O jornalista e apresentador Pedro Bial afirmou, em entrevista recente, que jamais torceria pelo Flamengo, classificando o clube como “populista” e contrapondo sua trajetória à do Corinthians, que, segundo ele, teria origem “genuinamente popular”. A declaração, feita ao comentar rivalidades e identidade de torcidas, provocou reação imediata nas redes e reabriu uma discussão antiga: afinal, o que significa ser “clube do povo” no Brasil? E até que ponto a história sustenta esse rótulo?
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Bial reconheceu a grandeza rubro-negra, citando torcida, tradição e presença nos esportes olímpicos. Em seguida, porém, afirmou que o Flamengo seria marcado por um “populismo desbragado”, enquanto o Corinthians carregaria raízes operárias autênticas. O contraste, apresentado como evidência histórica, ignora nuances fundamentais do contexto em que esses clubes surgiram.
Futebol, elite e o mito da origem pura
O Corinthians foi fundado em 1910. O departamento de futebol do Flamengo nasceu em 1911, após a cisão de atletas do Fluminense. No início do século XX, o futebol brasileiro ainda era prática predominantemente elitizada, associada a círculos sociais restritos. A popularização viria sobretudo a partir do fim dos anos 1920 e ao longo da década de 1930, quando o profissionalismo e a ampliação dos estádios mudaram o perfil das arquibancadas.
É fato que operários participaram da fundação corintiana. Também é fato que havia figuras influentes e famílias com posses entre os articuladores do clube paulista. O mesmo vale para agremiações cariocas. A ideia de uma origem absolutamente popular, dissociada de qualquer presença de elite, não resiste a uma análise mais detida das atas e personagens da época.
No caso rubro-negro, a fundação partiu de jovens ligados a camadas médias e altas do Rio de Janeiro. O que ocorreu nas décadas seguintes, no entanto, foi um processo de identificação crescente com as massas urbanas. Nos anos 1930 e 1940, quando o futebol se consolidou como paixão nacional, o Flamengo já contava com ídolos que dialogavam diretamente com a ascensão social e simbólica de jogadores negros e populares, como Domingos da Guia, Leônidas da Silva e Zizinho. Este último foi referência declarada de Pelé.
A Segunda Guerra Mundial interrompeu Copas e limitou a projeção internacional de craques daquele período, principalmente a de Zizinho. Ainda assim, a consolidação da imagem popular do Flamengo se deu justamente na fase em que o esporte deixava de ser entretenimento aristocrático para se tornar fenômeno de massa.
Dados atuais e o retrato social das torcidas
Se a discussão sobre fundação admite interpretações, os números contemporâneos ajudam a dimensionar o cenário atual. Pesquisa divulgada em agosto de 2025 pelo jornal O Globo apontou que o Flamengo possui a maior proporção de torcedores pretos entre os grandes clubes do país e 34% de sua torcida concentrada nas classes D e E. No recorte das classes A e B, Corinthians, São Paulo e Palmeiras apresentaram percentuais superiores ao rubro-negro.
Os dados não encerram o debate sobre identidade, mas tensionam a ideia de que apenas um clube representaria “o povo” enquanto outro seria expressão de populismo. A composição social das torcidas brasileiras é dinâmica e atravessada por fatores regionais, midiáticos e históricos.
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Estereótipos, preconceito e memória
A polêmica também trouxe à tona antigos estigmas. Ao longo do século XX, parte da elite tricolor cultivou a imagem do torcedor “fidalgo”, em contraste com a caricatura do rubro-negro como desdentado, favelado ou desordeiro.
Em 2017, uma charge produzida por grupo político ligado ao Fluminense reforçou essa divisão visual entre um lado embranquecido e elegante e outro associado a pobreza e marginalidade. O episódio gerou críticas e expôs como rivalidades esportivas podem reproduzir hierarquias sociais.
A própria figura de Cartola, fundador da Estação Primeira de Mangueira e torcedor do Fluminense, ilustra contradições. Reverenciado como símbolo cultural, o compositor enfrentou pobreza e esquecimento até ser redescoberto por Sérgio Porto nos anos 1950. A narrativa da “elite cultural”, como exaltou Pedro Bial, nem sempre correspondeu à proteção efetiva de seus ícones.
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Populismo ou força orgânica?
O termo populismo, no campo político, pressupõe liderança que mobiliza massas por meio de discurso direcionado. Aplicá-lo a um clube exige identificar agentes, estratégias e intenção deliberada. A expansão nacional do Flamengo ocorreu sobretudo pela combinação de rádio, conquistas esportivas e migração interna, não por uma diretriz institucional sistemática de conquista territorial.
Há, evidentemente, marketing e profissionalização nas últimas décadas. Mas a capilaridade rubro-negra no Norte e Nordeste, em comunidades indígenas e periferias urbanas, antecede campanhas estruturadas. Resulta de transmissão cultural entre gerações, influência midiática e identificação simbólica.
Ao reivindicar para o Corinthians uma origem popular incontestável e atribuir ao Flamengo um populismo calculado, Bial simplifica uma história mais complexa. O futebol brasileiro nasceu elitizado, foi apropriado pelas massas e, no caminho, tornou-se campo de disputa simbólica entre classes, cores e territórios.
O debate extrapola a preferência clubística. Ele toca na velha tensão brasileira entre quem se arroga o direito de definir o que é popular e quem vive essa condição no cotidiano. No fim, talvez a pergunta não seja qual clube nasceu do povo, mas qual foi abraçado por ele ao longo do tempo.
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