A reclamação de Abel Ferreira sobre a decisão da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de não convocar jogadores de Flamengo e Palmeiras para os amistosos da Seleção Brasileira contra Japão e Singapura expôs uma contradição no discurso do treinador português. Após a goleada por 6 a 1 sobre o Remo, na quinta-feira (5), Abel questionou o tratamento dado aos dois clubes e sugeriu que o Flamengo teria sido beneficiado por uma medida que poupou os principais candidatos ao título do Campeonato Brasileiro. O problema é que informações publicadas por diferentes veículos indicam que o Palmeiras também tinha jogadores na pré-lista e foi comunicado sobre os critérios adotados pela entidade.
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A discussão não começou com a convocação definitiva, anunciada em 29 de outubro. Na ocasião, o diretor de seleções da CBF, Rodrigo Caetano, explicou que a entidade estabeleceu um limite de um atleta por clube brasileiro, com exceção de Flamengo e Palmeiras, que disputam a liderança do campeonato. A justificativa foi evitar que os dois concorrentes diretos perdessem jogadores em uma Data Fifa marcada por viagens longas e partidas na Ásia. Os amistosos serão disputados em Singapura, contra o Japão, no dia 14, e diante dos anfitriões, no dia 17.
Na coletiva após a vitória sobre o Remo, Abel questionou por que o Palmeiras não teria sido contemplado anteriormente com convocações e afirmou que não gostou de ouvir que seus jogadores seriam poupados enquanto atletas do Flamengo poderiam ser chamados por outras seleções. O treinador citou Argentina e Paraguai, que têm jogadores palmeirenses em suas listas, e argumentou que o clube paga os salários dos atletas, mas corre o risco de ficar sem eles em uma fase decisiva do Brasileirão.
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A preocupação com os desfalques é legítima. O calendário e a logística das seleções podem comprometer a preparação das equipes, especialmente quando os compromissos acontecem do outro lado do mundo. O que não se sustenta é transformar essa discussão em uma acusação de favorecimento ao Flamengo, como se a decisão da CBF tivesse retirado uma vantagem do Palmeiras para beneficiar exclusivamente o rival. A medida alcançou os dois clubes, justamente porque ambos disputam o título.
A pré-lista que contradiz Abel
A informação publicada por Rodrigo Mattos, colunista do UOL, foi o primeiro elemento a desmontar a versão apresentada pelo treinador. Segundo o jornalista, o goleiro Carlos Miguel estava na relação de Carlo Ancelotti, mas acabou retirado por decisão da CBF para não prejudicar o Palmeiras na reta final do campeonato. A entidade teria comunicado o clube sobre a mudança. Do lado rubro-negro, o atacante Samuel Lino também estava entre os nomes observados e foi retirado pelo mesmo motivo.
O Palmeiras reagiu publicamente e classificou como falsa a informação de que havia sido avisado pela CBF sobre a exclusão de Carlos Miguel. Rodrigo Mattos, por sua vez, manteve o conteúdo publicado e atualizou a coluna para registrar a negativa do clube. A divergência, portanto, passou a envolver não apenas a declaração de Abel, mas também a versão oficial apresentada pela diretoria palmeirense.
As informações divulgadas posteriormente pelo jornalista Diogo Dantas, em O Globo, acrescentaram detalhes relevantes. De acordo com a apuração, quatro jogadores do Flamengo e dois do Palmeiras estavam na pré-lista da Seleção. Inicialmente, a CBF trabalhou com a possibilidade de convocar um atleta de cada equipe. Entre os nomes palmeirenses estavam Carlos Miguel e Marlon Freitas. Pelo Flamengo, apareciam Pedro, Samuel Lino, Lucas Paquetá e Emerson Royal. A decisão final, porém, foi não levar ninguém dos dois concorrentes ao título.
O jornalista Pedro Ivo Almeida, da ESPN Brasil, também publicou informações sobre a presença de Carlos Miguel e Marlon Freitas na pré-lista e a intenção da comissão técnica de convocá-los. As diferentes apurações apontam para o mesmo cenário: o Palmeiras tinha jogadores observados pela Seleção e também foi alcançado pela decisão de preservação adotada pela CBF. A negativa do clube sobre ter recebido o aviso não elimina a existência da pré-lista, nem altera o fato de que a entidade optou por não convocar atletas dos dois postulantes ao título.
A declaração de Abel, portanto, deixa de ser apenas uma reclamação sobre a logística da Data Fifa. Ao afirmar que o Palmeiras não teve jogadores convocados anteriormente e questionar por que o Flamengo seria poupado, o treinador desconsiderou informações que já circulavam sobre o planejamento da CBF. O argumento de que o rival estaria recebendo um tratamento especial perde força quando se observa que a medida também evitou a ausência de atletas palmeirenses por compromissos com a Seleção Brasileira.
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A memória seletiva sobre os desfalques
A discussão também revela uma diferença de tratamento quando o assunto é a convocação de jogadores para defender seus países. O Flamengo convive há anos com perdas importantes em períodos decisivos do Campeonato Brasileiro, muitas vezes sem que a competição seja interrompida ou que os adversários demonstrem preocupação com a igualdade esportiva.
Em 2021, por exemplo, o Rubro-Negro chegou a outubro tendo disputado dez partidas do Brasileirão sem seus atletas de seleção, o equivalente a 43,4% dos jogos realizados até aquele momento. Na primeira parte da temporada, a Copa América coincidiu com o campeonato nacional e tirou do time nomes como Gabigol e Everton Ribeiro, convocados pelo Brasil, além de Arrascaeta e Isla, chamados por Uruguai e Chile. Depois, as Eliminatórias ampliaram o problema.
O impacto foi esportivo e concreto. Durante os sete jogos disputados na Copa América sem os principais selecionáveis, o Flamengo somou apenas nove pontos em 21 possíveis, com aproveitamento de 42,8%. Nos 13 compromissos seguintes, já com o elenco mais completo, o rendimento subiu para 74,3%. Não se trata de afirmar que todas as dificuldades daquele período foram provocadas exclusivamente pelas convocações, mas os números ajudam a dimensionar o prejuízo causado pelas ausências.
Naquele momento, o Flamengo reclamou da manutenção das partidas durante a Data Fifa e da falta de uma solução para os clubes que cediam jogadores. A CBF chegou a sinalizar que poderia adiar confrontos, mas voltou atrás. O Rubro-Negro precisou disputar partidas sem peças fundamentais, enquanto a discussão sobre isonomia não ganhou a mesma dimensão que agora aparece no discurso palmeirense.
É justamente essa seletividade que merece ser questionada. O correto seria defender critérios que protegessem todos os clubes da Série A, não apenas aqueles que disputam o título. A decisão de poupar Flamengo e Palmeiras pode ser discutida, mas não faz sentido transformar a preservação dos dois em favorecimento a um deles. Se a preocupação é com a igualdade, ela precisa valer também para Corinthians, Botafogo, Santos, Cruzeiro e qualquer outra equipe que perca jogadores em viagens internacionais e tenha de lidar com o desgaste físico no retorno.
A CBF adotou uma solução específica para os dois primeiros colocados, enquanto os demais clubes tiveram atletas convocados pela Seleção Brasileira. O critério pode ser questionado, mas a discussão deveria partir da necessidade de uma regra mais abrangente, não de uma tentativa de colocar Flamengo e Palmeiras em lados opostos de uma decisão que beneficiou ambos.
Abel Ferreira tem liberdade para defender os interesses do Palmeiras e cobrar explicações da CBF. O problema está em apresentar a situação como se o clube tivesse sido excluído de um benefício concedido exclusivamente ao Flamengo. As informações sobre a pré-lista e a retirada de Carlos Miguel e Samuel Lino indicam justamente o contrário. Quando a reclamação ignora esse contexto e trata a ausência de convocados do rival como uma vantagem indevida, a defesa da isonomia passa a parecer menos uma preocupação com o campeonato e mais uma disputa por narrativa na briga pelo título.
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