Bap com razão? Especialista alerta para conflito de interesse e falta de transparência na venda da SAF do Vasco

A possível entrada da família Lamacchia na SAF do Vasco levantou dois questionamentos que ultrapassam a discussão sobre capacidade financeira de um futuro investidor. Para Rodrigo Capelo, especialista em negócios do esporte e torcedor vascaíno, a operação traz um potencial conflito de interesses pela ligação familiar entre Marcos Lamacchia e Leila Pereira, presidente do Palmeiras, além de avançar sem que sejam conhecidos publicamente pontos básicos da proposta, como valor, governança e participação efetiva da associação no futuro da empresa que controla o futebol cruz-maltino.
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Capelo tratou as duas questões separadamente. No primeiro caso, reconheceu que uma estrutura jurídica pode ser desenhada para respeitar a legislação atualmente existente, mas sustentou que o futebol brasileiro deveria estabelecer regras mais rígidas para impedir que clubes da mesma divisão tenham vínculos econômicos ou familiares capazes de colocar sob suspeita sua independência. No segundo, a crítica recai diretamente sobre o modelo de negociação: o Vasco estaria discutindo uma nova venda da SAF sem que sócios, conselheiros e torcedores saibam exatamente quais condições estão sendo oferecidas.
Conflito não precisa ser ilegal para ameaçar credibilidade
O ponto central apresentado por Capelo não é afirmar que Leila Pereira seria proprietária do Palmeiras. Ela é presidente do clube associativo, enquanto Marcos Lamacchia aparece relacionado ao grupo interessado na SAF vascaína. A questão levantada é outra: seria adequado ter pessoas da mesma família ocupando posições de enorme influência em dois clubes que disputam a mesma competição?
Para ele, o Brasil deveria criar uma limitação regulatória semelhante às existentes em outras estruturas esportivas. “Você vai jogar a mesma divisão, você não pode estar no mesmo grupo econômico ou ter ligações X, Y, Z”, defendeu, ressaltando que a discussão sobre multipropriedade e integridade esportiva já aparece em outros mercados.
Capelo citou como referências casos internacionais. O León foi excluído do Mundial de Clubes por questões relacionadas à multipropriedade envolvendo o Pachuca, enquanto Crystal Palace e Lyon enfrentaram restrições da UEFA por ligações societárias. Também lembrou que equipes B, como Barcelona B e Real Madrid Castilla, não podem disputar a mesma divisão de seus clubes principais.
A analogia não significa que todas essas situações sejam juridicamente idênticas ao possível negócio do Vasco. O argumento é regulatório: o futebol precisa impedir previamente cenários capazes de produzir dúvida sobre a independência competitiva das equipes.
“A dúvida mancha a integridade esportiva”
O exemplo utilizado por Capelo é simples. Imagine uma partida entre Vasco e Palmeiras na reta final do Campeonato Brasileiro. Um deles precisa de pontos para escapar do rebaixamento; o outro disputa o título. Mesmo que o jogo transcorra normalmente, a existência de vínculos entre pessoas responsáveis por decisões estratégicas dos dois clubes pode alimentar suspeitas entre torcedores.
É justamente essa percepção que ele considera perigosa. “Não pode ter essa desconfiança, não pode ter essa dúvida, porque a dúvida mancha o campeonato”, afirmou. Na sequência, completou que a incerteza compromete a própria percepção de integridade esportiva.
A crítica não se transforma em ataque pessoal a Leila Pereira. Pelo contrário. Capelo fez questão de elogiar sua administração no Palmeiras, classificando-a como uma das melhores dirigentes do país e destacando equilíbrio financeiro, investimento nas categorias de base e a forma como conduziu a retirada gradual da Crefisa do patrocínio principal.
Essa distinção é importante porque impede que a discussão seja reduzida à rivalidade. Na visão apresentada, uma boa gestão no Palmeiras não elimina o problema institucional que surgiria se pessoas com fortes laços familiares passassem a ocupar posições relevantes em duas equipes concorrentes.
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Lei da SAF não resolve toda a questão
Capelo também diferenciou o que atualmente pode ser estruturado dentro da legislação brasileira daquilo que considera desejável do ponto de vista esportivo. Segundo ele, advogados envolvidos na operação provavelmente encontrariam um formato capaz de evitar conflito direto com a legislação vigente.
O problema é a ausência de uma regra específica da CBF que alcance vínculos dessa natureza. O Sistema de Sustentabilidade Financeira em implantação está voltado principalmente para gastos, dívidas e equilíbrio econômico, e não para relações de propriedade ou influência entre clubes.
Por isso, a crítica não é necessariamente “essa venda é ilegal”, mas “o futebol brasileiro deveria permitir esse tipo de situação?”. São perguntas diferentes e que exigem respostas distintas.
Falta de transparência preocupa ainda mais Capelo
Quando deixou o conflito de interesses de lado e passou a analisar o processo de venda, Capelo foi ainda mais direto. Segundo ele, não são conhecidos elementos fundamentais da negociação: quanto está sendo oferecido, quais serão as regras de governança e que papel o Vasco conservará dentro da estrutura.
A cobrança ganha peso diante da experiência recente com a 777 Partners. Na primeira venda da SAF, o contrato completo não teria sido disponibilizado de maneira ampla aos conselheiros, segundo o relato apresentado. Agora, com o clube novamente buscando um controlador para o futebol, a preocupação é evitar que uma decisão de longo prazo seja tomada sem conhecimento suficiente de quem representa a associação.
Capelo rejeitou também a ideia de que apenas jornalistas estariam querendo conhecer os detalhes. “O torcedor quer saber. O sócio do Vasco, do Clube de Regatas Vasco da Gama, tem que saber. O conselheiro do Vasco tem que saber”, afirmou.
A lógica parte de uma constatação institucional. Mesmo minoritária dentro da SAF, a associação continua existindo e possui direitos. Foi justamente essa estrutura que permitiu ao Vasco reagir quando a relação com a 777 entrou em colapso. Portanto, entender quais instrumentos permanecerão disponíveis em uma nova venda não é mera curiosidade sobre bastidores comerciais; significa saber que proteção o clube terá caso um novo controlador enfrente problemas no futuro.
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Empréstimos tornam discussão ainda mais sensível
A possível venda também ocorre enquanto o Vasco busca recursos para manter sua operação. O clube já recorreu a financiamentos e, dentro desse contexto, a aproximação com interessados na aquisição da SAF cria uma relação que merece acompanhamento cuidadoso.
Isso não significa que receber empréstimo de um potencial comprador seja necessariamente irregular. A preocupação está na necessidade de conhecer as condições, contrapartidas e relação entre o financiamento atual e uma eventual aquisição futura.
Quando os detalhes permanecem desconhecidos, aumenta o espaço para especulações e versões conflitantes. Uma operação desse porte deveria reduzir dúvidas à medida que avança; quando ocorre o contrário, a falta de informação passa a ser parte do próprio problema.
O alerta de Capelo reúne, portanto, dois debates que não deveriam ser misturados, embora se encontrem no mesmo negócio. O primeiro é sobre integridade esportiva e a necessidade de a CBF estabelecer limites claros para relações econômicas e familiares envolvendo clubes concorrentes. O segundo diz respeito à governança do Vasco, que já viveu uma venda malsucedida da SAF e agora não pode tratar uma nova transferência de controle como assunto restrito a poucas pessoas.
Se a operação for vantajosa, financeiramente sólida e juridicamente segura, maior transparência tende a fortalecê-la, não a prejudicá-la. E, depois da experiência com a 777, saber quem compra, quanto paga, quais poderes terá e quais mecanismos permanecerão nas mãos da associação deixou de ser um detalhe burocrático. É uma questão diretamente ligada ao futuro do futebol vascaíno.
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