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Notas oficiais expõem estratégias diferentes de Flamengo e Palmeiras e revelam método de pressão alviverde

Enquanto Leila silencia, Flamengo lidera pressão em Brasília por PEC dos clubes associativos

Flamengo e Palmeiras publicaram cinco notas oficiais cada entre 1º de janeiro e 1º de junho de 2026, mas a igualdade termina na contagem. Enquanto o clube rubro-negro utilizou seus comunicados principalmente para administrar crises internas, esclarecer informações, formalizar decisões técnicas e defender a isonomia do calendário, a instituição paulista concentrou parte relevante de sua comunicação em embates com a arbitragem, o STJD, a CBF e adversários políticos. O levantamento revela que tratar as duas estratégias como equivalentes significa ignorar o conteúdo das manifestações e a finalidade institucional de cada uma.


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A nota oficial não é um simples texto publicado em site ou rede social. Ela carrega o peso da instituição, transforma uma reclamação em posicionamento formal e amplia a pressão sobre dirigentes, julgadores, árbitros e entidades. Quando um clube escolhe esse instrumento para contestar decisões, acusar jornalistas, reclamar de punições ou interferir no debate sobre partidas de terceiros, deixa de apenas informar o torcedor e passa a atuar politicamente nos bastidores.

O Palmeiras compreendeu esse poder há bastante tempo. A repetição dos comunicados virou até motivo de brincadeira nas redes sociais, mas reduzir o fenômeno ao folclore ajuda a esconder a estratégia. Por trás da “notinha oficial” existe uma engrenagem de pressão que alcança a Comissão de Arbitragem, a CBF, o STJD, a imprensa esportiva e os próprios árbitros escalados para os jogos seguintes.

O Flamengo também passou a reagir com maior firmeza em 2025, sobretudo depois de episódios considerados prejudiciais no Campeonato Brasileiro. Isso, porém, não autoriza criar uma falsa simetria. Uma instituição pode eventualmente utilizar o mesmo instrumento sem reproduzir a intensidade, a frequência temática e o caráter de confronto adotados pela outra.

Cinco notas para cada lado, funções completamente diferentes

O primeiro dado exige correção e contexto. Durante a apresentação do levantamento, chegou-se inicialmente ao número de sete notas do Palmeiras, mas a contagem foi posteriormente ajustada para cinco, exatamente a mesma quantidade registrada pelo Flamengo. O empate numérico, entretanto, não significa equilíbrio de conteúdo, porque um único comunicado palmeirense frequentemente reúne vários assuntos, amplia o alcance da crítica e envolve até situações que não dizem respeito diretamente ao clube.

As cinco manifestações do Flamengo tiveram natureza diversificada. Em 25 de fevereiro, o clube desmentiu uma suposta lista vazada do departamento de scout. No dia 1º de março, abordou o momento da equipe profissional e o ambiente interno. Dois dias depois, formalizou a saída de Filipe Luís e a mudança no comando técnico.

Em 7 de maio, Flamengo e Grêmio publicaram conjuntamente um posicionamento sobre o acordo de receitas da Libra. Já no dia 23, o Rubro-Negro criticou a manutenção da 18ª rodada do Campeonato Brasileiro durante o período de preparação para a Copa do Mundo, alegando quebra de isonomia causada pelas convocações e pelo calendário.

Não houve, nesse recorte, qualquer nota flamenguista destinada especificamente a pressionar a arbitragem por um lance de campo. Também não apareceu manifestação contra punição aplicada pelo STJD. A comunicação esteve ligada ao funcionamento interno, ao futebol profissional, à defesa institucional e a questões estruturantes do campeonato.

O Palmeiras seguiu caminho distinto. A primeira nota do ano contestou a punição aplicada a Abel Ferreira. Em abril, o clube voltou a manifestar “profunda insatisfação” com o STJD pela manutenção da suspensão do treinador e ainda incluiu críticas à CBF pelo adiamento de um Fla-Flu, partida da qual o Palmeiras não participava.

Em maio, formalizou a saída da Libra e publicou outro comunicado dizendo que a CBF teria reconhecido erro da arbitragem na anulação de um gol contra o Remo. Essa versão foi posteriormente contestada em reportagem, segundo a qual a Comissão de Arbitragem não teria feito o reconhecimento descrito pelo clube. Palmeiras e CBF não teriam apresentado esclarecimento público capaz de encerrar a controvérsia.

A quinta nota, publicada em 1º de junho após o jogo contra a Chapecoense, voltou à arbitragem e atacou “pseudojornalistas” e supostas narrativas destinadas a prejudicar o clube. A instituição deixou de discutir apenas a decisão de campo e passou a enquadrar parte da cobertura como agente de uma campanha contrária aos seus interesses.

A nota como instrumento de pressão

O método não precisa ser ilegal para ser reconhecido como estratégia. Clubes têm direito de contestar erros, defender seus profissionais e cobrar explicações das entidades. O problema surge quando a pressão se torna permanente, seletiva e capaz de condicionar o ambiente das partidas seguintes.

Ao publicar uma nota contra a arbitragem, o Palmeiras não fala apenas com o torcedor. O texto alcança quem fará as próximas escalas, quem julgará recursos no STJD, quem atuará no VAR e quem entrará em campo sabendo que qualquer decisão desfavorável poderá gerar nova ofensiva institucional.

Esse efeito é ampliado quando dirigentes, treinador e canais oficiais repetem a mesma narrativa. Abel Ferreira reclama de um suposto período sem pênaltis, a presidente critica entidades, o clube formaliza a insatisfação e setores da imprensa repercutem a pressão. Cada ato pode ser analisado isoladamente, mas o conjunto forma uma estratégia reconhecível.

É o chamado método palmeirense mencionado por jornalistas como Arnaldo Ribeiro: utilização coordenada de entrevistas, declarações, comunicados e presença política para pressionar o sistema do futebol. A nota oficial é uma peça dessa engrenagem, não um episódio independente.

O Flamengo também reclama, concede entrevistas e reage a decisões. José Boto, Bap e outros dirigentes já se manifestaram publicamente, nem sempre com a clareza ou a qualidade esperadas. Ainda assim, o levantamento mostra que, no período analisado, o clube não transformou a nota oficial em ferramenta recorrente de contestação da arbitragem ou do STJD.

O Palmeiras entrou até em assunto de Flamengo e Fluminense

Um dos exemplos mais reveladores está na nota palmeirense que criticou o adiamento de um Fla-Flu. A mudança envolvia Flamengo, Fluminense, calendário e pedido dos clubes diretamente afetados, mas o Palmeiras decidiu inserir o episódio em sua manifestação contra a CBF.

A comparação feita por Abel Ferreira entre a alteração da data do clássico e a manutenção de uma rodada completa também foi apresentada como falsa simetria. Mudar a data de uma partida após solicitação dos envolvidos não equivale a suspender uma rodada inteira do Campeonato Brasileiro. Os impactos esportivos, logísticos e jurídicos são diferentes.

Ao misturar as duas situações, o discurso cria a sensação de tratamento privilegiado ao Flamengo, mesmo quando os contextos não são equivalentes. Essa construção é eficiente politicamente porque conversa com uma narrativa já difundida de favorecimento rubro-negro, mas perde consistência quando os fatos são examinados separadamente.

O episódio também contradiz a ideia de que o Palmeiras apenas reage quando provocado. Nesse caso, o clube ingressou voluntariamente em uma questão alheia à sua partida, utilizou o comunicado institucional e ampliou o conflito para alcançar um adversário nacional.

Leila diz que não inicia conflitos, mas os exemplos apontam outra direção

Em entrevista, Leila Pereira afirmou que não inicia embates com a diretoria do Flamengo e que apenas responde quando é provocada. A declaração não combina integralmente com a sequência de episódios reunida na análise.

Durante o conflito da Libra, o Flamengo discutia judicialmente o modelo de receitas com o bloco. As primeiras manifestações rubro-negras não individualizavam o Palmeiras, mas Leila assumiu protagonismo no confronto, dirigiu críticas diretamente ao clube carioca e popularizou expressões como “terraflanismo”.

Quando Filipe Luís deixou o Flamengo, a presidente palmeirense fez publicação em seus perfis e voltou a comentar o assunto em entrevista. No episódio do adiamento do Fla-Flu, o Palmeiras também se posicionou oficialmente sobre uma decisão que não alterava diretamente seu compromisso esportivo.

Isso não significa que o Flamengo jamais tenha iniciado uma discussão. Bap já fez críticas conceituais sobre gramados, modelos de liga e estruturas do futebol que atingiam interesses defendidos pelo Palmeiras. O ponto é outro: afirmar que Leila apenas responde não corresponde ao conjunto das manifestações observadas.

Há uma diferença entre admitir uma rivalidade nacional crescente e tentar se apresentar como personagem passiva do conflito. Flamengo e Palmeiras decidiram Libertadores, disputaram Campeonatos Brasileiros, encontraram-se na Copa do Brasil e passaram a concorrer diretamente por poder político e receitas. A rivalidade existe, ainda que não substitua os confrontos históricos de cada clube em seus estados.

A comunicação pessoal ocupa os canais do Palmeiras

A análise também chama atenção para o uso dos meios oficiais do Palmeiras na promoção da imagem de Leila Pereira. Em participações nos canais do clube, perguntas técnicas sobre as categorias de base receberam respostas centradas na presença da dirigente no centro de treinamento, no contato com atletas e em relatos pessoais.

Uma presidente não precisa responder como coordenadora metodológica ou especialista em formação, mas o conteúdo institucional deveria priorizar projeto, estrutura, processos, resultados e objetivos. Quando a resposta se desloca continuamente para o que a dirigente faz, sente ou presencia, a comunicação do clube passa a servir também à construção de sua personagem política.

O mesmo ocorre em conteúdos leves, como mensagens a torcedores e aparições em transmissões oficiais. Não há irregularidade em cumprimentar uma criança ou falar com a torcida. O questionamento está na frequência com que a imagem da presidente ocupa espaços institucionais e se mistura à identidade do clube.

Essa personalização ajuda a explicar por que os conflitos envolvendo Leila rapidamente se tornam posições do Palmeiras. A fronteira entre dirigente, personagem pública e instituição fica menos nítida, enquanto críticas dirigidas à presidente passam a ser tratadas como ataques ao próprio clube.

TRANSMISSÃO AO VIVO COMPLETA:

Bap adotou tom diferente em entrevista recente

O contraste também apareceu nas entrevistas citadas ao fim da transmissão. Em uma conversa de aproximadamente uma hora, Bap teria falado sobre a criação de uma liga e a necessidade de união sem citar o Palmeiras ou enviar recados diretos à rival. Isso não transforma o presidente do Flamengo em estadista por definição, nem apaga erros de comunicação de sua gestão. Revela apenas que, naquele conteúdo específico, o discurso foi mais institucional e menos voltado à personalização do conflito.

Leila, em sentido oposto, participou de conteúdo veiculado nos canais ligados ao Palmeiras e voltou a abordar o Flamengo. A diferença não está apenas no que cada dirigente pensa, mas na maneira como escolhe utilizar o espaço institucional. A comunicação política também se mede pelas ausências. Decidir não citar o adversário, mesmo diante de divergências, pode reduzir a temperatura e manter o debate no campo estrutural. Mencionar repetidamente o rival amplia engajamento, fortalece a imagem de confronto e mobiliza a própria torcida, mas cobra um preço na qualidade da discussão.

O Flamengo não é inocente, mas não age da mesma forma

A comparação não deve virar absolvição automática do Flamengo. O clube possui histórico de notas mal elaboradas, entrevistas ruins e respostas que aumentaram crises. José Boto apresenta dificuldades evidentes de comunicação, enquanto Bap já utilizou ironias e provocações que desviaram o foco de temas importantes.

O Rubro-Negro também precisa aprender a defender seus interesses com maior coordenação. Muitas vezes, reage tarde, permite que narrativas se consolidem e deixa dirigentes ou comunicadores atuarem sem uma linha institucional clara. Não reproduzir a estratégia palmeirense não significa possuir comunicação exemplar.

A conclusão do levantamento é mais limitada e, por isso, mais consistente: no primeiro semestre de 2026, as notas oficiais dos dois clubes cumpriram funções diferentes. O Flamengo priorizou crises internas, transições técnicas, desmentidos e isonomia competitiva. O Palmeiras utilizou seus comunicados com maior carga de confronto contra arbitragem, órgãos disciplinares, CBF, imprensa e estruturas políticas.

Portanto, dizer que “os dois fazem igual” serve menos para explicar a realidade do que para neutralizar a crítica. A quantidade final foi a mesma, mas o conteúdo não foi. Uma nota sobre desligamento de treinador não possui a mesma função de um texto que pressiona árbitros; um desmentido sobre scout não equivale a uma manifestação que acusa jornalistas de criar narrativas contra a instituição.

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O folclore em torno das notas do Palmeiras ajuda o clube. Ao transformar a repetição em meme, parte do público deixa de observar a função política das mensagens. A instituição aparece como excessivamente sensível ou engraçada, quando na verdade executa uma estratégia capaz de produzir efeitos concretos.

A pressão não precisa gerar uma ordem direta para funcionar. Basta criar ambiente, elevar o custo de uma decisão contrária e colocar árbitros, julgadores ou dirigentes sob escrutínio antecipado. Quem atua no jogo seguinte sabe que o Palmeiras possui força institucional e disposição para reagir publicamente.

Essa influência não garante favorecimento e não permite acusar qualquer profissional de agir por medo. Mostra, porém, que a comunicação é parte do jogo de poder. Ignorar essa dimensão deixa a análise restrita aos 90 minutos, como se campeonatos fossem decididos apenas por jogadores e treinadores.

Flamengo e Palmeiras representam os dois principais polos esportivos e econômicos do país nos últimos anos. A disputa não ocorre somente por títulos, atletas ou receitas, mas também pela capacidade de controlar narrativas. Nesse campo, o Palmeiras apresenta uma operação mais agressiva, personalista e coordenada.

A falsa simetria cai quando se lê aquilo que foi publicado. Os clubes podem ter emitido cinco notas cada, mas escolheram alvos, tons e objetivos distintos. O Flamengo não está acima de críticas, tampouco deve ser tratado como vítima permanente. O que os documentos mostram é que o Palmeiras transformou o comunicado oficial em ferramenta habitual de pressão, enquanto o Rubro-Negro ainda o utiliza de maneira mais ligada à administração de crises e à defesa pontual de seus interesses.

Reconhecer essa diferença não é clubismo. É ler os textos, identificar os destinatários e compreender por que uma instituição decidiu falar. A “notinha oficial” pode render piadas, mas, quando publicada por um clube do tamanho do Palmeiras, nunca é apenas uma nota.

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