A beatificação de Gerson: imprensa esquece que Marcão forçou saída do Flamengo e negociou multa

A beatificação de Gerson: imprensa esquece que Marcão forçou saída do Flamengo e negociou multa

A saída de Gerson do Flamengo, consumada após meses de tensão pública e bastidores ruidosos, passou a ser recontada nos últimos dias como se fosse um processo de absolvição coletiva. O jogador, que deixou o clube rumo ao Zenit, da Rússia, no auge de sua importância técnica e simbólica, passou a ser tratado como vítima exclusiva de uma diretoria desorganizada, enquanto decisões pessoais e estratégicas foram empurradas para fora do debate. O movimento é recente, ganhou força em programas de TV e redes sociais, e tenta simplificar uma história que nunca foi simples.


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O que está em disputa não é a legitimidade de Gerson escolher outro caminho, nem o direito de buscar melhores condições financeiras. A questão é a tentativa de retirar do jogador qualquer grau de responsabilidade pelas escolhas que ele mesmo tomou, como se fosse um personagem tutelado, incapaz de decidir sobre a própria carreira. No futebol profissional, isso não existe. Empresários influenciam, familiares opinam, clubes negociam, mas a assinatura final sempre pertence ao atleta.

Gerson voltou ao Flamengo em 2023 em uma operação considerada pesada para os padrões do clube. O investimento foi alto, o salário o colocou imediatamente entre os maiores do elenco e o contrato o recolocou em posição de protagonismo esportivo. Não se tratava de uma aposta, mas de uma peça central. A partir dali, criou-se uma hierarquia clara: Arrascaeta no topo, Bruno Henrique como referência, e Gerson ocupando um degrau logo abaixo, algo absolutamente normal em qualquer estrutura profissional.

A narrativa de desvalorização começa a ruir quando se observa a linha do tempo. Dois anos após o retorno, depois do processo eleitoral do Flamengo, o pai do jogador, Marcão, passou a pressionar publicamente o clube por uma renovação antecipada. Não foi uma conversa reservada, nem uma negociação silenciosa. Houve entrevistas, participações em podcasts e declarações explícitas sobre promessas feitas por uma diretoria que já não estava mais no poder. No futebol, promessa que não está no papel não tem validade jurídica nem institucional.

Essa pressão externa criou um ambiente interno difícil de sustentar. O Flamengo, que não pretendia vender Gerson, se viu diante de um impasse clássico: manter um jogador insatisfeito, com ruído constante, ou tentar reorganizar o vínculo contratual. Optou pela segunda alternativa. Houve renovação, aumento salarial e, dentro desse pacote, a redefinição da multa rescisória. Esse ponto é central e costuma ser omitido nos discursos mais recentes.

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Multa não é imposição unilateral. Ela é negociada. Sempre. O valor de 25 milhões de euros não surgiu por acaso. Ele dialogava diretamente com o interesse do Zenit, que já havia sinalizado a capacidade de pagar esse montante. O Flamengo poderia ter mantido uma cláusula astronômica e bancado o desgaste interno, mas escolheu reduzir o risco de uma novela infinita. A decisão foi compartilhada. Não há como sustentar que o clube acordou um dia e resolveu “facilitar” a saída de um dos seus pilares sem a anuência do jogador e de seu estafe.

Quando a transferência se concretizou, o discurso mudou. Parte da imprensa passou a tratar Gerson como alguém empurrado para fora, ignorando que a pressão inicial partiu de dentro de sua própria estrutura familiar. Marcão não apenas participou do processo, como foi agente ativo, vocal e público. Isso não transforma o pai em vilão, mas também não permite apagá-lo da história. Muito menos transformar o filho em figura passiva.

A escolha esportiva também precisa ser analisada sem romantismo. Gerson saiu do Flamengo como titular absoluto, capitão e na seleção brasileira. Optou por um mercado isolado, sem competições continentais, em um contexto geopolítico delicado. Financeiramente, o movimento faz sentido. Esportivamente, sempre foi questionável. O próprio retorno rápido ao Brasil reforça essa leitura.

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O Flamengo comunicou mal, reagiu tarde e permitiu que a narrativa fosse construída fora do clube. Também perdeu poder de barganha ao aceitar uma multa compatível com o mercado europeu médio. Mas atribuir toda a responsabilidade à gestão e tratar o jogador como um santo injustiçado é tão raso quanto chamá-lo de mercenário.

Não houve vilões absolutos nem inocentes puros. Houve decisões empresariais, interesses cruzados, escolhas pessoais e uma condução que poderia ter sido mais transparente. O problema começa quando o debate público abandona os fatos para abraçar versões convenientes. No futebol, como na vida, responsabilidade não se transfere. Se divide.

MARCÃO, PAI DE GERSON, SOLTA O VERBO POR AUMENTO DE SALÁRIO, DIRETORIA PRIORIZA PULGAR

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