Vergonha! CBF não divulga áudio do VAR; Palmeiras usa nota para defender erro de arbitragem porca

A atuação da arbitragem em Vitória x Palmeiras, disputado na noite de quarta-feira (29), no Barradão, ultrapassou os limites do campo e desencadeou uma disputa pública entre clubes, dirigentes e torcedores. A CBF divulgou as comunicações do VAR referentes às expulsões de Cacá e Luan Cândido, ambos da equipe baiana, mas deixou de publicar o diálogo sobre o lance em que Maurício atingiu o rosto do zagueiro rubro-negro. Na sequência, o Palmeiras divulgou uma nota para defender a decisão da equipe de arbitragem, enquanto o Vitória respondeu às declarações de Abel Ferreira e cobrou respeito ao defensor expulso. A partida foi válida pela 21ª rodada do Campeonato Brasileiro e teve Alex Gomes Stefano como árbitro e Marco Aurélio Augusto Fazekas Ferreira no comando do vídeo.
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O episódio colocou em discussão três questões que se misturam no futebol brasileiro: a falta de clareza nos critérios adotados pela CBF, o uso de comunicados oficiais como instrumentos de pressão e a facilidade com que a avaliação de uma jogada muda conforme a camisa envolvida. A ausência do áudio mais questionado abriu espaço para versões concorrentes e impediu que o público entendesse como os árbitros chegaram ao cartão amarelo aplicado ao meio-campista palmeirense.
A promessa de transparência que ficou pelo caminho
Maurício atingiu Cacá no rosto antes da sequência que terminou com as duas expulsões do Vitória. As imagens mostram o jogador do Palmeiras observando a posição do adversário e deixando o braço durante a disputa. O zagueiro precisou de atendimento, sofreu um corte e levou pontos na região atingida. Ainda assim, a jogada foi punida apenas com cartão amarelo.
O procedimento adotado no campo também provocou dúvidas. Alex Gomes Stefano aparentemente não marcou a infração de imediato, mas se aproximou de Maurício alguns instantes depois e aplicou a advertência. Sem a divulgação da comunicação entre os integrantes da equipe, não é possível saber se o árbitro reviu sua percepção ao observar Cacá machucado, recebeu alguma informação de um assistente ou conversou com o VAR sobre a possibilidade de expulsão.
A arbitragem de vídeo não pode recomendar uma revisão de campo apenas para a aplicação de um cartão amarelo. Sua intervenção está limitada a situações como gol, pênalti, erro de identificação e possível vermelho direto, sempre diante de um erro claro e manifesto ou de um incidente grave não percebido pelos profissionais no gramado.
A justificativa de que o áudio não seria publicado porque não houve revisão no monitor entra em choque com a política anunciada pela própria CBF. Em outubro de 2025, a entidade informou ter recebido autorização da Fifa para divulgar decisões tomadas pelo VAR mesmo quando o árbitro não fosse chamado à cabine. Na ocasião, prometeu tornar públicos, em até 24 horas, os registros de lances relevantes sem revisão protocolar, apresentando a medida como um avanço de transparência.
A CBF não precisa publicar todas as conversas de uma partida, mas deve explicar por que um episódio com repercussão nacional deixou de ser incluído justamente depois de a confederação assumir publicamente o compromisso de ampliar o acesso a esse tipo de conteúdo. Ao mostrar apenas os áudios que confirmam as expulsões do Vitória e omitir a comunicação sobre o jogador do Palmeiras, a entidade transmite uma mensagem seletiva, mesmo que essa não tenha sido sua intenção.
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Palmeiras transforma a análise em defesa institucional
O Palmeiras reagiu às críticas por meio de uma nota na qual acusou adversários de criarem “falsas narrativas” para pressionar a arbitragem e colocar em dúvida uma vitória considerada legítima pelo clube. Sobre Maurício, a instituição reconheceu o contato do braço no rosto de Cacá, mas sustentou que não houve força ou movimento adicional suficiente para justificar uma recomendação de expulsão.
O comunicado também defendeu os cartões vermelhos mostrados aos jogadores do Vitória. Cacá foi expulso após uma entrada em Jhon Arias, enquanto Luan Cândido recebeu o vermelho por realizar gesto de roubo. A nota ainda rejeitou a reclamação baiana por um possível pênalti no segundo tempo e terminou destacando a campanha palmeirense, os gols marcados e o desempenho defensivo no Campeonato Brasileiro.
A tentativa de proteger a legitimidade do resultado deslocou a discussão. Reconhecer um possível erro não significa afirmar que o Palmeiras venceu apenas por causa da arbitragem, assim como questionar a não expulsão de Maurício não apaga a superioridade apresentada pela equipe durante o restante do confronto. Uma vitória pode ser merecida e, ao mesmo tempo, conter uma decisão equivocada capaz de alterar a dinâmica da partida.
Quando o clube reúne todos os questionamentos sob o rótulo de narrativa adversária, evita enfrentar o ponto mais sensível: o jogo ainda estava empatado e com onze atletas de cada lado no momento em que o meio-campista atingiu Cacá. Não existe certeza sobre o que aconteceria caso o vermelho fosse aplicado, mas é inegável que a expulsão produziria um cenário completamente diferente.
Vitória responde a Abel Ferreira
A manifestação do Vitória foi direcionada principalmente a Abel Ferreira. Depois da partida, o treinador do Palmeiras questionou o histórico de Luan Cândido ao comentar o gesto que provocou sua expulsão. O clube baiano considerou a declaração uma tentativa de atingir o caráter do atleta e apresentou números para rebater o técnico português.
Segundo o comunicado, Luan Cândido acumulou seis expulsões desde sua estreia profissional, em 2020, sendo quatro cartões vermelhos diretos e dois recebidos após uma segunda advertência. O Vitória classificou a média de uma expulsão por temporada como baixa para um defensor e afirmou que Abel havia sido retirado de três partidas oficiais no mesmo período. Os dados foram usados pelo clube para questionar a autoridade do treinador ao transformar o histórico disciplinar do jogador em argumento público.
A nota também defendeu o aprimoramento e a profissionalização da arbitragem brasileira, afirmando que decisões equivocadas podem comprometer projetos esportivos inteiros. O Vitória demonstrou estranheza pelo fato de Abel tratar o lance de Maurício como uma jogada no limite, especialmente porque o português costuma reclamar com frequência do nível dos árbitros nacionais.
A resposta baiana foi dura, mas permaneceu dentro de uma disputa institucional. O clube tinha o direito de proteger seu jogador de uma acusação que extrapolava a análise do gesto cometido no Barradão. Luan Cândido deveria ser julgado pela infração daquela noite, prevista na regra e corretamente punida, não por uma tentativa de construção pública sobre sua personalidade.
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O vazio deixado pela CBF
A troca de notas mostra como a falta de transparência alimenta conflitos. Sem o áudio do lance de Maurício, o Palmeiras oferece sua interpretação, o Vitória apresenta outra e cada grupo de torcedores escolhe a versão mais conveniente. O debate deixa de ser técnico e passa a funcionar como uma extensão da rivalidade.
A divulgação da conversa não eliminaria as divergências sobre a intensidade do contato, mas permitiria compreender o processo. Seria possível saber o que o árbitro viu, por que demorou a aplicar o amarelo, quais imagens foram analisadas e como o VAR concluiu que não existia um erro claro e manifesto. A transparência não obriga o público a concordar com a decisão, porém oferece elementos para que a contestação seja feita com base em fatos.
O problema se torna maior porque a CBF havia anunciado uma mudança justamente para evitar esse tipo de desconfiança. Ao publicar apenas parte das comunicações de uma partida marcada por três episódios disciplinares, a entidade devolveu ao futebol brasileiro a velha sensação de que as explicações dependem da conveniência do momento.
Palmeiras e Vitória usaram seus canais para defender interesses legítimos, embora os comunicados também tenham ampliado uma batalha de versões. A responsabilidade principal, entretanto, permanece com quem organiza a competição e controla as informações. Enquanto a CBF não estabelecer um padrão objetivo para divulgar os áudios do VAR, clubes e torcedores continuarão preenchendo o silêncio com suspeitas, acusações e narrativas que poderiam ser enfrentadas com algo muito mais simples: a publicação integral do procedimento adotado pela arbitragem.
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