Ícone do site Ser Flamengo

Rafael Marques critica jornalismo esportivo refém do haterismo, da viralização e da confusão com influenciadores

Rafael Marques critica jornalismo esportivo refém do haterismo, da viralização e da confusão com influenciadores

Imagem: Reprodução / Terraflamistas Podcast

Rafael Marques participou do Terraflamistas Podcast, apresentado por Rodrigo Costa Cruz e Tulio Rodrigues, e colocou em debate um tema que incomoda porque atravessa a crise de credibilidade da imprensa esportiva: a dificuldade crescente do público em separar jornalismo, influência digital, torcida, entretenimento e busca por engajamento. Jornalista da ESPN, com 31 anos de trajetória no mercado, ele abriu a conversa sem hipocrisia, assumindo sua identidade de torcedor na pessoa física, mas fazendo uma distinção fundamental entre paixão privada e responsabilidade profissional. Ao dizer que, no CPF, torce para um rival do Flamengo, mas que, no CNPJ, o bom desempenho dos clubes do Rio melhora diretamente o seu trabalho, Marques tocou em um ponto que muitos comunicadores evitam por conveniência: ninguém deixa de ter clube, mas todo jornalista precisa saber onde termina a arquibancada e começa a profissão.


Ouça nossas análises e entrevistas sobre a eleição do Flamengo no seu agregador de podcast preferido: Spotify, Deezer, Amazon, iTunes, Youtube Music, Castbox e Anchor.


A fala é importante porque foge da encenação tradicional. Durante muito tempo, parte da imprensa tentou vender ao público uma neutralidade absoluta que nunca existiu. O jornalista esportivo acompanha futebol desde criança, cresceu em alguma família, frequentou estádio, vibrou com ídolos, sofreu derrotas e construiu memória afetiva. O problema não é ter clube. O problema é permitir que essa preferência contamine a apuração, distorça a análise, defina a pauta, pese a mão em alguns casos e alivie em outros. Rafael escolhe o caminho mais honesto: assume o torcedor, mas delimita o profissional. E essa fronteira, tão simples de explicar, parece cada vez mais difícil de preservar no ambiente atual.

O profissionalismo sem fantasia

Rafael Marques não tratou sua posição como pose. Ele explicou que trabalha há décadas com futebol, vive da cobertura esportiva, sustenta a família com essa atividade e não tem razão prática para torcer contra clubes que geram pauta, viagem, transmissão, programação e audiência. O argumento pode parecer frio para quem vê esporte apenas pelo coração, mas é justamente essa frieza que separa o jornalista do torcedor. Para ele, quanto mais forte estiver o futebol carioca, melhor será sua própria atividade profissional. E, nesse raciocínio, o Flamengo em alta não é ameaça ao jornalista vascaíno; é oportunidade de cobertura, produção e relevância.

Esse ponto deveria ser básico. Um repórter que cobre Flamengo, Vasco, Botafogo ou Fluminense não pode atuar como se o sucesso de um rival fosse derrota pessoal. Se o clube cresce, disputa Libertadores, movimenta mercado, gera interesse nacional e internacional, o trabalho jornalístico também se amplia. O profissional que não entende isso vira militante de bancada, personagem de rede social ou torcedor com crachá. E talvez esteja aí uma das maiores deformações do momento: muita gente percebeu que a hostilidade rende mais do que a análise, que a frase atravessada viraliza mais do que a informação bem construída, que a provocação tem mais alcance do que a apuração. A partir daí, o jornalismo deixa de organizar o debate e passa a disputar aplauso de bolha.

Jornalista, influenciador e o mesmo balaio

Quando provocado a falar sobre o nível do jornalismo esportivo, Rafael foi direto ao ponto: hoje todo mundo parece jornalista esportivo, e o torcedor tem dificuldade de distinguir os papéis. A observação é precisa. O ambiente digital abriu espaço para vozes novas, o que é positivo, mas também misturou formatos, responsabilidades e expectativas. Influenciador pode opinar, ex-jogador pode analisar, torcedor pode criar conteúdo, canal independente pode fazer cobertura e jornalista pode ocupar as redes. O problema nasce quando todas essas figuras passam a ser cobradas — ou absolvidas — pela mesma régua.

Marques não demoniza o influenciador. Ao contrário, reconhece que há espaço para todos, desde que exista conhecimento, discernimento comunicacional e compreensão mínima do que se está fazendo. A diferença apontada por ele está na formação. O jornalista passa por graduação, estuda teoria da comunicação, ética, hierarquização da informação, lead, expectativa de consumo e ferramentas de apuração. Isso não torna o diplomado automaticamente melhor, nem impede que alguém sem faculdade produza conteúdo de qualidade. Mas estabelece uma base de responsabilidade que não pode ser jogada fora em nome do algoritmo.

A crítica, portanto, não é corporativista. É uma defesa de método. O jornalismo tem defeitos, vícios, vaidades e muita gente ruim, como qualquer área. Mas quando abdica de seus fundamentos, perde a razão de existir. Se o profissional passa a agir como influencer, buscando corte, treta, engajamento e lacração, ele não moderniza a profissão. Ele apenas troca a apuração por performance. E o público, já cansado de tanta gritaria, passa a enxergar todos como parte do mesmo espetáculo.

TRANSMISSÃO AO VIVO COMPLETA:

O torcedor virou parte do produto

Outro ponto relevante da entrevista é a leitura sobre convergência midiática. Rafael lembra que o consumidor deixou de ser apenas receptor. O torcedor comenta, cobra, compartilha, enquadra, corta, viraliza, pressiona e ajuda a definir o tamanho de cada produção. A comunicação esportiva atual não pode ignorar o que o público quer ouvir, ler ou assistir. Esse caminho não tem volta, e fingir que a imprensa ainda fala de cima para baixo, sem reação imediata, é desconhecer o tempo presente.

Mas reconhecer o torcedor como parte ativa do ecossistema não significa obedecer cegamente ao humor da arquibancada digital. A função do jornalismo não é apenas entregar aquilo que dá clique. É também contrariar certezas, contextualizar fatos, separar rumor de informação, explicar processos, proteger a precisão e resistir ao desejo de transformar tudo em guerra de torcida. O público participa mais, e isso é bom. Só que o jornalista não pode usar essa participação como desculpa para abandonar sua própria função.

A tentação está justamente no retorno imediato. Um comentário equilibrado nem sempre explode. Uma acusação forte, uma ironia clubística ou uma frase calculada para irritar rivais costuma render mais. É aí que mora o perigo. O comunicador percebe o sabor da viralização e, aos poucos, passa a ajustar a própria produção para alimentar esse mecanismo. Primeiro, exagera no tom. Depois, escolhe o alvo pelo potencial de engajamento. Em seguida, transforma sua presença pública em personagem. Quando percebe, já não está informando, mas performando indignação.

O ódio como vício de redação

A parte mais forte da fala de Rafael Marques vem quando ele trata dos colegas que se renderam ao “haterismo” da rede social. Sem citar nomes, ele afirma que alguns jornalistas passaram a vestir a carapuça da treta, encontraram prazer em bater boca, sentiram o gosto do ódio, da interação, do engajamento e da viralização, e acabaram mentalmente transformados por essa dinâmica. A metáfora usada é dura: como alguém que não fumava, se aproxima do cigarro, experimenta e passa a defender o discurso de fumante.

A imagem funciona porque descreve bem o vício. O jornalista pode começar apenas reagindo à rede, depois passa a falar para ela, em seguida escreve pensando no corte e, por fim, já não sabe se sua opinião nasceu da convicção ou da expectativa de repercussão. A viralização vira bússola. O engajamento passa a ser justificativa. O ódio se transforma em combustível. E o que deveria ser análise se converte em peça para alimentar torcida.

Esse processo afeta especialmente debates envolvendo clubes de grande massa, como o Flamengo. O clube dá audiência, mobiliza reação, gera oposição instantânea e garante retorno para quem fala bem ou mal. Nesse ambiente, o risco é o jornalista escolher o enquadramento não pelo fato, mas pelo potencial de combustão. Se o Flamengo acerta, procura-se o porém. Se erra, amplia-se o escândalo. Se compra, é soberba. Se não compra, é crise. Se questiona regra, é arrogância. Se fica calado, é omissão. O problema não está na crítica ao clube, que deve existir sempre que necessária; está no vício de transformar qualquer pauta em palco para confirmar uma tese pronta.

LEIA MAIS:

CASO PREFIRA OUVIR:

O mau jornalismo não pode usar o influencer como álibi

Foi levanto, no episódio, uma questão relevante: muitos jornalistas tradicionais usam o influenciador como bengala para justificar o próprio mau jornalismo. A crítica é certeira. É confortável culpar a internet, os cortes, os canais independentes, os ex-jogadores, os torcedores e a audiência por todos os problemas da cobertura esportiva. Mas parte da imprensa convencional aderiu exatamente às práticas que diz condenar. Há jornalista com estrutura, redação, salário, emissora, nome consolidado e formação acadêmica produzindo conteúdo com a mesma lógica da provocação barata.

A diferença é que, quando o influenciador erra, a imprensa aponta o dedo. Quando o jornalista profissional escolhe o caminho do engajamento irresponsável, muitas vezes se protege atrás da marca que carrega, da história que acumulou ou da falsa ideia de que sua credencial transforma opinião rasa em análise qualificada. Rafael Marques desmonta essa defesa ao lembrar que o espaço comporta diferentes vozes, mas elas não devem se confundir. O influencer pode existir. O ex-atleta pode comentar. O torcedor pode produzir. O jornalista, no entanto, não pode abrir mão do que o diferencia.

O jornalismo esportivo brasileiro não está em crise porque há mais gente falando de futebol. Está em crise porque muita gente que deveria apurar prefere performar, muitos que deveriam explicar escolhem inflamar, e alguns que deveriam resistir ao barulho passaram a depender dele. A internet não destruiu o jornalismo; ela apenas revelou quem tinha método e quem vivia de autoridade herdada. O público, por sua vez, precisa aprender a cobrar melhor, consumir com mais critério e entender que nem toda opinião com microfone é informação, assim como nem todo conteúdo independente é irresponsável.

A participação de Rafael Marques no Terraflamistas Podcast vale justamente por recolocar a discussão no lugar correto. O debate não é entre jornalista e influenciador, televisão e YouTube, diploma e rede social, torcida e redação. A questão central é compromisso. Quem fala para muita gente precisa saber o peso daquilo que publica. Quem comenta futebol precisa diferenciar paixão de apuração. Quem vive da imprensa não pode se tornar refém do ódio que viraliza. O jornalismo esportivo ainda tem papel essencial no Brasil, mas só continuará relevante se lembrar que sua função não é ganhar briga de rede, agradar torcida ou produzir cortes inflamáveis. Sua obrigação é informar melhor do que o ruído.

Influenciadores de Santos e Palmeiras se calam diante do mau jornalismo de Lavieri e PVC

+ Siga o Ser Flamengo no Twitter, no Instagram e no Youtube.

Comentários
Sair da versão mobile