Paulo Calçade afirmou, em um programa da ESPN, que o Flamengo “não faz nada pela organização do futebol brasileiro” e que, ao contrário, “se beneficia do caos”, a frase não surgiu no vácuo. Ela foi dita em meio a um debate sobre estaduais, crises institucionais em clubes tradicionais e a incapacidade histórica do futebol nacional de construir regras estáveis. O problema é que, ao apontar o dedo apenas para o Flamengo, o comentário simplifica uma discussão estrutural complexa e desloca responsabilidades de quem, há décadas, convive confortavelmente com a desordem.
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A fala ecoa um argumento antigo, reciclado em diferentes versões. Antes, o discurso era de que o Flamengo prosperava porque o futebol brasileiro era mal organizado. Agora, o roteiro inverteu o sinal: o clube estaria interessado em manter o cenário caótico justamente porque isso amplia sua vantagem competitiva. A lógica pode soar sedutora à primeira vista, mas não se sustenta quando confrontada com os fatos.
Desde 2013, quando iniciou um processo profundo de reorganização administrativa e financeira, o Flamengo passou a defender pautas que mexem diretamente com o coração do sistema. Fair play financeiro, calendário mais racional, melhoria da arbitragem e padronização de gramados sempre estiveram na mesa. Em praticamente todas essas frentes, o clube foi tratado como vilão. Quando propôs limites de gastos, ouviu que queria “quebrar” adversários. Quando levantou a bandeira da profissionalização, virou sinônimo de arrogância.
É curioso notar como essa memória curta molda o debate público. O mesmo Flamengo que hoje é cobrado a “salvar” o futebol brasileiro foi, por anos, hostilizado por tentar liderar discussões estruturantes. A reação do meio foi clara: demonização, desconfiança e resistência. Não houve coalizão sólida, nem esforço coletivo. Houve isolamento.
Enquanto isso, outros clubes afundavam em crises que nada têm a ver com o Flamengo. São Paulo e Corinthians, citados por Calçade como instituições sem “tempo” para pensar o futebol brasileiro por lidarem com polícia, Ministério Público e rombos financeiros, são exemplos de gestões que empurraram problemas por décadas. Dívidas bilionárias, estruturas frágeis e práticas políticas ultrapassadas não surgiram por obra do rival carioca. Foram escolhas internas, repetidas ao longo do tempo, muitas vezes aplaudidas por dirigentes, imprensa, conselhos e torcidas.
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A linha do tempo ajuda a entender o contraste. Em 2012, o Flamengo devia perto de um bilhão de reais. Ninguém apareceu com um plano pronto para salvá-lo. A reorganização veio de dentro, com cortes, austeridade e decisões impopulares. A partir daí, o clube passou a defender que regras semelhantes fossem aplicadas a todos. Não por altruísmo, mas porque sem isso o sistema seguiria premiando a irresponsabilidade. Essa defesa nunca foi consensual.
Dizer que o Flamengo “se beneficia do caos” ignora um dado central: o caos não é um ativo controlável. Ele corrói o produto, afasta investidores, fragiliza campeonatos e reduz valor no longo prazo. Um clube organizado pode até sobreviver melhor à bagunça, mas não prospera plenamente nela. A vantagem competitiva do clube vem de gestão, receita e planejamento, não da falência alheia.
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Há, sim, uma discussão legítima sobre protagonismo. O Flamengo poderia fazer mais? Talvez. Mas transformar isso em culpa exclusiva revela mais sobre a dificuldade do futebol brasileiro em assumir responsabilidades coletivas do que sobre qualquer suposta má-fé rubro-negra. O problema nunca foi um clube forte demais. O problema sempre foi um sistema que normalizou a fraqueza.
Quando o Flamengo tenta puxar o debate, é acusado de arrogante. Quando não aceita carregar o piano sozinho, vira cúmplice do caos. No fim, sobra retórica e falta honestidade intelectual. Organizar o futebol brasileiro exige mais do que encontrar um vilão conveniente. Exige reconhecer erros, dividir custos políticos e abandonar a confortável desordem que tantos aprenderam a explorar.
Flamengo vilão? A narrativa que tenta culpar a organização de uma boa gestão
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