Bap tinha razão! Leila foi dona da empresa que comprará o Vasco? O que os documentos revelam

A revelação de que Leila Pereira teve participação indireta na empresa que assumiu a SAF do Vasco mudou o tamanho da discussão sobre a operação. A Almirante Participações, vencedora do leilão realizado pela Justiça do Rio, não surgiu diretamente nas mãos de Marcos Lamacchia, enteado da presidente do Palmeiras: a companhia nasceu em 2024 como Top Gol, dentro de uma estrutura empresarial ligada à família Lamacchia, teve Leila como sócia indireta, passou pelo controle de seu marido, José Roberto Lamacchia, e só depois chegou ao filho. Mais do que a árvore societária, porém, chama atenção o fato de parte dessa ligação ter permanecido fora do conhecimento público enquanto a negociação com o Vasco avançava.
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A Almirante foi a única concorrente no leilão de 25 de setembro e acabou declarada vencedora na 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro. A aquisição ainda não está concluída: a proposta precisa passar pelo Conselho Deliberativo do Vasco e, posteriormente, pela Assembleia Geral Extraordinária. Ao mesmo tempo, a ANRESF mantém procedimento para avaliar a possibilidade de conflito de interesses envolvendo a operação e a relação de Marcos Lamacchia com Leila Pereira.
O ponto que ganhou força após a publicação do UOL é anterior ao próprio leilão. A empresa que pretende controlar o futebol do Vasco teve uma história societária diretamente conectada à família da presidente do Palmeiras. Isso não prova que Leila tenha participado da negociação para comprar a SAF, algo que o próprio UOL afirma não ter encontrado nos documentos analisados. Mas muda a pergunta que vinha sendo feita: não se trata apenas de uma relação familiar entre Leila e Marcos, mas também de uma empresa que passou por uma estrutura na qual ela tinha participação.
De Top Gol a Almirante
A história começa em março de 2024, quando foi criada a Top Gol Participações e Empreendimentos. Segundo os documentos societários obtidos pelo UOL, a companhia tinha como objetivo a gestão de atividades ligadas ao futebol e a participação em SAFs. Sua estrutura inicial passava pela Ravena Participações e pela Siena Participações, ambas controladas pela Crefipar, holding de investimentos da família Lamacchia.
É nesse ponto que aparece Leila Pereira. Na época, a presidente do Palmeiras possuía 2% da Crefipar, enquanto José Roberto Lamacchia detinha os outros 98%. Como a participação chegava à Top Gol por meio de outras empresas, a ligação de Leila era indireta e minoritária. Ainda assim, ela fazia parte da estrutura empresarial da qual nasceu a companhia que posteriormente se transformaria na Almirante.
Essa situação durou pouco. Em abril de 2024, uma sequência de alterações societárias retirou a Crefipar da estrutura da Top Gol. A empresa passou a ficar sob o controle de José Roberto Lamacchia, que permaneceu à frente da companhia até agosto de 2025, quando transferiu o controle para Marcos Lamacchia. Em setembro daquele ano, a empresa passou a se chamar Almirante Participações.
A sequência, portanto, é objetiva: Leila aparece na estrutura inicial; a participação da Crefipar é retirada; José Roberto assume o controle; posteriormente, Marcos recebe a empresa; e a companhia avança nas tratativas para comprar o Vasco.
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O detalhe que ficou sob sigilo
É aqui que o caso ganha uma dimensão ainda mais delicada. Reportagem de Rodrigo Mattos, do UOL, revelou que o Vasco manteve sob sigilo uma operação envolvendo a Crefisa até a transferência da Almirante para Marcos Lamacchia e a saída de José Roberto da empresa. O processo de recuperação judicial registrava o empréstimo sem revelar inicialmente quem era o credor.
A cronologia chama atenção porque, enquanto a estrutura empresarial passava por mudanças, o Vasco também avançava em operações financeiras com empresas ligadas aos Lamacchia. Em 2025, a Crefisa concedeu um empréstimo de R$ 80 milhões ao clube, tendo ações da SAF como garantia. O percentual inicialmente previsto era de 20% e depois foi reduzido para 10%. A informação tornou-se pública posteriormente, quando o nome da Crefisa foi revelado.
O próprio Bap havia questionado essa relação antes de a atual dimensão societária vir a público. Em abril, o presidente do Flamengo chamou atenção para o fato de a Crefisa ter recebido ações da SAF como garantia e levantou a possibilidade de que aquele mecanismo pudesse estar relacionado ao interesse de assumir o controle do futebol vascaíno. Meses depois, em julho, o Flamengo levou formalmente o caso à ANRESF, pedindo análise e eventual veto à operação.
Com a documentação societária agora revelada, aquele questionamento ganha outro contexto. Não porque esteja automaticamente comprovada alguma irregularidade, mas porque a empresa que receberia o controle do Vasco já havia pertencido, ainda que em etapas diferentes, a integrantes da mesma família que mantém uma relação direta com o Palmeiras.
A pergunta que ficou
A Almirante afirma que não existe vínculo entre Leila e a operação de compra do Vasco. Em manifestação ao UOL, a empresa sustentou que, quando começaram as negociações para a aquisição, a Crefipar já não possuía participação na companhia e que todos os documentos firmados com o clube foram assinados quando Marcos Lamacchia já era seu acionista majoritário.
Essa explicação é importante porque estabelece a posição dos envolvidos. Também é preciso registrar o outro lado: o UOL não encontrou prova de participação direta de Leila nas negociações. O problema, portanto, não está em transformar a existência da participação societária anterior em prova de que ela tenha negociado a compra do Vasco, mas em entender por que essa história não apareceu de forma clara quando os primeiros questionamentos sobre a operação começaram.
A própria cronologia apresentada pelo UOL indica que Marcos Lamacchia afirmou, em carta enviada ao Vasco em julho de 2026 e anexada ao processo de recuperação judicial, que a Almirante mantinha negociações com o clube havia mais de dois anos. Se a afirmação for tomada como referência temporal, ela alcança um período em que a companhia ainda se chamava Top Gol e estava sob controle de José Roberto Lamacchia.
É justamente essa sobreposição de datas que torna o caso relevante. Em 2024, havia uma empresa criada para investir em SAFs dentro de uma estrutura empresarial ligada à família. No mesmo período, surgiram notícias de interesse de José Roberto Lamacchia na compra do Vasco. Em 2025, a companhia passou para Marcos. Depois, a Crefisa emprestou dinheiro ao clube. Em 2026, Bap questionou publicamente a operação, o Flamengo acionou a agência reguladora e, finalmente, a Almirante venceu o leilão.
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A reação dentro do Palmeiras
A revelação também produziu uma consequência que ultrapassa Flamengo e Vasco. Após o leilão, o grupo de oposição Ocupa Palestra pediu a saída de José Roberto Lamacchia do Conselho Deliberativo do Palmeiras e cobrou medidas para impedir eventual utilização de recursos, benefícios ou informações do clube em favor de rivais.
Os conselheiros citam o artigo 33, inciso XIII, do Estatuto do Palmeiras e entendem que a condição de avalista ou financiador de um clube rival pode ser incompatível com a permanência no Conselho. Essa interpretação pertence ao grupo oposicionista e não representa, até aqui, uma decisão ou punição oficial do Palmeiras.
O caso, portanto, chegou a um ponto em que diferentes peças passaram a se encaixar no mesmo processo. A empresa não nasceu com Marcos Lamacchia. Leila teve participação indireta na estrutura que a originou, José Roberto comandou a companhia antes da transferência para o filho e o Vasco manteve sob sigilo informações sobre uma operação financeira com a Crefisa enquanto essa reorganização societária acontecia. Nada disso, isoladamente, comprova que Leila tenha participado da compra do Vasco ou que uma irregularidade tenha sido cometida. Mas a sequência explica por que a transparência da operação voltou ao centro do debate e por que os questionamentos feitos por Bap agora são analisados à luz de informações que não estavam disponíveis publicamente quando ele começou a contestar o negócio.
A resposta definitiva dependerá das instituições que ainda precisam analisar a operação. A ANRESF terá de concluir sua avaliação sobre eventual conflito de interesses, enquanto os órgãos do Vasco decidirão sobre a aprovação da venda. No Palmeiras, a oposição já formalizou sua preocupação. O que a nova documentação acrescenta é uma questão que permanece sem resposta satisfatória: por que a participação anterior de Leila na estrutura da empresa que hoje compra o Vasco não foi apresentada de maneira transparente quando a operação começou a ser discutida?
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