Júlio Gomes tentou recolocar nos trilhos, dias depois, uma fala que ganhou repercussão nacional e atravessou bolhas. Em participação no programa “Fim de Papo“, do UOL, o comentarista afirmou que havia sido mal interpretado ao dizer que um futebol brasileiro mais organizado seria ruim. Segundo ele, a crítica dizia respeito apenas ao formato das competições, especialmente ao Campeonato Brasileiro por pontos corridos, e não à organização estrutural do esporte no país. O problema é que a própria linha do tempo do discurso desmente a versão apresentada agora.
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A declaração original não surgiu em um debate técnico sobre regulamento. Ela apareceu em um contexto mais amplo, ao discutir concentração de poder, desigualdade financeira e o crescimento de clubes mais organizados, em especial o Flamengo. A ideia central era simples e perigosa: quanto mais organizado o futebol, mais as diferenças se acentuam; logo, para manter equilíbrio e imprevisibilidade, seria necessário “bagunçar” o campeonato. A palavra foi usada, repetida e defendida.
Na tentativa de justificar a fala, Júlio Gomes passou a fazer uma distinção artificial entre “organização do futebol” e “organização do campeonato”. Disse que se referia apenas a formatos, como mata-mata, e não a boas práticas de gestão, calendário ou governança. Só que essa separação não se sustenta nem conceitualmente, nem à luz do que ele próprio disse anteriormente.
Quando defende a realização de jogos em Datas FIFA, por exemplo, o debate deixa imediatamente o campo do formato e entra na esfera da organização estrutural. Praticamente nenhuma liga relevante do mundo mantém rodadas durante convocações internacionais justamente para preservar o nível técnico da competição e a integridade esportiva. Defender o contrário é defender um futebol que aceita distorções como regra, penaliza clubes organizados e normaliza improviso. Isso não é regulamento. É modelo.
O argumento implícito fica ainda mais claro quando o comentarista menciona, de forma recorrente, o Flamengo como símbolo do desequilíbrio. Ao afirmar que um campeonato mais “esticado” aumenta as chances de títulos previsíveis, ele não está discutindo apenas se a disputa deve ser em pontos corridos ou mata-mata. Está falando de gestão, orçamento, planejamento e responsabilidade administrativa. Está falando de um clube que se estruturou enquanto outros escolheram caminhos diferentes, muitas vezes baseados em dívida, aposta e curto prazo.
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A história recente do futebol brasileiro ajuda a entender o tamanho da contradição. O Campeonato Brasileiro por pontos corridos foi adotado em 2003 justamente como resposta ao caos dos anos 80 e 90, marcados por viradas de mesa, regulamentos confusos e campeonatos intermináveis. A previsibilidade do formato não eliminou surpresas, mas premiou consistência. Desde então, clubes como Cruzeiro, São Paulo, Corinthians, Palmeiras e Flamengo venceram em ciclos distintos, cada um em contextos específicos de organização ou desorganização interna.
Mesmo nos torneios de mata-mata, frequentemente citados como solução mágica para o equilíbrio, a lógica não se confirma plenamente. A Copa do Brasil, apontada como exemplo de imprevisibilidade, também tem sido dominada por clubes financeiramente mais fortes. O Flamengo chegou em três finais nas últimas quatro edições.
Ao longo de sua justificativa, Júlio Gomes também amplia o discurso para lamentar o possível desaparecimento de clubes tradicionais, como Portuguesa e Vasco, associando esse processo a um suposto excesso de organização. Aqui, a análise perde ainda mais precisão histórica. Esses clubes não entraram em crise porque o futebol brasileiro ficou organizado demais. Entraram em crise por gestões ruins, escolhas políticas equivocadas, endividamento crônico e ausência de projetos sustentáveis. Transferir essa responsabilidade para o modelo competitivo é uma forma elegante de fugir do ponto central.
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Há ainda um aspecto simbólico que não pode ser ignorado. Quando um jornalista de grande alcance relativiza a importância de boas práticas em nome de um equilíbrio artificial, ele legitima a ideia de que o caminho para competir passa por enfraquecer quem faz melhor, e não por elevar o nível geral. É o nivelamento por baixo travestido de romantismo esportivo.
O futebol brasileiro sempre conviveu com desigualdades, mas também sempre produziu competitividade quando houve mínimo de organização institucional. Calendário respeitado, regras claras e gestão responsável não matam rivalidades, não apagam histórias e não transformam campeonatos em procissões. O que mata clubes é a ausência disso tudo.
Ao tentar reduzir sua fala a um debate sobre formato, Júlio Gomes ignora o grosso do próprio discurso, que trata de modelo, poder e organização do futebol como um todo. Não se trata de um deslize semântico. Trata-se de uma visão de mundo que aceita o caos como ferramenta de correção e transforma a exceção em método. Nesse ponto, a contradição não é de interpretação. É de essência.
ABSURDO! Júlio Gomes diz que organização beneficia Flamengo e defende a volta da bagunça no futebol
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