ABSURDO! Júlio Gomes diz que organização beneficia Flamengo e defende a volta da bagunça no futebol
Júlio Gomes, colunista conhecido por análises críticas sobre o futebol nacional no UOL, afirmou que a organização recente do esporte estaria beneficiando clubes como o Flamengo e defendeu, ainda que de forma indireta, um modelo mais próximo do caos que marcou outras épocas. A declaração, feita em meio a comentários sobre desigualdade competitiva, reacendeu um velho embate: o problema do futebol brasileiro é a organização ou a falta dela?
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O argumento central apresentado por Júlio parte da ideia de que o Brasil teria “mudado” o futebol de forma a concentrar forças em poucos clubes, criando um distanciamento excessivo entre eles e os demais. Para ele, o processo teria esvaziado rivalidades históricas e enfraquecido a lógica que, durante décadas, sustentou campeonatos equilibrados e imprevisíveis. Na prática, a crítica recai sobre o Flamengo, apontado como símbolo dessa transformação.
A premissa, no entanto, ignora um dado fundamental: o futebol brasileiro não mudou sozinho, nem por vontade própria. O que alterou o cenário foi a globalização do esporte, a profissionalização da gestão e a transformação do futebol em indústria. Esse movimento começou fora do país, avançou sobre a Europa nas últimas décadas do século passado e, mais cedo ou mais tarde, chegaria ao Brasil. A diferença é que alguns clubes decidiram acompanhar o processo. Outros ficaram para trás.
A falsa nostalgia do equilíbrio
Durante grande parte do século XX, o Brasil conviveu com a ideia de que havia de 12 a 13 clubes “grandes”, todos teoricamente aptos a disputar títulos nacionais. Esse equilíbrio, no entanto, sempre foi mais retórico do que real. Em diferentes períodos, clubes paulistas dominaram o cenário com folga, seja pelo apoio de grandes patrocinadores, seja por modelos de gestão mais avançados para a época. Palmeiras com a Parmalat, Corinthians em ciclos específicos, São Paulo nos anos 2000. A distância para os rivais existia, apenas se manifestava de outras formas.
O que muda agora é a transparência desse abismo. Com receitas recorrentes, profissionalização administrativa e planejamento de longo prazo, clubes como Flamengo e Palmeiras passaram a transformar vantagem estrutural em constância esportiva. Isso incomoda porque rompe a ilusão de imprevisibilidade permanente. Mas não se trata de um fenômeno brasileiro isolado. É o mesmo caminho seguido pela Premier League, pela La Liga e pela Bundesliga.
Na Inglaterra, exceções como o Blackburn nos anos 1990 ou o Leicester em 2016 viraram marcos históricos justamente por serem raras. O restante do tempo, o protagonismo ficou concentrado entre os clubes mais organizados, com maior capacidade de gerar receita e manter elencos competitivos. Ninguém aponta isso como falência do futebol inglês. Pelo contrário.
Organização não é privilégio, é consequência
Ao sugerir que a organização “beneficia” o Flamengo, Júlio Gomes inverte a lógica. O clube carioca não se tornou dominante porque o futebol passou a ser organizado. O futebol organizado passou a evidenciar quem se estruturou antes. Desde 2013, o Flamengo iniciou um processo duro de reequilíbrio financeiro, pagamento de dívidas, profissionalização interna e redefinição de prioridades. Durante anos, perdeu competitividade esportiva para recuperar credibilidade fora de campo. O resultado aparece agora.
O mesmo raciocínio vale, com suas particularidades, para outros clubes. Palmeiras encontrou um modelo próprio, Cruzeiro seguiu um caminho diferente, Botafogo apostou em uma SAF agressiva. Pode-se criticar cada um desses projetos, mas não negar que eles existem. Defender o retorno da “bagunça” como antídoto à desigualdade é, no fundo, defender o nivelamento por baixo.
Quanto mais organizado é o futebol, mais vantagem têm aqueles que se prepararam para esse ambiente. Isso não é injustiça, é regra básica de qualquer mercado competitivo. O contrário significaria punir quem se profissionalizou para preservar estruturas falidas.
O saudosismo que mascara gestões temerárias
Há um elemento emocional forte nesse discurso. A nostalgia de um futebol em que todos “brigavam” esconde décadas de administrações irresponsáveis, dívidas empurradas para frente e decisões tomadas sem qualquer lastro financeiro. Clubes como Vasco, Corinthians e São Paulo não perderam espaço por falta de torcida, tradição ou relevância cultural. Perderam porque erraram repetidamente na gestão.
Esses clubes seguem entre os mais populares do país, com enorme capacidade de arrecadação. Ainda assim, acumulam crises políticas, presidentes afastados, recuperações judiciais e orçamentos desequilibrados. Tratar isso como efeito colateral inevitável de um futebol “moderno” é conveniente. Mais honesto seria admitir que organização expõe fracassos que antes ficavam diluídos no caos geral.
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O paralelo inevitável com a Europa
A comparação com a Premier League ajuda a entender o cenário que se desenha no Brasil. Clubes médios ingleses sabem que dificilmente disputarão títulos nacionais, mas trabalham para se manter na elite, disputar copas e crescer de forma sustentável. O título não é promessa, é exceção. No Brasil, essa lógica começa a se impor, ainda que cause resistência.
Isso não significa o fim das zebras ou das conquistas pontuais. Mata-matas seguem oferecendo margem para surpresas. Campeonatos longos, porém, premiam regularidade, elenco e gestão. Sempre foi assim, apenas ficou mais evidente.
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O equívoco da crítica
Ao defender, ainda que implicitamente, um futebol menos organizado para reduzir a vantagem de quem se estruturou, Júlio Gomes acaba normalizando o atraso. Não se trata de gostar ou não do status quo. Trata-se de reconhecer que organização, respeito a regulamentos e responsabilidade financeira são pré-requisitos mínimos para qualquer indústria que queira sobreviver.
O futebol brasileiro já foi marcado por viradas de mesa, regulamentos improvisados e decisões casuísticas. Os efeitos disso estão documentados na história recente. Tratar esse passado como modelo desejável não é romantismo, é distorção.
Discordar do caminho atual é legítimo. Defender a desorganização como solução, não. Quando a organização incomoda, o problema raramente está nela.
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