Cadê a coletividade? Série B entra em colapso financeiro após fracasso da LFU e pede socorro
A crise que hoje ronda a Série B do Campeonato Brasileiro não surgiu do acaso nem de um erro pontual de gestão. Ela é resultado direto de decisões tomadas nos últimos anos por clubes que, seduzidos por promessas de autonomia, receitas infladas e ruptura com a CBF, entregaram seus direitos comerciais e parte dos direitos de transmissão a blocos privados que não conseguiram cumprir o que venderam. Em 2026, a consequência já é concreta: insegurança financeira, risco operacional e uma competição ameaçada antes mesmo de começar.
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O alerta mais direto veio nesta semana. Hugo Bravo, presidente do Vila Nova, confirmou publicamente um cenário de instabilidade que até pouco tempo era tratado como exagero ou alarmismo. A CBF não assumirá mais custos historicamente bancados pela entidade, como arbitragem, logística, passagens, hospedagem e controle antidoping, no caso dos clubes que permanecerem vinculados à antiga Liga Forte União, hoje reorganizada como Futebol Forte União.
A origem do problema
A linha do tempo ajuda a entender o tamanho do equívoco. Em 2023 e 2024, clubes da Série B decidiram retirar da CBF a prerrogativa de negociar seus direitos comerciais e de transmissão. Apostaram em uma liga independente, respaldada por investidores, que prometia valores superiores aos praticados até então e uma organização mais eficiente do campeonato. Para isso, alguns assinaram contratos de longo prazo, em certos casos chegando a compromissos de até 50 anos, cedendo entre 10% e 20% dos direitos a fundos ligados ao projeto.
O problema apareceu rápido. A arrecadação ficou muito abaixo do projetado. A negociação conduzida pela agência responsável resultou em um bolo considerado pequeno pelos próprios clubes, algo em torno de R$ 170 milhões em placas e propriedades comerciais, número distante das promessas iniciais. A garantia futura, vendida como compensação, jamais se materializou.
Em 2025, os clubes já haviam sentido o baque. Receberam menos do que no ano anterior. Em 2026, a perspectiva é ainda pior. E o que era dificuldade virou risco real de colapso.
A Série B sob ameaça
Sem auxílio logístico, a matemática simplesmente não fecha para muitos participantes. O Brasil é continental, e disputar uma Série B exige viagens constantes, delegações numerosas, bagagens, alimentação, hospedagem e estrutura mínima para competir. Para clubes de orçamento limitado, bancar cerca de 19 deslocamentos de avião ao longo da temporada pode significar escolher entre pagar a logística ou manter salários em dia.
A fala de Hugo Bravo expõe o impasse com clareza. Ele reconhece que os contratos com ligas e investidores foram assinados em outra gestão da CBF, mas pondera que a nova administração adotou uma postura mais ativa e menos disposta a cobrir escolhas alheias. Ao mesmo tempo, admite que, sem algum tipo de solução institucional, a competição simplesmente não se sustenta.
Não por acaso, 20 clubes chegaram a assinar uma carta pedindo socorro à CBF, solicitando que a entidade reassumisse a comercialização da Série B. A promessa incluía um aporte de R$ 2,5 milhões em 2025 e uma garantia de R$ 12 milhões em 2026. Ainda assim, parte dos clubes hesitou em aderir, justamente por estar presa a contratos que não podem ser rompidos sem risco jurídico.
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A saída individual e o esvaziamento coletivo
Enquanto o discurso da coletividade desmorona, movimentos individuais começam a surgir. Náutico e São Bernardo, por exemplo, procuraram a CBF para autorizar a negociação direta de seus jogos como mandantes. O resultado foi imediato: um acordo com a Globo, que voltará a transmitir partidas da Série B em 2026. Serão 38 jogos em múltiplas plataformas.
O detalhe é revelador. Esses clubes, ao que tudo indica, não estão amarrados aos contratos de longo prazo com investidores das ligas. Conseguiram escapar do pacote fechado e buscar uma alternativa mais segura. Já os demais seguem presos a um modelo que não entrega receita suficiente nem garante estabilidade.
O cardápio da Série B, que deveria ter 380 jogos disponíveis ao mercado, passa a oferecer menos partidas. A ESPN, que comprou parte dos direitos via agência ligada às ligas, ficará restrita a jogos fora de casa de Náutico e São Bernardo. O produto perde valor, audiência e atratividade.
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O silêncio que grita
Talvez o aspecto mais incômodo de toda essa crise seja o silêncio seletivo. Durante anos, parte da grande mídia defendeu com entusiasmo as ligas privadas, a ruptura com a CBF e o discurso do “coletivo” em detrimento da individualidade. Agora, quando os clubes menores enfrentam a possibilidade real de não conseguir viajar para jogar, o debate some.
Exceções existem. Rodrigo Matos, por exemplo, acompanha o tema desde o início e vem alertando para os riscos estruturais desse modelo. Fora isso, pouco se ouve de vozes influentes que antes defendiam contratos longuíssimos e soluções milagrosas. O problema, ao que parece, só ganha importância quando afeta a elite ou quando o Flamengo está envolvido no tema.
A crise da Série B expõe uma verdade incômoda: no futebol brasileiro, projetos vendidos como modernos e coletivos muitas vezes funcionam como mecanismos de concentração de poder e risco. Quando a conta chega, ela não bate primeiro na porta dos grandes. Ela estoura nos clubes que menos têm margem para errar.
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