A derrota do Corinthians para o Palmeiras, no último domingo (8), na Neo Química Arena, abriu mais um capítulo na construção de um mito que parte da imprensa insiste em sustentar. Diante de um clássico perdido por 1 a 0, em casa, os jogadores alvinegros deixaram o campo sob aplausos. O gesto, repetido nas arquibancadas e exaltado em redes sociais e transmissões esportivas, foi tratado como prova de maturidade, fidelidade e superioridade cultural de uma torcida que, segundo o discurso corrente, não vaia, não abandona e canta o tempo inteiro.
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O contexto, no entanto, pede menos romantização e mais honestidade intelectual. O Corinthians vinha de títulos recentes, havia exibido a taça da Supercopa antes da partida e não fazia um início de temporada desastroso. Ainda assim, perder um clássico em casa, para o maior rival, é derrota. Aplaudi-la não é virtude automática, é escolha. E escolhas também dizem muito sobre o que se cobra, ou deixa de cobrar, dentro de um clube.
Durante o jogo, imagens captadas por transmissões e por torcedores mostraram algo distante do roteiro épico vendido em programas esportivos. Nos minutos finais e já nos acréscimos, a arquibancada apresentava longos momentos de silêncio. Parte do público deixou o estádio antes do apito final.
A construção desse contraste interessa porque revela como narrativas são moldadas conforme o clube envolvido. Quando o Corinthians aplaude uma derrota, fala-se em apoio incondicional. Quando a torcida do Flamengo protesta após um revés, o rótulo é de impaciência, soberba ou falta de amor. O critério muda, o julgamento também. Não é coincidência, é conveniência.
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Há ainda um dado histórico que costuma ser convenientemente esquecido. O Corinthians já foi rebaixado, vive anos de desorganização esportiva e administrativa, já acumulou campanhas vexatórias mesmo sob aplausos ocasionais. A ideia de que apoio irrestrito, sem cobrança, produz ambientes mais saudáveis não se sustenta quando confrontada com a própria trajetória do clube. Exigir desempenho não é sinônimo de abandono; muitas vezes é sinal de envolvimento profundo.
Aplaudir uma derrota em clássico não transforma uma torcida em exemplo. Pode, no máximo, revelar um momento específico, condicionado por títulos recentes e expectativas reduzidas para aquele jogo. O problema surge quando esse gesto vira parâmetro moral para atacar outras torcidas, especialmente a do Flamengo, sempre convocada a carregar o papel de vilã no imaginário esportivo nacional.
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Torcida não é melhor porque canta slogans, nem pior porque protesta. O que existe é contexto, cobrança, história e, sobretudo, coerência. Vender aplauso à derrota como virtude universal é mais um atalho narrativo para evitar discussões incômodas sobre desempenho, pressão e responsabilidade no futebol brasileiro.
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