Uma camisa de futebol pode valer mais pela dificuldade de encontrá-la do que pelo tamanho do clube estampado no peito. Essa lógica aparece no acervo do colecionador Luis Quedinho, que reúne peças históricas de diferentes equipes brasileiras e encontrou no Porto Alegre Futebol Clube, de Itaperuna, um dos exemplos mais extremos de raridade. A camisa, produzida na primeira metade dos anos 1980, chamou tanta atenção pela escassez que, para Quedinho, pode ser mais difícil de conseguir do que uma peça associada a Zico, maior ídolo da história do Flamengo.
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A comparação parece improvável à primeira vista. Uma camisa do Zico carrega o peso de um dos maiores jogadores da história do futebol, enquanto o Porto Alegre, clube fundado em 1915 e posteriormente incorporado ao Itaperuna Esporte Clube, teve uma trajetória muito mais restrita. O valor, nesse caso, não está necessariamente na fama de quem vestiu a peça, mas na quantidade de exemplares que sobreviveram ao tempo e chegaram às mãos de colecionadores. É justamente essa combinação de história e escassez que faz determinadas camisas de clubes tradicionais ou de menor expressão alcançarem um status especial entre os aficionados.
A peça do Porto Alegre pertence a um período particularmente interessante da história do futebol de Itaperuna. Em 1985, o clube disputou a Terceira Divisão do Campeonato Carioca e conquistou o título, garantindo acesso à segunda divisão. Naquela campanha, enfrentou inclusive o Flamengo de Volta Redonda em diferentes momentos da competição, com partidas registradas ao longo daquele ano.
A camisa mostrada por Quedinho é identificada como sendo de 1984 ou 1985, justamente a época em que o Porto Alegre vivia uma fase de crescimento no futebol profissional. O clube acabaria disputando a primeira divisão estadual em 1987 e 1988, antes da criação do Itaperuna Esporte Clube, em 1989, a partir da fusão de Porto Alegre, Comércio e Indústria e Unidos Atlético Clube. A mudança de identidade contribuiu para tornar ainda mais particulares as peças daquele período anterior.
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É nesse ponto que o colecionismo de camisas ganha uma dimensão diferente. Quedinho explica que já passou anos procurando determinadas peças e chegou a tentar comprar exemplares que estavam nas mãos de outros colecionadores. O preço deixa de ser o único parâmetro quando a possibilidade de encontrar outra unidade é mínima. Quanto menor a oferta, maior tende a ser a disposição de quem conhece o mercado e entende o significado histórico daquela camisa.
O Olaria aparece como outro exemplo dessa relação entre escassez e valor. Uma camisa azul do clube, também presente no acervo, exigiu anos de procura até ser localizada. Não era uma peça facilmente encontrada em lojas especializadas ou nos tradicionais circuitos de colecionadores. Quando finalmente surgiu uma oportunidade, o valor pago refletiu justamente a dificuldade de conseguir outra igual.
Essa realidade ajuda a explicar por que camisas de clubes menores podem ser mais raras do que modelos de equipes gigantes. O Flamengo produziu e distribuiu ao longo das décadas um volume muito maior de uniformes, enquanto peças de Olaria, São Cristóvão, Porto Alegre, América, Bangu ou outras equipes podem ter circulado em quantidades reduzidas. O tamanho da torcida, portanto, nem sempre determina a raridade de uma camisa antiga.
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São Cristóvão e a Adidas
Entre as peças apresentadas no acervo está também uma camisa branca do São Cristóvão, um modelo aparentemente simples, mas que chama atenção pelo tecido, pelo corte e pela presença da Adidas. O clube utilizou a marca alemã durante um longo período, de 1978 a 1987, segundo registros históricos de uniformes. A versão de 1978, por exemplo, aparece catalogada como uma camisa branca com detalhes pretos e fabricação Adidas.
A peça também ajuda a contar uma parte pouco conhecida da história dos fornecedores esportivos no Brasil. Quedinho destaca que a Adidas já tinha presença no país antes de sua consolidação no futebol brasileiro e lembra que a marca foi registrada no Brasil em 1962, chegando efetivamente ao mercado nacional na década seguinte. A relação com os clubes, porém, ocorreu de maneira gradual e nem sempre com o modelo de fornecimento completo que se tornou comum posteriormente.
No caso do Flamengo, a Adidas já fornecia itens do uniforme antes da adoção integral da marca. A partir de 1980, segundo a pesquisa apresentada por Quedinho, o clube passou a utilizar a vestimenta completa da fabricante. É justamente desse período que surge uma das camisas mais reconhecidas pelos colecionadores rubro-negros: a chamada “furadinha”.
A camisa ganhou o apelido por causa da característica do tecido e se transformou em uma das peças mais emblemáticas do Flamengo nos anos 1980. O modelo está associado a uma geração que marcou profundamente a memória do torcedor, período em que Zico, Andrade, Júnior, Leandro e companhia ajudaram a construir uma das fases mais importantes da história do clube.
Quedinho não esconde a preferência. Quando questionado sobre a camisa mais bonita do Flamengo, escolhe justamente aquela que acompanhou sua infância e sua formação como torcedor. A resposta revela outro elemento fundamental do colecionismo: a peça mais importante nem sempre é a mais cara, mais antiga ou mais rara. Muitas vezes, é aquela que carrega uma memória pessoal impossível de reproduzir.
O acervo do colecionador é concentrado principalmente em camisas Adidas até 1992. A escolha tem uma razão histórica e afetiva. Ele começou a colecionar ainda criança, influenciado pelos uniformes vistos na Copa do Mundo de 1978, e passou a procurar peças de diferentes clubes brasileiros. Com o tempo, a coleção ganhou dimensão e passou a incluir camisas que dificilmente aparecem no mercado.
Há uma mudança importante nesse universo a partir dos anos 1990. Segundo Quedinho, a alteração na técnica de aplicação das estampas tornou os modelos posteriores menos interessantes para sua coleção. As camisas mais antigas preservam características próprias do período, como numerações em veludo e tecidos que ajudam a identificar uma determinada época do futebol.
É por isso que uma camisa aparentemente simples pode se transformar em uma peça de enorme valor para um colecionador. O material, o fabricante, a temporada, a quantidade produzida, o clube, o contexto esportivo e até a dificuldade de encontrar outro exemplar entram nessa equação. Uma camisa do Porto Alegre de 1984 ou 1985 talvez jamais tenha a fama de uma camisa do Zico, mas pode ser muito mais difícil de localizar.
No fim, a comparação proposta por Quedinho não diminui a importância das camisas ligadas aos grandes ídolos. Ela revela justamente o contrário: o mercado de peças históricas possui critérios próprios, nos quais fama e raridade não caminham necessariamente juntas. Uma camisa pode contar a história de um campeão, registrar uma temporada esquecida ou simplesmente sobreviver como um dos poucos vestígios de um clube que mudou de nome e desapareceu daquela configuração.
A “furadinha” permanece como símbolo de uma época inesquecível do Flamengo. Já a camisa do Porto Alegre representa uma história muito mais localizada, mas talvez por isso mesmo tenha se tornado tão difícil de encontrar. No colecionismo, o que sobrevive ao tempo pode ganhar um valor que nenhum catálogo consegue medir. E, às vezes, a verdadeira relíquia não é a camisa do maior ídolo, mas aquela que quase ninguém mais conseguiu guardar.
O primeiro clube brasileiro a vestir Adidas: você sabe qual foi?
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