A Medida Provisória publicada pelo governo federal na sexta-feira (25) para encerrar a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no Brasil começou a produzir efeitos imediatos no mercado esportivo e de comunicação. Horas depois do anúncio, casas de apostas iniciaram o rompimento de contratos com emissoras de televisão, enquanto Globo, Band e ESPN passaram a retirar entregas publicitárias de suas programações. No Flamengo, um dos efeitos mais concretos aparece no varejo: uma estimativa inicial do clube aponta para um estoque de aproximadamente 100 mil camisas produzidas pela Adidas com a marca Betano que não poderá ser comercializado nas condições atuais.
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A televisão sente o impacto primeiro
A velocidade da reação chamou atenção. No próprio dia da publicação da MP, empresas do setor comunicaram a rescisão de acordos comerciais com emissoras. Betano, Novibet, Superbet e Esportes da Sorte estão entre as marcas que passaram a encerrar contratos, enquanto as redes precisaram reorganizar espaços que já estavam vendidos para publicidade e patrocínio. Globo, Band e ESPN começaram a retirar entregas previstas, e o SBT avaliava os procedimentos necessários para adequar sua programação.
O futebol é particularmente atingido porque as casas de apostas se tornaram presença constante nas transmissões e nos programas esportivos. A Band, por exemplo, havia negociado naming rights relacionados a atrações como Jogo Aberto e Os Donos da Bola. Na Globo, havia cotas comerciais de apostas vinculadas a competições como o Brasileirão e a Copa do Brasil. Com a mudança, os espaços precisam ser substituídos por outros anunciantes, justamente em um mercado no qual a publicidade esportiva movimenta valores elevados.
A dimensão financeira ajuda a explicar a rapidez da movimentação. Segundo dados citados pela Folhapress, o setor de apostas investiu R$ 23,6 bilhões em mídia entre janeiro de 2024 e agosto de 2026. Em 2025, a televisão respondeu por 74% desse investimento. Antes mesmo da publicação da medida, emissoras já avaliavam o risco de ruptura dos contratos e procuravam alternativas para preencher as cotas comerciais.
Outro ponto que facilitou a saída negociada está nos próprios contratos. Globo e Band sinalizaram que não pretendem cobrar integralmente as multas em determinadas rescisões, tratando o cenário como excepcional e buscando preservar a possibilidade de futuras relações comerciais caso o ambiente regulatório volte a permitir a atividade. A estratégia também reduz o risco de transformar a mudança regulatória em uma disputa contratual imediata entre emissoras e anunciantes.
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O problema chegou às camisas do Flamengo
No Flamengo, o impacto tem uma característica diferente. Não se trata apenas de uma receita publicitária que deixa de entrar: existe produto físico já fabricado com a identidade de uma empresa que, diante da nova regra, não poderá continuar sendo anunciada no país.
Segundo levantamento publicado pelo colunista Rodrigo Mattos, do UOL, o clube estima inicialmente um estoque de 100 mil camisas produzidas pela Adidas com a marca Betano que não poderá ser vendido. A conta envolve também os royalties relacionados à comercialização dessas peças.
O problema ganhou relevância justamente porque a marca da patrocinadora passou a aparecer também em versões destinadas ao torcedor. No contrato firmado em 2025, além do valor fixo do patrocínio, havia mecanismos relacionados à venda de camisas com a marca Betano. O acordo previa, por exemplo, R$ 10 milhões caso fossem alcançadas 400 mil unidades comercializadas, além de uma remuneração variável por peça vendida acima desse patamar.
Agora, parte dessa cadeia é interrompida pela mudança regulatória. Uma camisa que já saiu da fábrica não pode simplesmente ser tratada como um produto comum, porque carrega uma marca cuja publicidade foi alcançada pela medida. O clube precisa encontrar uma solução comercial e operacional para o estoque, enquanto Adidas e varejistas também precisam avaliar como lidar com as peças que já foram produzidas.
A situação também mostra como o impacto das apostas ultrapassou o espaço tradicional dos patrocínios. A relação entre clubes e empresas do setor passou a envolver uniformes, campanhas, plataformas digitais, ativações, programas de relacionamento e diferentes propriedades comerciais. No caso do Flamengo, o contrato com a Betano incluía ainda investimentos em esportes olímpicos, propriedades adicionais e novos modelos de negócio ligados à Flamengo TV.
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O efeito sobre o Flamengo vai além da camisa
O estoque de uniformes é apenas uma parte da equação. O próprio Flamengo estima uma perda anual próxima de R$ 400 milhões com o fim das receitas relacionadas às bets, segundo declaração do presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap. A principal parcela está relacionada ao contrato com a Betano, mas a conta também envolve outras propriedades comerciais ligadas ao mercado de apostas.
O contrato com a Betano tinha valor fixo de R$ 220 milhões anuais no espaço máster, podendo chegar a R$ 268,5 milhões com propriedades adicionais e metas. Havia ainda recursos direcionados a esportes olímpicos e um projeto envolvendo a Flamengo TV. Por isso, a repercussão financeira não se limita à camisa do futebol profissional.
Há uma diferença importante entre o que já aconteceu e aquilo que ainda está em aberto. As casas de apostas já começaram a rescindir contratos com emissoras, e o estoque de camisas com a marca Betano já representa um problema concreto para o Flamengo. Por outro lado, outros contratos esportivos ainda dependem de notificações, negociações e da própria evolução da medida provisória.
A MP estabeleceu um cronograma para a retirada da publicidade e para o encerramento das operações. A partir de 6 de outubro, as plataformas deixam de operar, enquanto até 5 de outubro existe prazo para retirada voluntária dos saldos pelos usuários. O texto ainda precisa ser analisado pelo Congresso Nacional dentro do prazo constitucional para manter sua validade.
O cenário, portanto, ainda pode sofrer alterações, mas os primeiros efeitos já apareceram antes mesmo de qualquer definição legislativa. Na televisão, as emissoras procuram preencher rapidamente espaços que tinham sido vendidos às bets. No Flamengo, a discussão ganha uma dimensão material com milhares de camisas já produzidas e que carregam a marca da Betano. A partir de agora, clubes, fabricantes, varejistas e veículos de comunicação terão de reorganizar contratos e produtos em um mercado que, até poucos dias atrás, tinha as empresas de apostas entre seus principais anunciantes e patrocinadores.
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