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A militância seletiva de Milly Lacombe contra o Flamengo

A militância seletiva de Milly Lacombe contra o Flamengo

Quem acompanha o debate esportivo no Brasil já percebeu que determinadas vozes ganharam centralidade não apenas pelo que dizem, mas pelo modo como escolhem dizer. O caso de Milly Lacombe, Danilo Lavieri e a recente discussão envolvendo a saída de Gerson do Flamengo escancara um problema antigo, mas cada vez mais visível: a seletividade no jornalismo esportivo, tanto na indignação quanto na crítica.


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Na semana em que Gerson foi apresentado pelo Cruzeiro, o tema voltou ao centro do noticiário não exatamente pelo desempenho esportivo, mas pela recepção organizada que o jogador teve ao chegar ao novo clube. O episódio gerou colunas, debates em programas e reflexões sobre o papel das torcidas organizadas, os limites do “enquadro” e a relação entre atletas e arquibancada. Milly Lacombe escreveu sobre isso, como já havia feito em situações semelhantes, inclusive quando Gabriel Barbosa retornou ao Santos e passou por um contato direto com membros de organizada.

O texto da colunista, em vários pontos, traz reflexões pertinentes. Ao lembrar que jogadores são trabalhadores, ainda que milionários, e que ambientes de pressão não favorecem o rendimento esportivo, Milly toca em uma ferida real do futebol brasileiro. Também acerta ao discutir como o esporte se tornou um espaço de projeção de frustrações sociais, num cenário em que vencer parece ser a única métrica aceitável. O problema não está no que foi dito, mas no que ficou de fora.

Em nenhum momento há uma crítica direta às diretorias que autorizam, permitem ou normalizam esse tipo de aproximação entre organizadas e atletas recém-contratados. Nem Santos nem Cruzeiro aparecem como agentes responsáveis por criar as condições para esses encontros. A narrativa se concentra na torcida, no jogador e na estrutura simbólica do futebol, mas poupa quem, institucionalmente, detém o poder de decisão. Esse silêncio não é casual. Ele se repete.

Quando o assunto envolve o Flamengo, sobretudo figuras específicas da diretoria, a abordagem muda de tom, de intensidade e de frequência. Nomes são citados, imagens são expostas, responsabilidades são individualizadas. No blog, nas colunas e nas participações em vídeo, há um esforço constante em personalizar a crítica. Já em crises profundas de outros clubes, como o São Paulo, com denúncias graves envolvendo sua gestão, a abordagem se dilui, aparece de forma episódica e quase sempre sem a mesma contundência visual ou narrativa. Não há rosto, não há alvo claro.

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Essa lógica também se estende a outros debates. No programa em que Milly se emociona ao comentar a entrevista de Gabriel Paulista, o discurso sobre vínculo, pertencimento e humanidade no futebol é forte, sensível e bem construído. O que chama atenção é a ausência completa de contextualização sobre o histórico recente do próprio jogador. Gabriel Paulista foi o mesmo atleta que, em 2023, relativizou um episódio de racismo sofrido por Vinícius Júnior no Mestalla, na Espanha, chegando a defender a torcida do Valencia nas redes sociais. O caso terminou com condenações judiciais de torcedores espanhóis, meses depois, após denúncia e mobilização lideradas por Vini.

Esse recorte não é irrelevante. Vinícius Júnior chegou a chorar em coletiva ao falar do impacto emocional da sequência de ataques racistas. Ignorar esse contexto ao exaltar o discurso sensível de Gabriel Paulista não é apenas uma escolha editorial neutra. É, novamente, um gesto seletivo. A empatia aparece para alguns personagens, enquanto outros episódios, incômodos ou contraditórios, são varridos para debaixo do tapete.

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No caso de Gerson, o debate também sofre distorção. A saída do volante do Flamengo envolve fatores esportivos, financeiros e pessoais, como qualquer transferência relevante. Transformá-lo em personagem beatificado ou vilanizado, dependendo da conveniência narrativa, empobrece a discussão. Gerson não saiu às escondidas, não rompeu contratos de forma irregular e tampouco foi vítima de conspiração institucional. Ainda assim, parte da cobertura prefere enquadrá-lo como símbolo de algo maior, sem a mesma preocupação em contextualizar decisões de outros clubes ou atletas em situações semelhantes.

O jornalismo esportivo perde quando escolhe alvos fixos e protege outros por afinidade, conveniência ou simples omissão. Criticar dirigentes é necessário. Questionar torcidas, atletas e estruturas de poder também. O que não se sustenta é fazer isso de forma desigual, calibrando a indignação conforme o clube, o personagem ou a antipatia pessoal envolvida. Quando a régua moral muda de acordo com o escudo, a crítica deixa de ser jornalismo e passa a ser militância seletiva.

No fim das contas, o futebol segue sendo um campo potente de disputas simbólicas, sociais e políticas. Justamente por isso, exige coerência de quem se propõe a interpretá-lo publicamente. Sem isso, o discurso perde força, a análise perde credibilidade e o debate se reduz a uma coleção de silêncios estratégicos.

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