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Jornalista é atacado por colegas após criticar calotes do Botafogo e expõe hipocrisia no futebol

Jornalista é atacado por colegas após criticar calotes do Botafogo e expõe hipocrisia no futebol

Imagem: Resprodução/TNT Spots e Band

A crítica pública feita por Gabriel Simões à normalização do chamado “doping financeiro” reacendeu um debate antigo, mas convenientemente esquecido, sobre ética, responsabilidade e papel do jornalismo no futebol brasileiro. O episódio começou após uma fala do comentarista na Cazé TV, ao questionar conquistas esportivas construídas sobre calotes, atrasos e obrigações não cumpridas. A reação foi imediata, ruidosa e reveladora: não contra o problema apontado, mas contra quem ousou apontá-lo.


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Simões citou o Botafogo, campeão brasileiro e da Libertadores em 2024, ainda envolvido em pendências como o caso Thiago Almada, além de exemplos recorrentes do Corinthians e de outros clubes que gastam acima da capacidade de pagamento. O ponto central não era o escudo estampado na camisa, mas a lógica que se repete há décadas: monta-se um elenco caro, vence-se no campo e empurra-se a conta para depois. O “depois”, quase sempre, vira um emaranhado de dívidas, ações judiciais e acordos descumpridos.

A resposta de parte do público seguiu um roteiro previsível. Torcedores transformaram a crítica em ataque pessoal, tentando desqualificar a análise pelo simples fato de Simões ser flamenguista assumido. Como se a preferência clubística anulasse a capacidade de leitura estrutural do jogo. O próprio comentarista reagiu de forma direta, lembrando que ter um time não impede ninguém de exercer o ofício com seriedade e que o erro permanece erro, independentemente de quem o cometa.

O debate ganhou densidade quando deixou de ser apenas sobre torcedores e passou a envolver jornalistas. Aí a discussão ficou mais incômoda. Surgiu a defesa explícita da ideia de que práticas ruins devem ser relativizadas porque “sempre foi assim”. Esse argumento, além de pobre, ignora a linha do tempo recente do futebol nacional. Clubes quebraram, entidades ruíram e projetos coletivos fracassaram justamente por essa complacência histórica.

O caso do Corinthians ilustra bem esse cenário. Endividado em cifras bilionárias, o clube renegociou obrigações com a Caixa Econômica Federal em condições duras, mas previsíveis para qualquer credor que tenta receber o que lhe é devido. Parte da cobertura, no entanto, escolheu tratar a instituição financeira como vilã, como se cobrar parcelas acordadas fosse um abuso. A inversão é evidente: o devedor reincide no descumprimento, mas o foco da crítica recai sobre quem exige o pagamento.

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Esse tipo de narrativa não surge do nada. Ela dialoga com uma cultura em que dirigentes são frequentemente tratados como vítimas do sistema, e não como responsáveis diretos pela gestão temerária. Quando a imprensa adota esse enquadramento, contribui para a normalização do problema. O torcedor, por sua vez, compra o discurso e passa a defender o erro como se fosse virtude competitiva.

Historicamente, clubes do Rio de Janeiro foram alvos constantes de denúncias e reportagens duras quando atravessaram crises semelhantes. Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo estamparam manchetes constrangedoras em períodos de salários atrasados, falta de recursos básicos e administrações desastrosas. Não houve romantização. Houve cobrança. A diferença de tratamento regional ajuda a explicar por que certos comportamentos ainda encontram abrigo em discursos aparentemente técnicos.

O argumento de que “todo mundo já ganhou assim” não absolve ninguém. Pelo contrário, escancara o tamanho do problema. O futebol brasileiro se acostumou a conviver com calotes, manobras financeiras e gestões irresponsáveis como se fossem parte do jogo. O resultado aparece no médio prazo: clubes estrangulados, receitas penhoradas, credibilidade corroída e um ambiente cada vez mais desigual.

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A crítica de Gabriel Simões incomodou porque expôs essa engrenagem sem escolher lado conveniente. Ao afirmar que estaria errado mesmo se fosse o Flamengo, ele tocou no ponto sensível: a necessidade de romper com a lógica da conivência. Não se trata de ignorar dificuldades econômicas reais, mas de rejeitar a ideia de que gastar sem poder pagar é aceitável desde que venha acompanhado de taças.

O torcedor pode reagir com paixão, cegueira seletiva ou defesa instintiva do próprio clube. É parte do jogo emocional. O jornalismo, não. Quando profissionais optam por relativizar o erro, justificar o injustificável ou atacar o mensageiro, deixam de cumprir a função básica de cobrar transparência e responsabilidade. A normalização do doping financeiro não é apenas um problema de gestão esportiva. É um sintoma de um ecossistema que prefere o conforto da repetição ao desconforto da mudança.

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