Atletas paralímpicos criticam Flamengo após encerramento da modalidade

Atletas paralímpicos criticam Flamengo após encerramento da modalidade
Imagem: Satiro Sodré/CBR

O Flamengo iniciou o ano de 2026 ampliando um debate que já vinha sendo alimentado desde o anúncio do fim da canoagem: a saída silenciosa dos esportes paralímpicos de seu planejamento esportivo. A decisão, oficializada em nota no início de janeiro, atingiu diretamente atletas que representavam o clube havia anos e que, poucos dias antes, celebravam conquistas nacionais e internacionais vestindo o uniforme rubro-negro. Entre eles, a pararemadora Jéssica Guerra e o pararemador Michel Pessanha, ambos medalhistas e referências da modalidade no país.


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Os dois iniciaram o último mês do ano sendo premiados como destaques do paradesporto em 2025. O reconhecimento, porém, durou pouco. Dias depois, receberam a comunicação de que o Flamengo encerraria o pararemo a partir de 2026. Com isso, o clube deixou de contar com qualquer modalidade paralímpica em sua estrutura, mesmo mantendo discursos institucionais frequentes sobre inclusão, diversidade e responsabilidade social.

Fala-se muito em representatividade, mas isso não se sustenta na prática”, afirmou Jéssica Guerra em entrevista ao UOL. Diagnosticada com paralisia cerebral, ela começou no esporte adaptado há quatro anos e deu seus primeiros remos justamente no Flamengo. Natural de São Gonçalo, chegou a morar no alojamento do clube e construiu ali toda a sua trajetória no alto rendimento. Antes do remo, passou pelo vôlei sentado e pelo atletismo, até se consolidar na modalidade que lhe rendeu títulos nacionais e internacionais.

Michel Pessanha, com sequelas de poliomielite no lado direito do corpo, tem uma história ainda mais longa com o clube. Prestes a completar 13 anos defendendo o Flamengo, ele não escondeu a frustração com a forma como tudo foi conduzido. “Achei que merecíamos ao menos uma explicação. Foram 12 anos vestindo essa camisa. Simplesmente acabou”, relatou. Segundo ele, o encerramento ocorreu sem diálogo real, apesar de reuniões superficiais ao longo do ano que nunca resultaram em uma resposta definitiva.

Os números ajudam a dimensionar o contraste entre resultados esportivos e a decisão administrativa. Em junho, Jéssica e Michel conquistaram a medalha de ouro no PR2 doubles misto na etapa da Copa do Mundo disputada em Varese, na Itália. No mesmo ciclo, foram campeões brasileiros e terminaram o Mundial de Xangai na quinta colocação. “Nunca perdi um Brasileiro pelo Flamengo. Sou invicto desde que entrei no departamento”, lembrou Michel, que também acumula pódios em Copas do Mundo e participações relevantes pela seleção brasileira.

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Além dos dois, outros integrantes da delegação, como Diana Barcelos e Valdenir Júnior, também foram desligados. O encerramento do pararemo veio no mesmo comunicado que anunciou o fim da canoagem, mas, diferentemente do remo olímpico, o esporte adaptado não conta com proteção estatutária específica, o que facilitou sua extinção administrativa. Para os atletas, essa diferença escancarou uma escolha política, não financeira.

Segundo relatos, os sinais de desgaste começaram bem antes do anúncio oficial. Houve atrasos em definições, respostas vagas e mudanças constantes de justificativa. Em alguns momentos, o argumento era o custo; em outros, a falta de interesse da diretoria em manter o esporte adaptado. “Eu ganhava um salário mínimo. Desde 2020, fui campeã de tudo pelo Flamengo. Nunca pedimos nada além do básico”, afirmou Jéssica. Para ela, a comparação com gestões anteriores é inevitável. “Antes, havia esforço para nos ajudar. Hoje, fomos tratados como se não existíssemos.

O relato mais sensível diz respeito ao cotidiano no clube. Os atletas afirmaram que, em determinado período, seus nomes não constavam sequer na lista do café da manhã oferecido após os treinos no refeitório. Um detalhe aparentemente pequeno, mas simbólico. “Não é só dinheiro. É respeito. Estamos falando de atletas com resultados expressivos”, disse Michel. Em outra entrevista, ele reforçou que esse episódio nunca foi explicado oficialmente.

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O episódio deixa marcas que vão além do fim de uma modalidade. Ele expõe a distância entre discurso institucional e prática cotidiana, especialmente em um clube que se apresenta como potência financeira e referência de gestão no futebol sul-americano. Para atletas como Jéssica, Michel e também Isaquias Queiroz, citado em debates recentes, resta o reconhecimento pelo que foi construído dentro e fora da água. Não são contratos milionários, nem carreiras cercadas de holofotes. É outra realidade, feita de resultados, sacrifício e pertencimento. Uma realidade que, neste momento, o Flamengo decidiu deixar para trás.

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