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Jornalista palmeirense convoca milícia digital, fala em “sistema”, mas não apresenta provas

Jornalista palmeirense convoca milícia digital, fala em “sistema”, mas não apresenta provas

Reinaldo Gottino convocou torcedores, jogadores e integrantes da comissão técnica do Palmeiras a se unirem contra um suposto “sistema” que estaria se formando para prejudicar o clube após as recentes polêmicas de arbitragem. Publicado antes da partida contra o Fortaleza, o vídeo apresenta a reação do Flamengo ao debate sobre o VAR como o início de uma ofensiva contra a equipe paulista, embora o jornalista não exponha provas de perseguição, combinação entre instituições ou atuação deliberada para alterar resultados.


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Jornalista e apresentador com passagem pela cobertura esportiva, Gottino é torcedor declarado do Palmeiras e mantém relação pública com o clube. Essa identificação não o impede de defender a instituição, mas aumenta a responsabilidade sobre a maneira como separa manifestação pessoal, opinião jornalística e acusação.

A gravidade da fala não está no apoio ao time, algo natural para qualquer torcedor, e sim na utilização de sua audiência para anunciar uma ameaça difusa. “Tem um sistema todo vindo para cima aí”, afirmou, depois de pedir que a “coletividade palestrina” abrisse os olhos e se preparasse para uma temporada em que seria necessário “correr um pouco mais”.

Da crítica à teoria de perseguição

O vídeo começa com uma referência ao confronto entre Palmeiras e São Paulo, disputado em outubro de 2025, e relaciona aquele episódio às discussões provocadas pela vitória palmeirense por 4 a 0 sobre o Vitória. Gottino sustenta que, assim como teria ocorrido na temporada anterior, um jogo estaria sendo utilizado para construir uma onda contra o clube.

A comparação ignora que os questionamentos surgiram de acontecimentos concretos. Contra o Vitória, duas expulsões ainda no primeiro tempo transformaram o cenário da partida, enquanto Maurício permaneceu em campo após atingir o rosto de Cacá e receber somente cartão amarelo. A jogada resultou em denúncia da Procuradoria do STJD e ampliou o debate sobre os critérios utilizados pelo árbitro e pelo VAR.

Questionar essas decisões não significa defender que o Palmeiras seja prejudicado no compromisso seguinte. A arbitragem precisa ser analisada em cada rodada, sem compensações, retaliações ou tentativa de equilibrar erros anteriores. Quando uma cobrança técnica é apresentada como o início de uma perseguição, o foco deixa os lances e passa a ocupar um território no qual qualquer marcação contrária poderá ser interpretada como confirmação da denúncia inicial.

Gottino reforça esse ambiente ao declarar: “Abram o olho. Jogadores, comissão técnica, abram o olho”. Em seguida, avisa que o Palmeiras precisará “se desdobrar um pouco mais” e pede união à torcida. A construção não informa quem integra o suposto sistema, como ele funcionaria ou quais evidências sustentariam sua existência, mas produz um inimigo amplo o suficiente para ser reconhecido em árbitros, rivais, jornalistas, tribunais ou dirigentes.

“Percepção” não equivale a denúncia

Parte da crítica foi direcionada à nota em que o Flamengo mencionou a existência de uma percepção pública sobre decisões favoráveis ao Palmeiras. Gottino resumiu o trecho da seguinte forma: “Olha só, a denúncia agora é uma percepção”. A frase altera o sentido da manifestação rubro-negra, porque percepção e denúncia não são expressões equivalentes.

Ao utilizar esse termo, o Flamengo evitou afirmar como fato aquilo que não poderia provar. O clube também apresentou estatísticas sobre alterações promovidas pelo VAR desde a implantação da tecnologia no Campeonato Brasileiro, destacando que o Palmeiras possuía o maior saldo positivo no levantamento citado. Esse número, por si só, não demonstra benefício indevido, pois uma intervenção favorável pode ter corrigido um erro cometido inicialmente.

A ressalva é indispensável. Para concluir que houve favorecimento, seria necessário examinar cada jogada, avaliar se a decisão final estava correta e identificar um padrão que ultrapassasse a coincidência estatística. O próprio comunicado rubro-negro reconheceu que os dados não bastavam para sustentar uma acusação de desonestidade.

O Flamengo entrou na guerra de versões e também deve ser criticado quando utiliza números incompletos para produzir pressão política. A diferença é que apresentar uma estatística acompanhada de cautela não corresponde a anunciar a existência de um “sistema” sem indicar responsáveis, mecanismos ou provas.

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Jornalismo exige mais do que mobilização

Gottino poderia defender que o Palmeiras não fosse prejudicado, cobrar critérios uniformes e exigir transparência da CBF. Poderia também sustentar que as decisões favoráveis decorreram da aplicação correta das regras, desde que analisasse os episódios. Em vez disso, escolheu uma linguagem de convocação: “Agora é hora de união. Agora é hora de cantar até o final e apoiar esses caras”.

Esse tipo de conteúdo funciona como comunicação de torcida, não como apuração jornalística. O problema se torna maior quando a autoridade construída na televisão é utilizada para dar aparência factual a uma suspeita que permanece sem demonstração. Uma coisa é afirmar que existe pressão contra um clube; outra, muito diferente, é dizer que um sistema inteiro está em movimento.

O jornalista não precisa abandonar sua identidade esportiva, esconder preferências ou tratar o futebol como atividade sem paixão. Precisa, porém, deixar claro quando fala como torcedor e evitar que o alcance profissional transforme uma impressão pessoal em ameaça institucional.

O vídeo também prepara uma explicação antecipada para resultados futuros. Caso o Palmeiras receba cartões, tenha um gol anulado ou sofra uma decisão controversa, o episódio poderá ser encaixado na tese anunciada antes de a bola rolar. Se a marcação for favorável, ela tende a ser interpretada como justiça ou correção técnica. Essa estrutura é difícil de confrontar porque absorve apenas os fatos que confirmam sua premissa.

O Palmeiras e a disputa fora de campo

A postura de Gottino não aparece isolada do comportamento adotado pelo Palmeiras. Nos últimos episódios, o clube publicou notas para defender decisões de arbitragem, questionar o STJD e reclamar de tratamentos considerados desiguais. Abel Ferreira e Leila Pereira também intensificaram manifestações sobre a atuação dos árbitros e sobre aquilo que chamam de disputa de narrativas.

Defender os próprios interesses é legítimo. O limite surge quando o Palmeiras se coloca permanentemente como vítima, mesmo depois de partidas nas quais as principais decisões questionadas foram favoráveis à equipe. A denúncia contra Maurício, por exemplo, foi tratada como afronta ao clube e à arbitragem, embora a Justiça Desportiva tenha justamente a função de analisar condutas que podem não ter recebido enquadramento adequado no campo.

Também existe uma contradição na relação com os rivais. O Palmeiras citou Flamengo e Corinthians em seu comunicado para comparar lances e cobrar isonomia. Quando o Rubro-Negro respondeu mencionando a equipe paulista, dirigentes passaram a classificar a reação como intromissão em um assunto que envolveria apenas Palmeiras e Vitória.

Gottino repete esse movimento ao tratar a nota flamenguista como o começo de uma onda contra sua equipe, sem reconhecer que o clube paulista já havia incluído o adversário na discussão. A disputa deixa de procurar um critério comum e passa a premiar apenas a versão mais mobilizadora.

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A arbitragem desaparece atrás do “sistema”

O futebol brasileiro possui problemas reais de arbitragem. Falta uniformidade na aplicação dos cartões, há dificuldade para compreender determinados protocolos do VAR e a divulgação dos áudios ainda não garante uma explicação completa sobre todas as decisões. Esses defeitos precisam ser discutidos com fatos, imagens, regras e cobrança institucional.

A teoria de um sistema contra o Palmeiras não contribui para esse aperfeiçoamento. Pelo contrário, transforma qualquer análise em ataque e oferece proteção antecipada contra críticas. Árbitros passam a trabalhar sob suspeita antes das partidas, enquanto torcedores são estimulados a enxergar hostilidade em toda decisão desfavorável.

A mesma cobrança vale para o Flamengo. Notas oficiais, estatísticas e manifestações públicas não podem substituir o investimento em propostas concretas para melhorar a arbitragem. Os clubes possuem força política suficiente para exigir profissionalização, padronização, treinamento, independência e maior transparência, mas frequentemente preferem utilizar os erros como instrumento de pressão competitiva.

Gottino poderia aproveitar sua audiência para defender esses princípios. Ao anunciar que existe “um sistema todo vindo para cima”, escolheu o caminho mais eficiente para mobilizar a torcida e o menos responsável para esclarecer o debate. O jornalismo não pode exigir provas dos outros enquanto transforma suspeitas próprias em certezas emocionais.

A crítica ao Palmeiras não representa perseguição, assim como uma decisão contrária não comprova retaliação. O clube deve ser protegido de erros como qualquer outro participante, sem privilégios nem compensações. Quando um comunicador confunde fiscalização com conspiração, a arbitragem deixa de ser analisada e passa a servir como combustível para uma disputa em que a vítima já foi escolhida antes mesmo do próximo apito.

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