AS CAMISAS MAIS RARAS DO FUTEBOL CARIOCA: FURADINHA DO ZICO, FLAMENGO, VASCO, BANGU E MAIS!

A relação entre futebol e memória ganha outra dimensão quando uma camisa deixa de ser apenas um uniforme e passa a carregar uma história. É nesse território que Luis Augusto Quedinho construiu sua trajetória como colecionador, concentrando boa parte da pesquisa em peças da Adidas e nos clubes do Rio de Janeiro. Entre camisas de Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, América, Bangu, Olaria, São Cristóvão e outras equipes tradicionais, a coleção revela não apenas mudanças de fornecedores e patrocinadores, mas também transformações na maneira como o torcedor se relaciona com o próprio futebol.
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Quedinho começou a construir esse acervo a partir de uma ligação afetiva com os anos 1970 e 1980, período que considera especialmente marcante para os uniformes brasileiros. A Adidas ocupa lugar central nessa memória. Para ele, a marca foi a maior fornecedora da história do futebol e sua presença no Brasil ajudou a definir uma estética que ainda desperta interesse entre colecionadores. O Flamengo aparece naturalmente nesse percurso, sobretudo pelas camisas que acompanharam a geração de Zico e os principais títulos do início dos anos 1980.
Entre as peças mais valorizadas, entretanto, não estão necessariamente aquelas ligadas aos maiores ídolos. Quedinho chama atenção para um princípio fundamental do colecionismo: raridade e importância histórica não são a mesma coisa. Uma camisa de um clube pequeno, produzida em quantidade reduzida e praticamente desaparecida ao longo das décadas, pode ser mais difícil de encontrar do que uma peça usada por um jogador famoso. É por isso que uma camisa do Itaperuna, por exemplo, pode despertar nele mais expectativa do que determinadas peças relacionadas a Zico. O valor, nesse caso, está na dificuldade de localização e na história que aquela peça preservou.
O mesmo raciocínio aparece quando ele fala da camisa do Olaria que levou anos para conseguir. A escassez aumenta o interesse dos colecionadores e, consequentemente, pode elevar o preço. Quedinho diz não gostar de negociar apenas pelo menor valor possível. Para ele, existe uma diferença entre comprar uma peça e compreender o que ela representa. A camisa rara de um clube tradicional pode carregar décadas de história de uma maneira que um produto facilmente encontrado em uma loja jamais conseguirá reproduzir.
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O que caracteriza uma camisa de jogo
Um dos aspectos mais interessantes do trabalho de Quedinho está na tentativa de identificar a origem de cada peça. Nas décadas de 1970 e 1980, camisas numeradas não eram comercializadas da mesma maneira que os uniformes atuais. A presença de determinados números pode, portanto, ajudar o colecionador a identificar uma peça preparada para uma partida. A camisa de manga longa do Bangu de 1983 é um dos exemplos citados por ele.
A existência de diferentes numerações da mesma camisa reforça essa investigação. Quedinho afirma ter encontrado peças correspondentes a diferentes jogadores, o que considera uma evidência de que aquele modelo foi preparado para uso em partidas. O procedimento mostra como o colecionismo envolve pesquisa, comparação de etiquetas, tecidos, golas, escudos, numeração e outros pequenos detalhes. Uma alteração aparentemente insignificante pode ajudar a estabelecer a época ou a finalidade de determinado uniforme.
Essa atenção aos detalhes também explica a preferência por camisas antigas. Quedinho identifica mudanças na tipografia, nas aplicações da Adidas e no acabamento dos uniformes ao longo dos anos. A comparação entre modelos permite ao colecionador reconhecer variações que passariam despercebidas para a maioria dos torcedores.
A era das camisas que ficou na memória
Para Quedinho, os anos 1980 representam o auge das camisas de futebol. A preferência está diretamente ligada à infância, à presença no Maracanã e à geração de grandes jogadores que permaneceram por muitos anos nos clubes. Zico, Roberto Dinamite e outros ídolos ajudaram a construir uma identificação que ia muito além do resultado de uma partida.
Essa memória também aparece na relação com as cores. Ao falar das antigas camisas do Flamengo, o colecionador destaca o vermelho intenso, os tecidos, as listas e o envelhecimento natural das peças. Ele chega a defender as marcas deixadas pelo tempo, como o amarelado do tecido. Para quem observa de fora, pode parecer desgaste. Para o colecionador, é justamente uma parte da história.
A crítica aos uniformes contemporâneos nasce desse mesmo sentimento. Ao comparar modelos antigos, com escudos, números e aplicações que considera mais trabalhados, com camisas sublimadas modernas, Quedinho usa expressões como “xerocada” e “pijama” para definir aquilo que considera uma perda de personalidade. A crítica é estética e afetiva, mas ajuda a explicar por que o mercado retrô ganhou espaço entre torcedores mais jovens.
Esse movimento não se restringe ao Flamengo. A própria Adidas vem apostando em referências históricas e relançamentos de modelos antigos, enquanto colecionadores procuram reproduzir a aparência de épocas que marcaram o futebol. A camisa passou a funcionar também como peça de moda, objeto de memória e símbolo de identidade.
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Adidas, Nike e a disputa pela memória
A preferência de Quedinho pela Adidas também aparece quando a conversa chega à Seleção Brasileira. Ele defende a volta da marca alemã e critica a Nike, especialmente pelos modelos produzidos nos últimos anos. A discussão ultrapassa a simples escolha de fornecedor. Para o colecionador, determinados desenhos e tonalidades ficaram associados à identidade do futebol brasileiro.
A conversa ainda recupera a trajetória da Adidas no Brasil e sua relação com clubes cariocas. Quedinho diferencia os primeiros períodos de fornecimento, quando algumas equipes utilizavam peças da marca em combinação com outros fornecedores, da adoção de uniformes completos. São informações que mostram como a padronização atual dos equipamentos esportivos é relativamente recente.
No Flamengo, a camisa também aparece como elo entre gerações. Uma das peças apresentadas por Quedinho foi recebida do pai e posteriormente ganhou autógrafos de integrantes daquela geração. O objeto deixou de ser apenas um uniforme antigo e passou a representar uma relação familiar, uma infância e a experiência de acompanhar o clube no Maracanã.
É justamente essa dimensão que ajuda a explicar a força do colecionismo. Quedinho rejeita a ideia de que guardar camisas seja simplesmente acumular objetos. Para ele, trata-se de um hobby ligado à memória. Cada peça pode remeter a uma partida, a um jogador, a um patrocinador, a uma época ou a alguém que já não está presente.
Essa mesma lógica aparece quando ele fala dos antigos clubes do Rio. América, Bangu, Olaria e São Cristóvão ocupam hoje espaços muito diferentes daqueles que tiveram no passado, mas continuam preservados na memória de torcedores e colecionadores. Na avaliação de Quedinho, dinheiro e gestão são fundamentais para recuperar essas equipes, mas a história permanece como um dos principais patrimônios capazes de reconectar esses clubes ao público.
No fim, a coleção revela uma transformação maior do que a simples evolução dos uniformes. As camisas mudaram de tecido, desenho, fornecedor e tecnologia, mas continuam funcionando como documentos afetivos do futebol. Uma peça rara não vale apenas porque deixou de ser fabricada. Ela vale porque sobreviveu ao tempo e, quando aparece novamente diante de um torcedor, consegue devolver por alguns instantes a imagem de um futebol que parecia perdido.
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