A CBF decidiu assumir um papel que, historicamente, não lhe pertence: liderar o processo de criação de uma liga única no país. Em reunião realizada no dia 6, na sede da entidade, dirigentes de diversos clubes foram apresentados a um plano estruturado que busca unificar o futebol nacional sob um novo modelo organizacional. A proposta, no entanto, nasce cercada de contradições, disputas políticas e uma inversão de lógica em relação ao que deu certo nas principais ligas do mundo.
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O encontro, que reuniu 38 clubes, foi conduzido sob a promessa de reorganizar o futebol brasileiro e aproximá-lo dos padrões de ligas como a inglesa, a espanhola e a alemã. A diferença central está na origem do movimento. Enquanto nesses países a transformação partiu dos clubes, no Brasil o protagonismo está sendo exercido pela própria CBF.
Essa mudança de eixo não é apenas simbólica. Ela altera a natureza do projeto.
O conceito central: crescer antes de dividir
A espinha dorsal da proposta apresentada pela CBF se baseia em um princípio que, à primeira vista, parece lógico: aumentar o valor do produto antes de discutir sua divisão. Na prática, isso significa adiar o debate mais sensível de todos, justamente aquele que historicamente separa os clubes em blocos distintos.
A ideia é clara. Primeiro, melhorar o campeonato. Depois, negociar melhor. Só então dividir.
O problema não está no conceito, mas no momento escolhido para aplicá-lo. Ao empurrar a discussão financeira para o fim do processo, a CBF tenta evitar o conflito inicial. No entanto, ignora o fato de que esse conflito é, justamente, o ponto central da criação de qualquer liga.
Na Premier League, por exemplo, a discussão sobre divisão de receitas caminhou em paralelo às questões estruturais. Aqui, ela foi retirada da mesa.
E isso, por si só, já é um sinal de alerta.
Os diagnósticos: problemas conhecidos, soluções prometidas
Durante a reunião, a entidade apresentou um estudo com uma série de pontos que, segundo sua avaliação, explicam a subvalorização do Campeonato Brasileiro. Entre eles, estão questões como horários das partidas, tempo de bola rolando, qualidade dos gramados e segurança nos estádios.
Os números ajudam a contextualizar. Cerca de 80% dos jogos acontecem à noite, muitas vezes para atender às emissoras. O tempo médio de bola em jogo gira em torno de 51 minutos, abaixo do padrão desejado pela FIFA. A média de público, próxima de 26 mil torcedores, também fica distante das grandes ligas europeias.
As propostas seguem uma linha de padronização e controle. Mais jogos diurnos, aumento do tempo de bola rolando, fiscalização mais rígida de infraestrutura e criação de mecanismos de segurança.
Nada disso é novo. São problemas conhecidos, debatidos há anos, agora reorganizados dentro de um plano mais amplo.
O ponto mais sensível: discurso e punição
Entre todas as propostas, uma chama atenção pelo impacto direto no ambiente do futebol: a tentativa de alterar o discurso sobre arbitragem. A CBF identificou que acusações constantes de “roubo” prejudicam a credibilidade do campeonato e, consequentemente, seu valor comercial.
A solução apresentada envolve a criação de um tribunal administrativo com poder para punir dirigentes e jogadores que extrapolem nas críticas.
A intenção é clara: mudar a narrativa.
Mas o caminho escolhido levanta questionamentos. Até que ponto é possível regular o discurso sem afetar o direito à crítica? E, mais importante, quem define o limite entre análise legítima e excesso?
A medida, embora alinhada com o objetivo de proteger o produto, entra em um território delicado.
Bastidores que contradizem o discurso de união
Se o discurso oficial era de construção coletiva, o ambiente político mostrou outra realidade. Logo após a reunião, declarações públicas evidenciaram a permanência de conflitos históricos.
Dirigentes de clubes importantes protagonizaram trocas indiretas de críticas, com ataques institucionais que pouco dialogam com a ideia de unificação. A presença lado a lado de representantes que, dias depois, estariam em lados opostos do debate reforça a percepção de que a união ainda está longe de ser realidade.
Mais do que divergência, há estratégia.
A aproximação entre determinados clubes, em contraposição a outros, indica a formação de blocos que vão disputar poder dentro desse novo modelo. O caso envolvendo Palmeiras e Vasco, em oposição à postura do Flamengo, ilustra esse movimento.
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Um cenário já fragmentado
A situação se torna ainda mais complexa quando se observa o contexto atual. O bloco Futebol Forte União enfrenta instabilidade interna, com clubes da Série B demonstrando insatisfação com resultados financeiros e gestão de direitos.
Esse enfraquecimento ocorre justamente no momento em que se discute a criação de uma estrutura unificada. Ou seja, a base que deveria sustentar o projeto já apresenta fissuras.
Além disso, a ausência de alguns dirigentes na reunião, como o presidente do Corinthians, reforça a ideia de que nem todos os atores estão igualmente engajados no processo.
O cronograma e suas incertezas
A CBF apresentou um plano dividido em etapas. A primeira, ainda em 2026, foca na coleta de sugestões e na definição de melhorias estruturais. A segunda, entre outubro e dezembro, inicia discussões comerciais. A terceira, a partir de 2027, prevê a criação da governança da liga e, finalmente, o debate sobre divisão de receitas.
O cronograma é ambicioso. Mas sua execução depende de um fator que ainda não está garantido: consenso.
Sem alinhamento entre os clubes, qualquer avanço estrutural corre o risco de se tornar apenas formal.
| Ponto de Atenção | Diagnóstico Atual | Proposta da CBF |
|---|---|---|
| Horários dos Jogos | Cerca de 80% das partidas da Série A ocorrem no período noturno, muitas vezes para atender demandas de TV. | Padronizar horários e aumentar a proporção de jogos diurnos, espelhando-se na Premier League (75%) e Bundesliga (70%). |
| Tempo de Bola Rolando | Média de 51 minutos por jogo nas edições de 2025 e 2026, com excesso de faltas, cartões e intervenções longas do VAR. | Aumentar o tempo de bola em jogo para se aproximar da meta de 60 minutos estabelecida pela FIFA, combatendo o antijogo. |
| Infraestrutura e Gramados | O Brasileirão atinge apenas 10 de 27 métricas de qualidade de infraestrutura. Não há fiscalização rigorosa sobre os gramados. | Implementar sistema de licenciamento rigoroso para clubes, com padronização de corte e irrigação. Campos sintéticos serão debatidos posteriormente. |
| Público e Segurança | Média de público de 26.500 pessoas em 2025, abaixo das principais ligas europeias (~40 mil). Violência é apontada como principal fator de afastamento. | A liga deverá assumir responsabilidade por medidas que aumentem a segurança e a atratividade dos estádios para os torcedores. |
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O papel da CBF: solução ou problema?
A grande questão que permanece é o papel da própria CBF nesse processo. Ao assumir a liderança, a entidade tenta se posicionar como mediadora de conflitos históricos.
Mas há um paradoxo evidente. A mesma instituição que durante anos foi alvo de críticas por centralização agora se coloca como responsável por descentralizar.
A legitimidade desse movimento dependerá de como ele será conduzido. Se a CBF atuar como facilitadora, pode ajudar a destravar o processo. Se buscar controle, pode comprometer a própria essência da liga.
| Fase | Período | Principais Ações |
|---|---|---|
| Fase 1 | Maio a Setembro de 2026 | Coleta de sugestões dos clubes (até julho) e apresentação/aprovação de propostas para melhoria do produto do Campeonato Brasileiro (agosto e setembro). |
| Fase 2 | Outubro a Dezembro de 2026 | Início das discussões comerciais, definição de propriedades da liga e modelos de comercialização. |
| Fase 3 | A partir de 2027 | Estruturação da governança, elaboração do estatuto jurídico da liga e início do debate sobre a divisão de receitas entre os clubes. |
Entre intenção e realidade
A proposta apresentada tem méritos. Identifica problemas reais, propõe soluções estruturais e estabelece um caminho possível.
Mas também carrega riscos.
Ignorar o debate financeiro no início, subestimar conflitos políticos e concentrar protagonismo em uma entidade que deveria apenas chancelar o processo são escolhas que podem custar caro.
A criação de uma liga única no Brasil não depende apenas de boas ideias.
Depende de confiança.
E, hoje, esse é o ativo mais escasso no futebol brasileiro.
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