ABSURDO! FFU prometeu ouro, mas entregou desequilíbrio, conflitos e privilégios para alguns clubes
A crise interna da FFU ganhou novos contornos nos últimos dias após bastidores revelados pelo jornalista Rodrigo Mattos, no programa Finanças do Esporte, exporem a insatisfação de clubes da Série B com o modelo comercial adotado pela liga. O estopim foi a negociação envolvendo cotas prometidas a equipes como Náutico e São Bernardo, que acabou redesenhada após interferência da CBF. O episódio, ocorrido em meio às discussões sobre direitos de transmissão da Série B, expôs uma fratura que vai além de valores: atinge a credibilidade do projeto de liga.
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O acordo que desandou
A proposta inicial previa que a FFU anteciparia parte dos recursos aos clubes, mas em troca passaria a explorar propriedades comerciais adicionais, como espaços no uniforme. Quando a CBF sinalizou que cobriria os cerca de R$ 50 a 60 milhões discutidos, investidores recuaram. O dinheiro público da entidade nacional eliminaria a necessidade de aporte privado.
O movimento gerou revolta. Clubes que esperavam receber valores somados se viram apenas com a equiparação da cota prometida pela CBF. Na sexta-feira seguinte, 17 equipes da Série B divulgaram manifesto com críticas à forma de comercialização, falta de transparência e possíveis conflitos de interesse envolvendo a empresa LiveMode, parceira comercial da FFU e ligada à operação da CazéTV, que negocia direitos de transmissão da Série A.
Na segunda-feira (9) houve reunião emergencial. A liga reajustou valores para alcançar os R$ 14,9 milhões prometidos anteriormente a Náutico e São Bernardo. Oficialmente, o impasse financeiro foi solucionado. Nos bastidores, a percepção é outra. Dirigentes relatam que a insatisfação persiste.
Liga esportiva ou bloco financeiro?
A FFU nasceu com discurso de modernização e equilíbrio competitivo. A prática, segundo relatos de clubes da Série B, não tem seguido essa narrativa. O entendimento predominante é de que o investidor age como investidor. Busca retorno. Isso é legítimo. A contradição surge quando a estrutura vendida como “liga” se comporta como operação essencialmente financeira.
A promessa de arrecadações robustas, estimadas em cerca de R$ 250 milhões em discursos iniciais, não se concretizou nos termos esperados. E o debate sobre governança esportiva, critérios técnicos e distribuição equitativa ficou em segundo plano.
Privilégios que geram ruído
O caso do Fortaleza tornou-se símbolo da distorção percebida. Rebaixado, o clube teria direito a cerca de R$ 25 milhões pela exploração de placas publicitárias, enquanto outras equipes da Série B receberiam aproximadamente R$ 4 milhões. Situação semelhante já ocorrera com o Athletico Paranaense e poderia beneficiar Vasco, Internacional e Fluminense em eventual queda.
A justificativa formal é contratual. A crítica é política. Clubes de orçamento semelhante questionam a diferença de tratamento. O argumento da igualdade, usado no passado contra supostos privilégios do Flamengo, hoje encontra silêncio quando aplicado a integrantes do próprio bloco.
Há ainda o episódio envolvendo o Corinthians, que deixou a Libra e migrou para o grupo rival em momento decisivo, obtendo condições comerciais consideradas mais vantajosas. O movimento foi interpretado por parte dos dirigentes como sinal de que a negociação não era tão uniforme quanto se defendia.
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Conflitos de interesse e mudança de comando
A presença de dirigentes com dupla função também alimentou suspeitas. Marcelo Paz, então CEO da SAF do Fortaleza e à presidência da FFU, tornou-se diretor de futebol do Corinthians. Embora a liga negue interferência direta, a sobreposição de cargos foi vista como fator de desconforto político.
Após sua saída, a presidência passou ao comando ligado ao Internacional, mas a cisão já estava instalada. O manifesto da Série B não foi um gesto isolado. Foi reflexo acumulado de decisões mal explicadas e de um ambiente onde poucos se sentem plenamente representados.
A comparação inevitável com a Inglaterra
O debate sobre modelo de liga costuma evocar a Premier League. Quando foi criada, em 1992, os clubes ingleses atravessavam grave crise financeira. Mesmo assim, separaram discussões estruturais da negociação dos direitos de TV. Dois dias antes da estreia do campeonato, o contrato de transmissão ainda não estava fechado. A prioridade era definir governança, regras e modelo organizacional.
No Brasil, o caminho parece invertido. O eixo central das conversas é financeiro. Questões estruturantes orbitam como apêndice. Não por acaso, as fraturas surgem justamente quando o dinheiro não corresponde às expectativas.
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Um futuro ainda indefinido
A disputa entre blocos, envolvendo FFU, Libra e a própria CBF, indica que a unificação da Série A e da Série B sob uma liga coesa ainda está distante. A lógica atual aponta para dois polos econômicos competindo por poder e receitas, enquanto clubes menores tentam garantir sobrevivência.
A crítica recorrente ao suposto egoísmo de determinados clubes perde força quando privilégios semelhantes aparecem sob outras cores. O problema não é o nome estampado no escudo. É a coerência do sistema.
Se a promessa era equilíbrio, o que se vê é tensão. Se o discurso falava em união, o cenário revela fragmentação. E a conta, como sempre, recai sobre quem menos tem margem para errar.
Crise na Série B: FFU aumenta cota, mas percepção é que há mais ambição por dinheiro do que com liga
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