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Torcidas Organizadas – As duas faces da moeda

Mais, muito mais do que canções e escudo característicos. A torcida organizada, ao meu ver, é a garantia de inovação e fôlego nas arquibancadas. A certeza de ver os inúmeros efeitos que entorpecem os olhos com tamanha beleza, a certeza de sentir o arrepio com aquelas canções que te conectam inteiramente ao mundo flamenguista. E o que as T.O.s preparam beneficia a todos, afinal, a festa é para o Flamengo, e o Flamengo é de todos nós… (mesmo que, às vezes, não pareça). Tudo isso é encantador, mas infelizmente as T.O.s não se resumem apenas à organização da festa. Existe a política, a violência, a disputa pelo poder, pelo domínio. A busca pela demarcação de território. Coisas nem sempre fáceis de explicar, tampouco de entender. O fato é que todas essas “chagas” são inerentes à natureza humana, assim transmitidas para o mundo das torcidas. Um mundo que deveria ser à parte de tudo o que vivemos de odioso no cotidiano. Deveria.

Os problemas são oriundos de um grave erro: o mau uso do nome dos times para justificar atos torpes. Muito mais fácil exibir a face destrutiva com um pretexto. Bradar usando um escudo, dizendo-se defensor de uma ideologia que, na verdade, desrespeita. Isso é lamentável. Acaso alguém merece ser agredido porque usa cores diferentes das minhas? E digo mais: alguém que confunde estádio e arredores com campo de batalha pode ser chamado de torcedor? Amigo, me desculpe, mas não pode. Eu, com toda a minha paixão, não enxergo um tricolor ou alvinegro como inimigo. Dentro de campo, somos adversários. Fora, vejo apenas pessoas que torcem por outros times. Pessoas de péssimo gosto, é verdade. Mas são pessoas!

Primeiro, temos de refletir sobre as úlceras da moral humana. Úlceras que, por vezes, não nos permitem fazer jus à tão famosa racionalidade. Há quem ria de um cachorro que urina para marcar território. Antes urina que facas, pistolas e afins.

Dentro da Nação, temos um exemplo desgostoso de outro grave erro das T.O.s, que é o de, muitas vezes, colocar o nome do time abaixo do nome da torcida. O exemplo é a infindável disputa entre Jovem Fla e Raça Rubro-Negra. Por vezes, protagonizam confrontos terríveis. O mais ridículo é que são organizadas do mesmo clube! Onde está o respeito ao nome do Mengão nessa hora? Não está em lugar algum. Isso, meus caros, é a prova de que muitos ali se uniformizam, mas não têm como prioridade real o Flamengo. A coisa já esteve tão grave que ouvi um integrante de uma delas dizer: “Meu inimigo veste vermelho e preto”. Pensei comigo: “Chega de ser humano por hoje. Partiu selva.” Eu fecho com o certo. Sou ciente de que algo que surgiu em nome do Mengão não pode se pôr antes dele. E nem usar o seu nome para causas esdrúxulas e infundadas. Mas, claro, a origem dos confrontos das duas maiores organizadas do Fla é algo que não vale a pena falar sem maiores esclarecimentos, provas, fundamentos. Ao contrário do que muitos fazem, não vou usar minha liberdade de expressão para falar coisas que, neste momento, não posso provar.

Apesar de tudo isso, discordo da extinção das torcidas uniformizadas. Para mim, é desfazer da ideologia de suas criações e ignorar aqueles que trabalharam e trabalham com esmero e muita paixão para o deslumbre da torcida do time que torcem. E mais: aceitar de bom grado a parte modorrenta da tão (mal) falada elitização, que é (além de afastar o povo) esfriar a atmosfera dos estádios. Sim, porque, boas ou más, elas geralmente empurram o resto da torcida, ditam o ritmo, puxam as letras. Posto isso, sem elas, teremos alguns milhares sentados, batendo palmas como lords. Um deboche à magia das arquibancadas.

Não acredito que possa propor com eficiência um projeto ideal para acabar com a violência nos entornos dos estádios entre as uniformizadas. Mas, se o governo sabe cobrar impostos e exigir o voto, que saiba também cuidar da segurança. E preparar mais e melhor quem cuide dela diretamente: os fardados. Mas, sim, isso é meramente paliativo. O primeiro passo teria de ser uma conscientização em massa, algo extremamente difícil. Neste ponto, talvez os próprios clubes pudessem ajudar, com um pouco mais de presença, quem sabe?

A verdade é que as organizadas têm um papel lindo. Muita injustiça fechar os olhos para isso, ainda que diante dos atos lamentáveis das mesmas. O imprescindível é realmente não generalizar, pois maus elementos existem nas arquibancadas, como existem nas igrejas, nas escolas e, principalmente, na política. Se clubes, diretorias de uniformizadas e o governo trabalharem em conjunto, acredito muito que maus elementos não constituirão mais um motivo para afastar famílias dos estádios.

Um dia, vou levar meu filho (ainda não nascido) ao Maracanã. Ele vai ver bandeirões tremulando, papel picado, mosaicos. Quem sabe ele mesmo não ajudará, com as próprias mãos, a produzir aquele espetáculo em negro e encarnado. E, saindo do Maracanã, vamos correr como loucos. Mas não fugindo de balas ou feias pancadarias — e sim exteriorizando nossa louca alegria por sermos rubro-negros. É isso que almejo.

Bruna Uchoa
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