José Boto voltou ao centro do debate depois do empate entre Flamengo e São Paulo, em jogo marcado por duas polêmicas de arbitragem: um possível toque de mão dentro da área e a utilização do impedimento semiautomático sem a exibição clara do momento do passe. O diretor de futebol rubro-negro gravou um vídeo questionando a falta de critério da arbitragem brasileira e cobrando transparência da CBF, mas parte da imprensa paulista tratou a declaração como se o dirigente tivesse atacado a tecnologia ou usado a reclamação para desviar o foco do desempenho do time.
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A crítica ao formato escolhido pelo Flamengo é válida. O vídeo foi mal produzido, com áudio ruim, enquadramento precário e aparência improvisada para uma manifestação institucional de um clube do tamanho do Flamengo. A comunicação poderia ter sido conduzida de forma mais profissional, com pedido formal à CBF, nota técnica, cobrança pública bem estruturada ou até bastidor organizado para exigir a divulgação do procedimento. O problema é que a pobreza da embalagem não autoriza a distorção do conteúdo. Boto não pediu o fim do impedimento semiautomático, não rejeitou a tecnologia e nem afirmou que o lance estava necessariamente errado. Ele cobrou que a Comissão de Arbitragem explicasse quando a linha foi traçada e mostrasse, com clareza, o momento em que a bola saiu do pé do passador.
A diferença não é pequena. Questionar a transparência do processo não é negar o recurso tecnológico. No caso do impedimento, o ponto central sempre foi a definição do frame do passe. Em lances ajustados, uma fração muda tudo. Quando a imagem entregue ao público mostra apenas a linha final e os jogadores envolvidos, mas não revela com nitidez o instante do toque na bola, abre-se espaço para desconfiança. Em um futebol acostumado a critérios variáveis, áudio de VAR mal explicado, decisões contraditórias e comunicados pouco convincentes, pedir mais informação não deveria ser tratado como heresia.
A reclamação de Boto
Na manifestação, Boto começou separando as coisas. Disse não considerar os árbitros brasileiros ruins e citou Rafael Claus, Wilton Pereira Sampaio e Ramon Abatti Abel como exemplos de profissionais que tiveram boas atuações no Mundial quando trabalharam sob critérios claros. A crítica, portanto, não foi pessoal. O alvo estava na falta de uniformidade do sistema. Para o dirigente, o problema brasileiro é permitir que lances semelhantes recebam interpretações diferentes a depender do estádio, da rodada ou da pressão do momento.
Sobre o possível toque de mão, Boto cobrou uma posição objetiva da Comissão de Arbitragem. Se o uso ostensivo do braço para tirar vantagem, mesmo próximo ao corpo, não é falta, que isso seja dito de maneira pública e aplicada em qualquer campo do país. A reclamação pode ser debatida, porque se trata de um lance interpretativo, mas o argumento central é o critério. O que incomoda o Flamengo, nesse caso, não é apenas a decisão de uma partida, mas a sensação de que a regra muda conforme o contexto.
No impedimento semiautomático, a fala foi ainda mais direta. Boto afirmou não ser especialista em tecnologia ou arbitragem, mas pediu esclarecimento sobre o instante utilizado para traçar a linha. Segundo ele, em competições como a Copa do Mundo e em outras ligas, a imagem costuma mostrar o momento da saída da bola e depois a linha aplicada. No jogo em questão, a divulgação teria exibido apenas os jogadores e a marcação final, sem apresentar ao público a sequência completa que justificaria a decisão.
Esse é o ponto que parte da imprensa paulista preferiu contornar. O diretor não contestou a existência do sistema. Pediu transparência. Não disse que a ferramenta deveria ser abandonada. Pediu que a CBF explicasse como chegou à decisão. Não afirmou que o Flamengo perdeu por causa do lance. Cobrou critérios iguais e comunicação clara para evitar polêmica semanal.
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Tecnologia sem confiança vira mais uma crise
A adoção do impedimento semiautomático no Brasil nasceu cercada de expectativa, mas rapidamente entrou em zona de questionamento. A discussão não é apenas sobre a capacidade do software, mas sobre a confiança do público em quem opera e divulga o processo. No modelo brasileiro, a tecnologia utiliza câmeras de alta resolução distribuídas pelo estádio, sem chip na bola. O sistema identifica jogadores, recomenda o ponto de contato e gera a animação de visualização da decisão final. A ausência do chip, por si só, não torna o método inválido, já que outras competições utilizam soluções semelhantes, mas aumenta a necessidade de transparência na apresentação.
O futebol brasileiro não tem o mesmo ambiente de confiança institucional da Premier League. Importar o procedimento sem importar o nível de credibilidade é ignorar a realidade local. Aqui, o torcedor não desconfia apenas por cultura de reclamação. Desconfia porque viu o VAR ser aplicado de forma contraditória, ouviu explicações frágeis, acompanhou mudanças de critério e percebeu decisões que variaram de rodada para rodada. Nesse cenário, mostrar o frame do passe não é luxo. É requisito mínimo para reduzir suspeitas.
A comparação automática com a Inglaterra, usada por alguns comentaristas para desqualificar a cobrança, empobrece o debate. O Brasil não precisa copiar a postura do público inglês diante de uma arbitragem que historicamente não oferece o mesmo padrão de clareza. A tecnologia pode ser boa, necessária e bem-vinda, mas precisa vir acompanhada de comunicação compatível com o nível de exigência do campeonato. Quando a CBF anuncia uma revolução e entrega uma imagem que não responde à principal pergunta do lance, ela alimenta justamente a polêmica que prometeu resolver.
A distorção paulista
A reação de Arnaldo Ribeiro e Eduardo Tironi é um bom exemplo de deslocamento do debate. Em vez de discutir o mérito da cobrança por transparência, a análise caminhou para a ideia de que Boto estaria reclamando de arbitragem por hábito, tentando tirar o foco do mau momento do Flamengo ou reduzindo a responsabilidade pelo desempenho diante do São Paulo. Essa leitura mistura assuntos diferentes e produz uma conclusão conveniente.
É possível criticar Boto pela comunicação ruim. Também é legítimo cobrar o diretor pelo planejamento, pelas contratações, pela troca de comando técnico e pela pressão sobre o trabalho de Leonardo Jardim. O Flamengo jogou mal, ficou atrás do Palmeiras na disputa nacional e tem questões internas a resolver. Nada disso elimina a necessidade de discutir a transparência do impedimento semiautomático. O mérito da reclamação não desaparece porque o time não atuou bem.
A distorção fica mais evidente quando se atribui ao Flamengo uma rotina de reclamações como se isso fosse exclusividade rubro-negra. Clubes paulistas, especialmente o Palmeiras nos últimos anos, também se manifestaram inúmeras vezes contra arbitragem, inclusive em situações nas quais foram beneficiados. A diferença costuma estar no tratamento. Quando a cobrança parte de São Paulo, vira pressão institucional, zelo competitivo ou busca por critério. Quando vem do Flamengo, muitas vezes é enquadrada como choro, cortina de fumaça ou tentativa de tumultuar o campeonato.
Esse duplo padrão contamina a análise esportiva. O debate deixa de ser sobre o lance, o critério e o funcionamento da tecnologia para se transformar em julgamento de intenção. Em vez de responder se a CBF deveria mostrar o momento do passe, parte da imprensa prefere discutir se Boto quer desviar o foco, se o Flamengo está pressionado ou se o dirigente fala demais. Tudo isso pode existir, mas não substitui a pergunta principal.
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O que a CBF precisa explicar
A Comissão de Arbitragem tem uma oportunidade simples de reduzir o ruído. Basta padronizar a divulgação. Em todo lance de impedimento semiautomático, especialmente nos milimétricos, a imagem deveria mostrar o momento do passe, o ponto considerado pelo sistema, a linha aplicada e a animação final. Quanto mais objetiva for a comunicação, menor será a margem para narrativa.
O mesmo vale para lances de mão. A CBF precisa explicar o entendimento que deseja aplicar no Brasil. Braço próximo ao corpo sempre descaracteriza infração? Movimento deliberado para desviar a trajetória muda a análise? O VAR deve chamar em quais circunstâncias? A decisão de campo prevalece até que ponto? Essas respostas não podem surgir apenas depois de polêmicas envolvendo clubes grandes. Precisam ser públicas, estáveis e repetidas com coerência.
O Flamengo, por sua vez, precisa melhorar a forma de se posicionar. Reclamar com vídeo malfeito enfraquece o conteúdo da cobrança e facilita o trabalho de quem quer caricaturar a manifestação. Um clube que busca protagonismo institucional deve apresentar suas demandas com rigor técnico, comunicação profissional e estratégia. Quando a forma é descuidada, o adversário narrativo ganha munição para ignorar o mérito.
Ainda assim, a má comunicação não muda o centro da história. Boto pediu transparência. A imprensa paulista, em parte, transformou isso em ataque à tecnologia. O debate real não é se o Flamengo jogou bem ou mal contra o São Paulo, nem se o dirigente tem responsabilidade pelo momento do futebol. A discussão é se o impedimento semiautomático, recém adotado no Brasil, será acompanhado de explicação suficiente para convencer torcedores, clubes e profissionais. Sem clareza, a ferramenta que deveria encerrar dúvidas corre o risco de virar apenas mais uma camada tecnológica sobre a velha falta de critério da arbitragem brasileira.
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