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As condições do Flamengo para participar de uma nova liga do futebol brasileiro

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Foto: Divulgação / CBC

O Flamengo deixou claro, em apresentação sobre a futura liga do futebol brasileiro, que não pretende entrar em uma sociedade coletiva para reduzir o próprio peso comercial, abrir mão de proteção institucional ou subsidiar clubes que não consigam fazer o negócio crescer. A posição rubro-negra foi construída em torno de três pontos considerados fundamentais para qualquer negociação: um mínimo garantido comercial equivalente à relevância do clube no mercado, direito a veto com mecanismo de Golden Share e permanência condicionada ao crescimento real das receitas. A defesa foi apresentada com uma analogia direta à Fórmula 1, usando a Ferrari e o Pacto da Concórdia como exemplo de como uma marca histórica, quando agrega valor ao produto, precisa ter proteção específica antes da divisão geral de receitas.


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A fala parte de uma lógica simples, mas incômoda para parte do futebol brasileiro. O Flamengo entende que representa aproximadamente 15% de todo o dinheiro gerado pelo futebol nacional do ponto de vista de marketing, incluindo direitos de transmissão e receitas comerciais dos clubes. Por isso, se aceitar participar de uma liga com outras instituições, quer assegurar, de saída, que não receberá menos do que já gera individualmente. A pergunta usada na apresentação resume a tese: quem entraria em uma sociedade em que “2 + 2 dá 3”?

O ponto é crítico porque muda o eixo da discussão. Durante anos, o debate sobre liga no Brasil foi vendido como solução mágica para todos os clubes, quase sempre com a promessa de organização, união e crescimento coletivo. O Flamengo, no entanto, tenta impor uma pergunta anterior: crescer para quem? Se a nova estrutura aumentar o bolo, profissionalizar o produto, expandir mercado e valorizar o campeonato, a participação faz sentido. Se servir apenas para redistribuir o que o Rubro-Negro já produz, o clube não vê motivo para se prender a um modelo que transforme potência comercial em instrumento de compensação dos demais.

A Ferrari como referência e a lógica do valor agregado

A comparação com a Ferrari na Fórmula 1 não aparece por acaso. O Pacto da Concórdia é citado na apresentação como exemplo de um acordo em que uma marca histórica recebe tratamento específico porque agrega valor ao campeonato. A Ferrari não é apenas mais uma participante do grid. Ela carrega tradição, torcida global, apelo comercial e uma força simbólica que ajuda a vender a própria Fórmula 1. Na leitura rubro-negra, o Flamengo ocupa posição semelhante dentro do futebol brasileiro.

A analogia pode incomodar rivais, mas é objetiva do ponto de vista econômico. O Flamengo mobiliza audiência, engajamento, consumo, patrocínio, bilheteria, venda de produtos, redes sociais, repercussão nacional e interesse internacional em escala superior à média dos demais clubes. Isso não significa que seja maior que o campeonato ou que possa jogar sozinho. Significa que qualquer liga que pretenda nascer forte precisa reconhecer quem puxa valor para dentro do produto.

É nesse ponto que o discurso rubro-negro enfrenta a narrativa fácil do egoísmo. Defender uma garantia mínima não é o mesmo que negar solidariedade esportiva. Toda liga moderna precisa de equilíbrio competitivo, regras claras e divisão racional de receitas. O problema é confundir equilíbrio com nivelamento artificial, como se o clube que mais entrega audiência, mercado e valor comercial tivesse obrigação de aceitar perda estrutural em nome de uma união abstrata.

O Flamengo não está dizendo que os outros clubes não devem ganhar. Está dizendo que não aceita ganhar menos do que gera. Essa diferença é central.

Mínimo garantido comercial: a trava contra a diluição do Flamengo

O primeiro ponto da negociação é o mínimo garantido comercial. Na apresentação, a diretriz aparece como uma salvaguarda financeira na ordem de 15% da receita da liga, com o objetivo de preservar os patamares preexistentes do clube durante a transição de modelo. A expressão usada no slide, “casamento com comunhão de bens”, é forte porque ilustra exatamente o receio rubro-negro: entrar em uma sociedade coletiva e ver seus ativos misturados a uma divisão que reduza sua posição natural.

A lógica é de proteção. Se o Flamengo já arrecada determinado valor por sua força própria, não faz sentido aceitar um arranjo em que a soma coletiva diminua sua fatia absoluta. A liga, para o clube, precisa ser uma ferramenta de crescimento, não uma estrutura para transferir receita de quem já construiu valor para quem ainda não conseguiu fazer o mesmo.

Essa posição tem uma camada política evidente. O futebol brasileiro convive há décadas com clubes que gastam mais do que arrecadam, acumulam dívidas, renegociam passivos, recorrem a soluções emergenciais e depois se apresentam como vítimas de uma desigualdade que também foi produzida por decisões internas ruins. O Flamengo, que passou por um processo duro de reorganização financeira a partir de 2013, não quer ser punido por ter feito o ajuste antes.

Há, claro, uma discussão legítima sobre equilíbrio competitivo. Um campeonato em que poucos clubes concentram recursos tende a perder previsibilidade e diversidade esportiva. Mas equilíbrio não pode ser construído ignorando geração de valor. A Premier League, LaLiga, NBA, NFL ou Fórmula 1 não cresceram porque apagaram suas marcas mais fortes. Cresceram porque transformaram essas marcas em motores do produto, ao mesmo tempo em que criaram regras comerciais, técnicas e institucionais para ampliar o mercado.

Golden Share e direito de veto: a proteção contra a regra mudada no dia seguinte

O segundo ponto é o direito a veto, associado à ideia de Golden Share. A preocupação do Flamengo é direta: entrar em uma liga com 20 clubes, aceitar uma regra inicial de distribuição, assegurar uma garantia mínima e, depois de um ano, ser derrotado por 19 a 1 em uma votação que mude as condições do acordo. Na prática, o clube quer impedir que sua adesão se transforme em armadilha institucional.

Essa é talvez a parte mais importante da proposta, porque não trata apenas de dinheiro. Trata de governança. Se o Flamengo entra em uma estrutura coletiva sem mecanismo de proteção, fica exposto a maiorias circunstanciais. E no futebol brasileiro, onde alianças mudam conforme interesses de curto prazo, uma maioria simples pode virar instrumento de pressão contra quem gera mais receita.

A Golden Share, nesse contexto, não seria um privilégio gratuito. Seria uma trava de segurança para temas estratégicos, especialmente aqueles capazes de atingir patrimônio institucional, modelo comercial, distribuição de receitas, direitos de transmissão, ativos digitais e liberdade de negociação. O Flamengo quer garantir que decisões fundamentais não sejam alteradas sem sua concordância.

Rivais podem chamar isso de imposição. Mas, do ponto de vista empresarial, a exigência é previsível. Nenhuma marca com grande participação em um negócio aceita se tornar minoritária em tudo se sua entrada é justamente um dos fatores que valoriza o produto. A contradição do debate brasileiro é querer o Flamengo dentro da liga pelo valor que ele agrega, mas exigir que o clube se comporte como se tivesse o mesmo peso comercial de todos os demais.

É uma conta que não fecha.

Direito de saída: se o bolo não crescer, Flamengo não quer subsidiar ninguém

O terceiro ponto é o mais duro politicamente: permanência condicionada ao crescimento de receita assegurado. Em outras palavras, se a liga não funcionar, se o negócio não crescer e se a promessa de valorização do produto não se confirmar, o Flamengo quer ter o direito de sair e negociar sozinho. A frase usada por Bap na apresentação é direta: “Só faltava a gente se juntar com alguém que não faça o negócio crescer”.

Esse trecho revela o centro da crítica rubro-negra. A criação de uma liga não pode ser apenas um discurso bonito sobre união. Precisa entregar resultado. O motivo para formar uma estrutura comum é aumentar o bolo, melhorar o produto, negociar melhor, padronizar calendário, elevar qualidade de transmissão, profissionalizar gestão, vender internacionalmente, organizar estádios, ampliar patrocínios e criar valor novo. Se nada disso acontecer, a liga vira apenas uma nova camada burocrática sobre um futebol que já desperdiça potencial demais.

O Flamengo, nesse cenário, não quer ficar preso. A preocupação é legítima porque contratos longos, mal desenhados e com baixa governança podem comprometer clubes por anos. O Brasil já viu acordos de transmissão, formatos de competição, pacotes comerciais e decisões políticas serem fechados sem visão estratégica de longo prazo. O clube aprendeu, nos últimos anos, que seu tamanho gera cobiça e resistência na mesma proporção.

Ao defender direito de saída, o Flamengo também manda um recado aos demais: a liga precisa provar seu valor. Não basta exigir adesão rubro-negra. É preciso entregar crescimento concreto.

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O incômodo com a palavra “subsidiar”

A frase mais politicamente sensível é a que diz que o Flamengo não tem pretensão de subsidiar outros clubes. Ela certamente será usada por adversários como prova de arrogância. Mas a discussão exige honestidade. Subsídio, nesse caso, não significa ajudar o futebol brasileiro a crescer. Significa aceitar um modelo em que a força comercial do Fla seja diluída sem contrapartida proporcional em crescimento do produto.

Esse é o ponto que muita gente evita enfrentar. Uma liga forte precisa de clubes fortes, mas também precisa reconhecer a diferença entre contribuição coletiva e transferência artificial de valor. O Flamengo pode participar de um projeto que aumente receita para todos. O que não quer é entrar em uma sociedade na qual sua marca seja usada para valorizar o pacote enquanto a divisão final reduz sua posição.

Há uma diferença enorme entre solidariedade e confisco comercial. A primeira ajuda a construir campeonato. O segundo pune eficiência.

É por isso que o discurso rubro-negro incomoda. Ele quebra a fantasia de que basta juntar todos os clubes em uma mesa e chamar isso de liga. Sem governança, metas, proteção contratual, profissionalismo e compromisso de crescimento, a união pode virar apenas um condomínio de interesses em conflito. E o Flamengo, pela própria experiência recente com Libra, sabe o custo de assinar documentos que depois passam a ser interpretados de maneira conveniente por grupos políticos e concorrentes.

Flamengo joga pesado porque aprendeu com o passado

A postura atual do Flamengo não surge no vácuo. O clube viveu disputas recentes envolvendo direitos de transmissão, Libra, critérios de audiência e divisão de receitas. Também viu parte da imprensa e de dirigentes rivais transformarem reivindicações jurídicas e comerciais em caricatura, como se o Flamengo fosse apenas um clube querendo “mais, mais e mais”. Esse enquadramento simplifica a discussão e esconde o ponto principal: a governança do futebol brasileiro ainda é frágil, e contratos mal amarrados costumam gerar prejuízo para quem confia demais.

Quando o Flamengo pede mínimo garantido, Golden Share e direito de saída, está tentando não repetir erros. O clube sabe que sua presença aumenta o valor de qualquer liga. Também sabe que, uma vez dentro, pode ser pressionado por maiorias que não têm a mesma responsabilidade sobre a geração do dinheiro. A proposta, portanto, é defensiva e ofensiva ao mesmo tempo: protege o patrimônio rubro-negro e força a futura liga a nascer com metas comerciais reais.

A crítica que se pode fazer ao Flamengo é de comunicação. O clube precisa explicar melhor à opinião pública que defender 15% não é defender privilégio, mas preservar valor já existente. Também precisa mostrar que uma liga saudável não depende apenas da força rubro-negra, mas de um produto melhor para todos. Se a mensagem ficar reduzida ao “não vamos subsidiar ninguém”, rivais terão facilidade para explorar o discurso.

Ainda assim, o mérito da posição é colocar racionalidade em uma discussão que costuma ser emocional. O Flamengo não está pedindo favor. Está apresentando condições. E condições são parte de qualquer negociação séria.

Liga não pode ser casamento sem cláusula de proteção

O slide apresentado sintetiza uma visão empresarial pouco comum no futebol brasileiro. O Flamengo só aceita entrar em uma liga se houver preservação de receita mínima, poder de veto em temas estratégicos e mecanismo de saída caso o negócio não cresça. É uma postura dura, mas compreensível para um clube que se enxerga como uma das principais marcas esportivas do continente.

A pergunta que os rivais precisam responder não é se gostam ou não da exigência rubro-negra. A pergunta correta é outra: a liga quer o Flamengo como motor de crescimento ou apenas como fonte de redistribuição? Se a resposta for crescimento, as condições podem ser negociadas dentro de uma lógica de mercado. Se a resposta for redistribuição, o conflito será inevitável.

No fundo, o Flamengo está dizendo que não aceitará casamento sem pacto, sem cláusula de proteção e sem perspectiva de prosperidade. A analogia com a comunhão de bens cabe porque uma liga mexe com patrimônio, marca, receitas, direitos e futuro institucional. Entrar sem trava seria irresponsabilidade. Entrar para perder valor seria submissão.

O futebol brasileiro precisa de liga, mas não de qualquer liga. Precisa de um produto capaz de crescer, vender melhor, organizar competições, proteger atletas, melhorar transmissões, atrair patrocinadores e respeitar quem gera valor. Se esse for o caminho, o Flamengo tem motivos para estar dentro. Se não for, a posição rubro-negra está dada: o clube não pretende ser a Ferrari do grid para receber como equipe pequena no acerto final.

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