Benfica é criticado por campanha com estereótipo racial após caso envolvendo Vinícius Júnior
O Benfica lançou, em parceria com a Adidas, uma nova camisa em meio à repercussão do caso de injúria racial envolvendo o argentino Prestianni contra Vinícius Júnior. O vídeo promocional, divulgado dias após o episódio, mostra um homem negro disfarçado de funcionário da limpeza “furtando” a camisa do clube, numa narrativa que pretendia fazer referência à série Lupin, mas que acabou recebida como reforço de estereótipos raciais. A campanha foi ao ar em Portugal, ganhou as redes sociais e provocou críticas imediatas de torcedores brasileiros e portugueses.
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O timing foi o primeiro problema. Em um cenário já inflamado por acusações de racismo no ambiente do futebol europeu, a peça publicitária ignorou a sensibilidade do momento. A legenda utilizada: “Somos suspeitos, mas gostamos muito”, ampliou o desconforto. Comunicação institucional não se limita a vender produto; ela projeta valores. E valores, em situações de crise, pesam mais que conceitos criativos.
A construção simbólica e o erro estratégico
A ideia de dialogar com o universo de “Lupin” parecia, à primeira vista, uma aposta estética. Na série, o protagonista é um mestre do disfarce, estrategista que age com inteligência e senso de oportunidade. O problema não esteve na referência cultural, mas na adaptação. Ao escolher retratar um homem negro encenando um ato ilícito, ainda que dentro de uma narrativa ficcional, o clube tocou em uma ferida histórica: a associação recorrente entre negritude e criminalidade.
A crítica central não foi sobre Netflix, nacionalidade ou rivalidade esportiva. Foi sobre responsabilidade simbólica. Clubes de massa, sobretudo aqueles que se orgulham de origem popular, precisam compreender o peso das imagens que escolhem divulgar. Num ambiente já tensionado por denúncias de preconceito, qualquer ruído ganha proporção maior.
O precedente no Flamengo
O episódio reavivou, no Brasil, a memória de uma polêmica semelhante envolvendo o Flamengo, também em parceria com a Adidas. Em 2016, em campanha produzida com o canal Desimpedidos, o cantor Nego do Borel aparecia “furtando” uma camisa do clube para divulgá-la antes do lançamento oficial. O vídeo ainda utilizava o termo “Framengo”, historicamente empregado de forma pejorativa para ironizar torcedores rubro-negros.
A repercussão foi imediata. Críticas apontaram o reforço de estereótipos ao colocar um artista negro, oriundo de comunidade periférica, encenando um ato ilícito. O material acabou retirado do ar após pressão pública. O clube divulgou nota, e o episódio ficou marcado como exemplo de falha na leitura do contexto social.
A diferença central entre os casos está no ambiente. No Brasil, a campanha ocorreu sem um fato específico de racismo envolvendo o clube naquele momento. Em Portugal, o vídeo do Benfica veio na esteira de um episódio concreto de injúria racial amplamente debatido. O contexto transformou um erro criativo em problema institucional.
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Reações e a relativização perigosa
Parte da imprensa e de torcedores portugueses reagiu minimizando as críticas, alegando exagero ou ausência de intenção discriminatória. Alguns chegaram a relativizar ofensas raciais, afirmando que “não se incomodariam” com determinados termos. Esse tipo de argumento ignora um ponto essencial: racismo não se mede pela percepção individual de quem não é alvo histórico da discriminação.
O debate extrapolou a peça publicitária. Passou a discutir estrutura, mentalidade e responsabilidade social no futebol europeu. Clubes são marcas globais. Dialogam com torcedores de múltiplas origens e culturas. Cada campanha publicitária é também um posicionamento político, ainda que não declarado.
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Comunicação é posicionamento
O futebol contemporâneo já não permite ingenuidade institucional. Em tempos de redes sociais, a resposta é instantânea e global. O Benfica, ao que tudo indica, subestimou o momento. Se a intenção era apenas lançar uma camisa, o resultado foi reabrir um debate delicado.
A história recente mostra que campanhas podem, e devem, ser revistas quando falham na leitura social. O precedente do Flamengo evidencia isso. Retirar do ar, reconhecer o erro e ajustar rota não é sinal de fraqueza, mas de maturidade institucional.
No fim, a discussão não é sobre marketing criativo ou referência pop. É sobre igualdade, dignidade e compreensão do peso simbólico das imagens. Clubes que se apresentam como populares e inclusivos precisam demonstrar isso não apenas no discurso, mas também nas entrelinhas de suas campanhas.
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