pelos resultados da instituição.
“Esse modelo para mim está completamente fracassado e falido”, afirmou Leila ao defender sua visão. Na sequência, utilizou o futebol inglês e o esporte norte-americano como referências para sustentar que clubes com proprietários alcançaram níveis elevados de receita e patrimônio.
A questão é que a existência de um dono não resolve, por si só, os problemas de administração. Uma SAF pode ter capital, investidores e estrutura empresarial e, ainda assim, tomar decisões ruins. Da mesma forma, uma associação pode estabelecer regras capazes de limitar o poder individual de seus dirigentes e criar mecanismos de controle para proteger o patrimônio.
É justamente nesse ponto que a experiência recente do Flamengo oferece um contraponto ao discurso de Leila.
O Flamengo escolheu mexer nas próprias regras
A reforma estatutária em discussão no Flamengo parte de uma lógica diferente: antes de discutir quem será o responsável pelo clube, é preciso definir quais são as regras que deverão ser respeitadas por qualquer administrador.
A proposta de profissionalização estabelece uma separação entre governança e execução. O Conselho Gestor fica encarregado do acompanhamento estratégico, enquanto a estrutura profissional assume a operação. Também há previsão de regras relacionadas a conflitos de interesse, nepotismo, transparência, gestão de pessoas e responsabilidades.
O Portal de Governança e Transparência, por exemplo, passa a ter previsão estatutária. A estrutura profissional também deixa de depender exclusivamente da vontade de um presidente de plantão.
Esse movimento tem uma consequência política importante: o Flamengo tenta proteger a instituição de mudanças pessoais de comando. A lógica é que processos, responsabilidades e mecanismos de fiscalização sobrevivam aos dirigentes.
Não significa que o modelo associativo esteja automaticamente livre de problemas. Significa que existe uma tentativa concreta de aperfeiçoá-lo por dentro.
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O problema do “salvador da pátria”
É nesse aspecto que a comparação com Leila se torna mais interessante. Ao defender o modelo de clube com proprietário, a presidente do Palmeiras também construiu sua imagem pública em torno da própria liderança. O debate, portanto, não deveria ser apenas sobre quem possui o clube, mas sobre quanto da instituição depende de uma pessoa.
Um clube profissional precisa funcionar quando seu presidente está presente e continuar funcionando quando ele deixa o cargo. Se processos são interrompidos porque determinada figura perdeu poder, deixou uma função ou foi afastada de uma estrutura, existe uma fragilidade de gestão.
A discussão envolvendo a SAF do Vasco ajuda a ilustrar esse problema. Independentemente das avaliações sobre investidores ou administrações específicas, a saída de uma pessoa de determinada posição não deveria ser suficiente para paralisar uma organização. Uma estrutura profissional precisa ter responsabilidades definidas, hierarquia, metas e mecanismos de continuidade.
No Flamengo, a reforma estatutária caminha justamente nessa direção. A proposta não elimina o peso do presidente, mas procura impedir que toda a máquina administrativa dependa exclusivamente dele.
SAF não é sinônimo de boa gestão
O debate também exige cuidado com uma associação automática entre propriedade privada e eficiência. A Premier League é frequentemente utilizada como referência quando se fala em clubes ricos, mas o sucesso econômico daqueles times não decorre exclusivamente da existência de proprietários. Há décadas de organização, exploração comercial, direitos de transmissão, mercados internacionais e estruturas profissionais envolvidas nessa equação.
O mesmo vale para o futebol brasileiro. Uma SAF pode ser bem administrada ou fracassar. Uma associação pode ser mal conduzida ou estabelecer mecanismos sólidos de governança. A forma jurídica é apenas uma parte do problema.
Real Madrid e Barcelona são exemplos frequentemente lembrados justamente porque permanecem como associações e continuam entre as maiores marcas do futebol mundial. Isso não significa que o modelo seja perfeito, mas mostra que a discussão não pode ser reduzida a uma escolha binária entre associação fracassada e SAF vencedora.
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A questão que fica para o Palmeiras
É nesse ponto que a crítica à declaração de Leila ganha força. Se o modelo associativo é, como ela afirmou, “fracassado e falido”, a discussão seguinte deveria ser o que pode ser feito para proteger o Palmeiras enquanto o clube continuar sob essa estrutura.
O Flamengo, goste-se ou não das decisões tomadas por sua atual administração, está tentando responder a essa questão por meio do Estatuto. A proposta procura estabelecer limites, responsabilidades, transparência e profissionalização para que a instituição não fique refém de quem ocupar a presidência.
O debate, portanto, não deveria terminar na frase “SAF é melhor” ou “associação é melhor”. A pergunta mais importante é outra: quais mecanismos existem para impedir que uma pessoa, um grupo político ou uma administração coloque seus interesses acima da continuidade do clube?
Leila tem o direito de defender a mudança do modelo e de apontar problemas no associativismo. O contraponto é que criticar a estrutura não substitui a necessidade de construir mecanismos de proteção dentro dela. Enquanto o discurso se concentra na falência do modelo associativo, o Flamengo tenta fazer uma aposta diferente: manter sua natureza jurídica, mas alterar as regras para que a instituição seja maior do que seus dirigentes.
No fim, a discussão mais relevante talvez não seja quem será o dono de um clube, mas quem terá responsabilidade por ele quando o dono, o presidente ou o grupo político mudar. É nesse ponto que governança, profissionalização e proteção estatutária deixam de ser conceitos abstratos e passam a determinar se uma instituição consegue sobreviver aos seus próprios dirigentes.
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