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Romário x Careca: por que a imprensa de São Paulo insiste em um debate encerrado desde 1994

Romário x Careca: por que a imprensa de São Paulo insiste em um debate encerrado desde 1994

A tentativa de reabrir, em pleno 2026, um debate que parecia encerrado desde a Copa do Mundo de 1994 diz mais sobre a imprensa esportiva brasileira do que sobre os jogadores envolvidos. No início de janeiro, declarações de jornalistas ligados ao eixo paulista reacenderam a velha comparação entre Romário e Careca, retomando uma disputa simbólica que atravessou os anos 80 e 90 e ajudou a moldar uma rivalidade artificial entre Rio e São Paulo dentro da própria seleção brasileira.


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O gatilho partiu de Guga Chacra, correspondente internacional da TV Globo, ao defender que Careca não estaria abaixo de Romário em relevância histórica. O argumento se apoiou em números de Copas do Mundo, participações interrompidas por lesões e episódios específicos, como o pênalti perdido por Zico em 1986 ou o erro de Roberto Baggio na final de 1994. A comparação, porém, rapidamente escorregou para um terreno conhecido: a relativização do protagonismo de Romário e a tentativa de explicar o sucesso da seleção de 1994 como fruto do acaso, e não da atuação decisiva de seu principal jogador.

Careca foi, sem discussão, um atacante de alto nível. Campeão brasileiro pelo Guarani em 1978, destaque do São Paulo em 1986 e peça importante no Napoli ao lado de Maradona, construiu uma carreira sólida e respeitável. O problema surge quando esses méritos são utilizados para reescrever a história da seleção brasileira, ignorando o contexto esportivo e os momentos de decisão. Romário não apenas participou da Copa de 1994: ele foi o eixo em torno do qual a seleção se reorganizou após a pior campanha de eliminatórias de sua história até então.

A linha do tempo ajuda a entender por que essa comparação soa deslocada. No final dos anos 80, o Brasil vivia um processo de transição após o fracasso de 1986. A Copa América de 1989, vencida com protagonismo de Romário e Bebeto, encerrou um jejum incômodo e devolveu algum prestígio ao time nacional. Ainda assim, o início das eliminatórias para o Mundial dos Estados Unidos foi caótico. A derrota para a Bolívia, em La Paz, expôs fragilidades técnicas e institucionais, enquanto escolhas insistentes mantinham Careca como referência ofensiva, mesmo sem rendimento consistente com a camisa amarela.

Em 1992, Romário entrou em rota de colisão com Carlos Alberto Parreira ao se recusar a aceitar a reserva para Careca. O desfecho foi seu afastamento da seleção, decisão que aprofundou a crise. Careca, pressionado e longe do auge, acabou abandonando o grupo no momento mais delicado, alegando problemas pessoais. O Brasil afundava nas eliminatórias, acumulava tropeços e corria risco real de ficar fora da Copa pela primeira vez.

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Foi nesse cenário que Romário voltou. O jogo contra o Uruguai, no Maracanã, tornou-se um divisor de águas. Dois gols, classificação assegurada e uma mensagem clara: quando a seleção precisou de alguém para decidir, ele apareceu. Não houve acaso, nem erro adversário que explique aquele resultado. Houve protagonismo, liderança e resposta em campo.

A Copa de 1994 consolidou essa diferença. Romário foi o centro técnico e emocional da equipe campeã do mundo, eleito melhor jogador do torneio e referência ofensiva em uma campanha marcada pelo pragmatismo. Careca, já fora do ciclo, assistiu à história ser escrita sem ele. Comparações feitas antes desse Mundial até encontram respaldo cronológico. Depois dele, insistir na equivalência exige ignorar fatos.

O debate recente ganhou contornos ainda mais claros com a intervenção de Bruno Maia, diretor da série documental sobre Romário, ao contextualizar como a mídia paulista, desde o final dos anos 80, alimentou a polarização entre jogadores para sustentar uma narrativa de “carioquização” da seleção. A crítica surgia sempre que o eixo de poder se deslocava, mas silenciava quando dirigentes, técnicos e fracassos vinham do próprio estado de São Paulo.

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Romário, ao contrário do que parte desse discurso tenta sugerir, não foi apenas um grande jogador. Tornou-se personagem central da cultura futebolística brasileira dos anos 90. Atuou em clubes rivais, brilhou na Europa, voltou ao país no auge e manteve protagonismo até o fim da carreira. Sua memória atravessa gerações, enquanto a de Careca permanece mais restrita a recortes específicos.

Reavivar essa discussão hoje não é exercício de análise histórica. É escolha editorial. E ela revela como certos setores ainda resistem a aceitar que, no futebol, grandeza se mede nos momentos decisivos. Quando o bicho pegou, Romário não fugiu. Decidiu. O resto é tentativa de recontar uma história que os números, os títulos e a memória coletiva já resolveram.

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