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Athleta e Flamengo: a história ignorada que a mídia não contou sobre as camisas do clube

Atlheta e Flamengo: a história ignorada que a mídia não contou sobre as camisas do clube

Foto: Luiz Pinto / Acervo O Globo

Há um detalhe que passa despercebido à primeira leitura de uma reportagem recente sobre a fornecedora Athleta, mas que muda completamente o peso da narrativa: a ausência do Flamengo em um texto que se propõe a resgatar a memória de uma marca fundamental para o futebol nacional. Não se trata de um clube periférico na história da empresa. Ao contrário, é justamente um dos palcos onde essa trajetória ganhou forma, identidade e projeção.


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A matéria percorre o surgimento da Athleta em São Paulo, seu papel pioneiro na confecção de uniformes e a ligação direta com a Seleção Brasileira nas Copas de 1958, 1962 e 1970. Reconstitui um tempo em que camisas eram desenhadas à mão, produzidas artesanalmente e distribuídas sem a lógica comercial que hoje rege o futebol. Tudo isso é correto. O problema não está no que é contado, mas no que fica de fora.

O futebol antes da indústria

A Athleta surge em um período em que o uniforme não era produto, era necessidade. Clubes precisavam de camisas. A empresa produzia. A relação se estabelecia muito mais por proximidade do que por contrato.

Naquele cenário, o futebol ainda não havia sido capturado pelo marketing global. Não havia disputa por exposição de marca, nem negociações milionárias. O que existia era um ambiente quase artesanal, onde jogadores opinavam sobre gola, tecido e caimento.

Relatos de atletas ajudam a entender esse contexto. Roberto Rivellino descreveu camisas que, sob chuva, dobravam de peso. O uniforme não era leve, não era tecnológico, não era pensado para performance. Era, muitas vezes, um obstáculo a ser carregado durante o jogo.

A gente sentia o peso delas, viu? Era totalmente diferente, porque às vezes a gente pegava o material e colocava até para pesar a camisa, o calção, uma meia e na hora dava um, dois quilos com chuva, pesava. Hoje a chuva bate e vai embora, ela não fica na camisa. Antigamente não, pelo contrário. Mas a gente nunca reclamou. Você nunca viu ninguém reclamar da camisa, que antigamente era pesada, era leve — disse Rivellino ao GE.

Décadas depois, Romário reconheceria o salto proporcionado pela tecnologia. O futebol mudou porque o material mudou. E o material mudou porque o negócio mudou.

Eu tenho praticamente 60 anos, jogo desde os meus 20. Não peguei aquela época daquela camisa muito pesada. Mas, com certeza, a tecnologia avançou em todos os sentidos e também chegou nas marcas em relação aos uniformes, principalmente na camisa.

Quando o uniforme virou mercado

A virada acontece nos anos 70, quando o futebol passa a dialogar diretamente com a indústria publicitária. O uniforme deixa de ser apenas funcional e se transforma em vitrine.

Pelé é um dos símbolos dessa transição. Sua imagem, associada a marcas, inaugura um novo modelo de exploração comercial. A camisa passa a carregar valor além do campo.

Com isso, empresas multinacionais entram no mercado, trazendo escala, investimento e estratégia global. A lógica muda completamente. Quem não acompanha, fica para trás. Foi o que aconteceu com a Athleta.

A marca, que havia sido protagonista, não conseguiu competir em igualdade com gigantes estrangeiras. Aos poucos, perdeu espaço até desaparecer do cenário principal.

Flamengo: o capítulo que não pode ser apagado

É nesse ponto que a ausência do Flamengo se torna mais do que um detalhe editorial. Ela distorce a compreensão da própria história da Athleta.

O clube carioca utilizou uniformes da fornecedora em um período de transição, quando o futebol brasileiro ainda buscava identidade visual e estrutura profissional. As camisas rubro-negras da época revelam um cenário distante do atual.

Não havia padronização rígida. O monograma CRF variava. O tom do vermelho oscilava. As listras podiam ser mais finas, mais largas, mais espaçadas. Em alguns jogos, jogadores atuavam com escudos diferentes no mesmo time.

Esse ambiente, hoje visto como desorganizado, era na verdade o retrato de um futebol em construção.

Foi com camisas da Athleta que nomes como Zico e Júnior deram seus primeiros passos no profissional. Ainda longe da consagração, ainda antes dos títulos que os transformariam em ídolos, já carregavam no peito um uniforme que hoje é peça de coleção.

Há um simbolismo nisso. A camisa pesada, de algodão, sem tecnologia, representa um futebol que exigia mais esforço físico e oferecia menos estrutura. Ainda assim, foi ali que nasceu uma das gerações mais importantes do clube.

O CARIOCA DE 1974 – O PRIMEIRO DE ZICO E JÚNIOR COMO TITULARES:

A estética de uma época

As camisas da Athleta no Flamengo têm características próprias. Golas tipo polo, modelos com cordão, versões com gola olímpica. Tecidos grossos, resistentes. Números costurados manualmente.

Cada detalhe carrega um tempo específico. Não havia preocupação com padronização global, mas com identidade local.

A falta de uniformidade, que hoje seria criticada, naquele momento fazia parte do processo. Era um futebol mais humano, menos industrial.

O retorno em outro cenário

Depois de anos fora do protagonismo, a Athleta retorna ao futebol em um espaço completamente diferente.

Hoje, reaparece em clubes como o Mirassol, apostando em nichos específicos e no resgate histórico. A estratégia não é competir com gigantes, mas ocupar um território próprio, ligado à memória e à tradição.

É um retorno silencioso, mas significativo.

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O que a omissão revela

A ausência do Flamengo em um resgate histórico não é apenas um erro pontual. Ela revela como a memória do futebol ainda é fragmentada.

Histórias são contadas a partir de recortes. E, dependendo de quem conta, certos capítulos desaparecem.

No caso da Athleta, ignorar o Flamengo é ignorar um dos espaços onde a marca ajudou a construir identidade, estética e tradição.

Não se trata de inflar a importância de um clube, mas de reconhecer que a história do futebol brasileiro não pode ser contada pela metade.

A evolução da camisa Rubro-Negra do Flamengo – O Manto Sagrado (1912 a 2026)

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