A GUERRA DAS CREDENCIAIS: Os ataques de Júlio Gomes às mídias independentes no futebol
A declaração de Júlio Gomes, feita nas redes sociais nos últimos dias, reacendeu um debate antigo no futebol brasileiro: quem pode perguntar, quem pode criticar e quem decide o que é jornalismo legítimo. O comentário surgiu após uma fala de Renato Gaúcho sobre coletivas de imprensa e a presença de profissionais que, segundo ele, estariam mais interessados em engajamento do que em informação. O pano de fundo é maior do que uma discordância pontual. Envolve credenciamento, diploma, associações de classe, clubes e, sobretudo, poder.
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Renato afirmou que a rotina das entrevistas mudou. Segundo ele, há perguntas feitas para “tirar do sério” e gerar seguidores. A crítica veio acompanhada da menção à “carteira de jornalista”, expressão que abriu margem para interpretações sobre diploma, registro profissional e legitimidade. O treinador citou, inclusive, o desgaste vivido em passagens anteriores como treinador, apontando o ambiente das coletivas como fator de tensão.
A reação de Júlio Gomes foi direta: para ele, a responsabilidade é dos clubes, que teriam permitido a entrada de influenciadores e torcedores em espaços destinados à “mídia profissional”. A frase não ficou isolada. Ela ecoa uma divisão que vem se aprofundando desde que canais independentes passaram a disputar audiência com grandes veículos.
Credenciamento não é improviso
Há um ponto objetivo nessa discussão. Para estar numa coletiva oficial, o profissional precisa ser credenciado. No Rio de Janeiro, por exemplo, isso passa por associações como a ACERJ. O acesso não é concedido de maneira informal. Se alguém ocupa uma cadeira na sala de imprensa, é porque cumpriu os requisitos exigidos pela entidade responsável.
A divergência, portanto, não é apenas técnica. É simbólica. Quando se afirma que determinado perfil “não deveria estar ali”, questiona-se o próprio critério das instituições que concedem a credencial. Ou se aceita o sistema de validação existente, ou se propõe outro modelo. O que não parece coerente é deslegitimar o profissional já autorizado a exercer a função.
O episódio de 2022 e a memória seletiva
O debate não é novo. Em 2022, após um Flamengo x Athletico-PR pela Copa do Brasil, o influenciador e jornalista Guilherme Pinheiro, conhecido como Flazoeiro, foi ameaçado por jornalistas locais durante uma transmissão pós-jogo. Na ocasião, o foco de parte da imprensa não foi a intimidação, mas a presença dele na cobertura.
Júlio Gomes publicou coluna defendendo a retirada de credenciamento de influenciadores. O texto criticava o formato, mas não trouxe condenação contundente às ameaças sofridas. Para muitos, ali ficou evidente uma hierarquia implícita: o problema seria quem ocupa o espaço, não o comportamento agressivo de colegas de profissão.
Esse histórico explica por que a nova manifestação foi recebida como repetição de postura.
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Ética, coerência e pesos diferentes
A discussão ganhou novos contornos quando outros episódios foram lembrados nas redes. Questionamentos sobre apurações incompletas, críticas feitas sem ouvir todos os lados, comentários considerados preconceituosos em programas de televisão. Nomes como Paulo Vinícius Coelhom o PVC, e Danilo Lavieri passaram a ser citados como exemplos de condutas que raramente recebem reprimenda pública dos pares.
O ponto central não é comparar erros, mas medir a régua. Se a defesa da ética é inegociável, ela precisa valer para todos. A crítica ao “mau jornalismo” não pode ser seletiva. Caso contrário, transforma-se em instrumento de disputa por território.
A fala de Isabelle Costa, hoje no Canal GOAT, sintetizou essa percepção ao apontar que profissionais tradicionais também cometem excessos em rede nacional. A diferença é que esses deslizes costumam ser tratados como opinião forte, enquanto a produção independente recebe o rótulo de amadorismo.
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O que realmente está em jogo
A tensão revela algo maior do que a presença de youtubers em coletivas. Trata-se de mercado. Audiência fragmentada, queda de receita nos veículos tradicionais, ascensão de canais próprios e monetização direta com o público. O monopólio da narrativa acabou.
O futebol brasileiro vive processo semelhante dentro de campo, com debates sobre liga, organização e profissionalização. Fora dele, a imprensa atravessa transformação parecida. Resistências surgem quando o modelo antigo perde centralidade.
Defender critérios é legítimo. Exigir qualidade, também. O que soa contraditório é reivindicar exclusividade moral enquanto se ignora falhas internas. O jornalismo esportivo não será fortalecido pela exclusão de novos atores, mas pela elevação do padrão coletivo.
No fim das contas, a pergunta não é quem pode fazer a pergunta na coletiva. A pergunta é quem aceita ser questionado.
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