Resposta histórica? Vascaíno mente! A verdade sobre Vasco, Flamengo e racismo no futebol

Resposta histórica? Vascaíno mente! A verdade sobre Vasco, Flamengo e racismo no futebol
Imagem: Reprodução/Estúdios Vibe

O debate surgiu em um programa esportivo de formato já conhecido, daqueles em que um torcedor representa um clube cercado por adversários em maioria. O cenário, o tom e a proposta não são novidade. O que chamou atenção, desta vez, foi a acusação direta feita por um debatedor vascaíno: a de que o Flamengo seria, enquanto instituição, um clube racista. A afirmação foi lançada sem mediações, sem documentos apresentados e amparada em uma leitura distorcida de episódios ocorridos no futebol carioca nos anos 1920.


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O caso ganhou repercussão nas redes e escancarou um problema recorrente no debate esportivo brasileiro: o uso seletivo da história como arma retórica, ignorando contexto, fontes primárias e pesquisas acadêmicas consolidadas.

A acusação e o ponto de ruptura

A fala não se limitou a provocações típicas da rivalidade. O argumento central foi a ideia de que o Flamengo teria sido protagonista de uma suposta carta enviada à Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT), em 1923, exigindo a exclusão de atletas negros e operários do Vasco da Gama. Como contraponto, o debatedor exaltou a chamada “resposta histórica” vascaína, apresentada como um marco pioneiro do antirracismo no futebol brasileiro.

O problema começa justamente aí. Não existe registro histórico, documental ou acadêmico da tal carta do Flamengo. Nenhum arquivo público, livro especializado ou acervo jornalístico da época sustenta essa versão. A exigência de exclusão partiu da recém-criada Associação Metropolitana de Esportes Athleticos, a AMEA, formada coletivamente por clubes da elite carioca. Não foi uma ação individual de um clube específico.

O contexto real dos anos 1920

Para entender o episódio de 1923 e 1924, é preciso abandonar leituras simplificadas. O futebol daquele período era atravessado por três tensões simultâneas: racial, social e econômica. A discriminação contra atletas negros era prática corrente, assim como o preconceito contra trabalhadores assalariados e a resistência ferrenha ao profissionalismo.

Obras fundamentais como O Negro no Futebol Brasileiro, de Mário Filho, deixam isso claro. Fluminense, Flamengo, Botafogo, América e o próprio Vasco operavam dentro de uma lógica social elitista, reflexo direto da sociedade brasileira da Primeira República. Nenhum desses clubes, naquele momento, tinha um projeto institucional de combate ao racismo.

O Vasco, fundado como clube de remo em 1898, ingressou no futebol pela segunda divisão e construiu um time competitivo a partir da contratação de atletas vindos de fora, muitos deles negros e operários. Não por militância racial, mas por necessidade esportiva. Quando venceu o Campeonato Carioca de 1923, rompeu uma hierarquia esportiva estabelecida.

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A chamada “resposta histórica”

A famosa carta assinada pelo então presidente vascaíno, José Augusto Prestes, foi uma reação às exigências da AMEA para que o clube excluísse jogadores considerados “inadequados” aos padrões morais da época. O documento, frequentemente romantizado, não foi um manifesto antirracista. Foi um movimento de autopreservação esportiva e financeira.

Pesquisador ligado ao próprio Centro de Memória do Vasco da Gama reconhece isso. Em artigo publicado no Ludopédio, o historiador afirma que a resposta vascaína foi um ato isolado, sem desdobramentos estruturais. Não gerou mudanças institucionais, não inaugurou políticas inclusivas e tampouco alterou a prática discriminatória dos clubes cariocas nos anos seguintes.

O mito construído depois

A imagem do Vasco como pioneiro do antirracismo foi construída retrospectivamente, décadas depois, a partir de leituras anacrônicas e da repetição acrítica de narrativas convenientes. O próprio Vasco manteve, por muitos anos, restrições raciais em áreas sociais de São Januário, assim como Flamengo, Fluminense e Botafogo fizeram em suas sedes.

O caso de Moacyr Barbosa é emblemático. Goleiro negro, ídolo vascaíno e responsabilizado pela derrota do Brasil na final da Copa de 1950, Barbosa foi apagado por décadas da memória oficial do clube e do futebol brasileiro. O resgate de sua imagem só ocorreu muito tardiamente, já no século XXI. Se a luta antirracista tivesse sido estrutural desde os anos 1920, esse apagamento não teria sido possível.

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Instituições e tempo histórico

Apontar práticas racistas no passado não equivale a carimbar clubes como racistas no presente. As instituições esportivas brasileiras carregam contradições profundas porque foram moldadas em uma sociedade estruturalmente racista. Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo refletem essa história.

O erro está em usar o passado como instrumento de ataque moral contemporâneo, sem método, sem fontes e sem compromisso com a verdade histórica. Isso não combate o racismo. Apenas transforma uma pauta séria em munição de rivalidade.

Reconhecer avanços atuais, como campanhas institucionais, ações educativas e posicionamentos públicos, é compatível com uma leitura crítica do passado. O que não se sustenta é a tentativa de reescrever a história para vencer debate de torcida.

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