A liberação de recursos da Liga Forte União ao Corinthians, usada para quitar um transfer ban nacional, escancarou uma zona cinzenta que o futebol brasileiro insiste em tratar como normal. O episódio, ocorrido nesta semana, ganhou repercussão não apenas pelo destino do dinheiro, mas pelo contexto político em que a operação se deu: o dirigente que preside a LFU é, ao mesmo tempo, diretor de futebol do clube beneficiado. A coincidência institucional levantou questionamentos sobre conflito de interesses, transparência e o papel da imprensa diante de estruturas que se vendem como profissionais.
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O Corinthians, pressionado por dívidas acumuladas e com restrições impostas pela CNRD, conseguiu regularizar parte de suas pendências com valores provenientes de uma antecipação financeira da LFU. Tecnicamente, não se trata de um empréstimo clássico, mas de adiantamento de receitas futuras, com juros considerados baixos para os padrões de mercado. Na prática, o dinheiro entrou em caixa em um momento crítico, permitindo ao clube respirar. O ponto central da crítica não está na legalidade formal da operação, mas na governança do processo.
Desde que a LFU se apresentou como alternativa moderna para criação de uma liga, o discurso foi o da profissionalização, da ruptura com vícios históricos e da construção de um ambiente mais equilibrado. O problema é que, ao observar a engrenagem girar, surgem velhos personagens em novos cargos. Marcelo Paz, presidente da LFU, ocupa posição estratégica em um clube diretamente interessado nas decisões da liga. Não há, hoje, uma vedação explícita que impeça essa dupla função, mas a ausência de proibição não elimina o risco institucional.
A própria imprensa, em parte, tratou o caso com naturalidade. Comentários relativizaram o episódio sob o argumento de que “sempre foi assim”, lembrando que, no passado, dirigentes de clubes também comandavam entidades coletivas. O raciocínio ignora o resultado histórico desse modelo. O Clube dos 13 terminou esvaziado, fragmentado e incapaz de cumprir o papel para o qual foi criado. Usar o fracasso como justificativa para repetir o método não parece exatamente um sinal de evolução.
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O debate ganha contornos ainda mais delicados quando se compara a reação midiática a situações hipotéticas envolvendo outros clubes. A pergunta é incômoda, mas necessária: qual seria o tratamento dado se um dirigente do Flamengo assumisse a presidência de uma liga e, simultaneamente, participasse de decisões que beneficiassem o próprio clube? A experiência recente sugere que a repercussão seria bem menos complacente. A seletividade do olhar ajuda a explicar por que certos temas ganham manchetes inflamadas enquanto outros são diluídos em notas burocráticas.
O caso não é isolado. Hoje, a presidência da Libra está nas mãos de Júlio Casares, dirigente do São Paulo que enfrenta questionamentos públicos sobre a gestão do clube. Ainda que não haja condenação ou prova definitiva, o silêncio institucional da liga diante das acusações contrasta com o discurso de rigor ético que costuma ser cobrado de fora. Em ligas consolidadas, conflitos potenciais costumam ser tratados com afastamentos temporários, investigações internas e comunicação clara. No Brasil, a regra parece ser empurrar o problema até que ele desapareça do noticiário.
Há também o aspecto esportivo financeiro. O Corinthians carrega dívida bilionária, atrasos recorrentes e um histórico recente de dificuldades para honrar compromissos básicos. A antecipação de receitas resolve o problema imediato, mas não altera a lógica estrutural. Normalizar esse tipo de socorro, sem exigir contrapartidas de gestão, reforça a sensação de que o erro compensa. O discurso de que “não é empréstimo, é antecipação” muda o rótulo, mas não a dependência.
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O ponto mais preocupante talvez seja a inversão de valores. Em vez de questionar o modelo, parte do debate se concentra em atacar quem aponta as incoerências. A crítica passa a ser tratada como perseguição ou rivalidade clubística, quando, na verdade, toca em princípios básicos de governança. Profissionalização não combina com promiscuidade institucional, ainda que ela venha embalada em contratos juridicamente corretos.
O futebol brasileiro não carece de dinheiro, mas de regras claras e dirigentes sem dupla lealdade. Enquanto a justificativa seguir sendo a de que “sempre foi assim”, a promessa de um novo modelo continuará sendo apenas retórica. E a conta, como de costume, ficará para o futuro.
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