Pedro Asbeg revela bastidores de documentário da HBO sobre o Flamengo e emociona ao falar de Arthur Muhlenberg

O documentário “Onde Estiver, Estarei – Uma Paixão Rubro-Negra”, que estreia nesta quinta (28), às 18h, na TNT e na HBO Max, chega ao público carregando mais do que memórias sobre as Libertadores de 1981 e 2019. A obra dirigida por Pedro Asbeg também acabou se transformando, involuntariamente, em um registro afetivo da relação criativa entre o cineasta e o publicitário e roteirista Arthur Muhlenberg, falecido recentemente. Durante entrevista sobre o longa, Asbeg revelou bastidores do processo de criação e emocionou ao falar sobre a participação do amigo na construção do filme.
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A produção, que inicialmente nasceu como um registro da campanha rubro-negra rumo ao bicampeonato continental de 2019, foi mudando de forma ao longo do tempo. Segundo o diretor, nem mesmo existia certeza de que o projeto seria concluído. “Esse filme podia não ter acontecido, porque se o Flamengo não fosse campeão, não teria filme”, afirmou Pedro Asbeg ao lembrar o início da empreitada.
A fala ajuda a explicar por que “Onde Estiver, Estarei” foge do formato tradicional de documentários esportivos centrados apenas em jogos, bastidores de vestiário ou personagens midiáticos. Aos poucos, o filme encontrou outro caminho. Em vez de colocar jogadores como protagonistas absolutos, a obra passou a enxergar a própria torcida do Flamengo como personagem central da narrativa.
Do título continental à história da arquibancada
Pedro Asbeg contou que o projeto original previa acompanhar Francisco Moraes e Cláudio Cruz refazendo a rota da Libertadores de 1981 pelos países sul-americanos. A ideia era reconstruir trajetos, revisitar cidades e recuperar sensações de uma época em que acompanhar o Flamengo significava enfrentar longas viagens de ônibus, dificuldades financeiras e estruturas precárias.
A pandemia, porém, alterou completamente os planos. Sem possibilidade de viagens internacionais, o documentário precisou ser redesenhado. Foi nesse momento que, segundo o diretor, o filme encontrou sua verdadeira identidade.
“O filme é sobre o Cláudio, o Morais, o filme é sobre a nossa torcida”, afirmou Asbeg durante a entrevista.
A partir dessa percepção, o documentário passou a reunir histórias de rubro-negros espalhados pelo mundo. Torcedores que vieram da Austrália, caravanas organizadas, viagens improvisadas de carro e ônibus, deslocamentos feitos apenas pela obsessão de estar presente dentro do estádio em uma final histórica. A Libertadores de 2019 deixou de ser apenas um evento esportivo e passou a funcionar como elo entre gerações.
Essa escolha narrativa aproxima o longa de uma característica muito presente na obra de Arthur Muhlenberg ao longo da carreira. O Rubro-Negro sempre tratou o Flamengo menos como instituição esportiva e mais como fenômeno cultural, social e emocional. O clube aparecia em seus textos como experiência coletiva, capaz de atravessar gerações, bairros, classes sociais e períodos históricos distintos.
TRANSMISSÃO AO VIVO COMPLETA:
A assinatura de Arthur Muhlenberg no filme
Durante a entrevista, Pedro Asbeg descreveu a relação criativa construída ao longo de anos com Arthur Muhlenberg. Segundo ele, os dois conversavam diariamente havia décadas e desenvolveram juntos uma dinâmica própria de criação audiovisual.
A parceria já havia acontecido em outros projetos, como “Democracia em Preto e Branco”, sobre a Democracia Corintiana, e “Lei da Selva”, documentário sobre o jogo do bicho. Em “Onde Estiver, Estarei”, essa conexão reaparece especialmente na construção textual da obra e na escolha da locução feita por Daniel Furlan.
Pedro revelou que o processo de escrita acontecia em permanente troca criativa. “Um escreve um negócio, o outro reclama, bota pilha, devolve”, contou o diretor ao descrever o funcionamento da parceria.
Nos últimos anos, porém, o trabalho passou a conviver com as sucessivas internações de Arthur Muhlenberg. Mesmo assim, o roteirista permaneceu participando ativamente do projeto até os momentos finais. O resultado acabou ganhando uma dimensão ainda mais simbólica após sua morte.
“Esse trabalho tá guardado, essa participação dele, esse pensamento dele e as coisas que a gente construiu juntos estão guardadas”, afirmou Asbeg.
A declaração talvez explique por que o documentário já desperta identificação emocional tão forte antes mesmo da estreia oficial. O filme não funciona apenas como homenagem às conquistas de 1981 e 2019. Ele também se transforma em registro permanente de uma geração de rubro-negros que ajudou a construir o imaginário contemporâneo do Flamengo.
Arthur Muhlenberg e o rubro-negrismo moderno
Durante a transmissão, também foi comentada a importância de Arthur Muhlenberg para a comunicação flamenguista na internet e para a consolidação de uma linguagem própria do chamado “rubro-negrismo” digital.
A trajetória de Arthur desde os tempos do FlamengoNet, passando pelo Urublog e chegando ao República Paz e Amor, espaços que ajudaram a moldar uma geração inteira de produtores de conteúdo independentes ligados ao Flamengo, foi lembrada.
A observação faz sentido historicamente. Arthur pertence a uma geração que ajudou a transformar a cobertura do clube fora da imprensa tradicional. Muito antes da explosão de canais independentes no YouTube e das mídias segmentadas, ele já escrevia sobre Flamengo em tom pessoal, emocional e profundamente conectado à arquibancada.
Essa característica aparece naturalmente no documentário. A obra não tenta construir um Flamengo asséptico, institucionalizado ou distante do povo. Pelo contrário. O longa abraça justamente a dimensão popular da experiência rubro-negra, algo que sempre esteve presente tanto na escrita de Arthur quanto no cinema de Pedro Asbeg.
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Mais do que um documentário sobre futebol
“Onde Estiver, Estarei” parece caminhar para um lugar raro entre produções esportivas brasileiras. O filme utiliza o futebol como ponto de partida, mas não limita sua narrativa ao resultado dentro de campo.
As Libertadores de 1981 e 2019 aparecem como marcos temporais de uma mesma paixão atravessada por quase quatro décadas. Entre um título e outro, mudaram os meios de transporte, as tecnologias, os formatos de transmissão, o tamanho das caravanas e até o futebol sul-americano. O que permaneceu intacto foi o impulso quase irracional do torcedor de estar presente.
É justamente nesse ponto que a obra encontra sua força. O documentário não tenta apenas revisitar uma conquista. Ele procura entender o que leva milhares de pessoas a reorganizarem a própria vida em torno de um clube de futebol.
Ao falar sobre Arthur Muhlenberg, Pedro Asbeg resumiu sem perceber o próprio espírito do filme. “Ele vai estar aqui de alguma forma”, afirmou o diretor. A frase serve tanto para o roteirista quanto para a própria torcida do Flamengo, eternizada em uma obra que transforma memória coletiva em cinema.
Documentário “Onde Estiver, Estarei – Uma Paixão Rubro-Negra”, da HBO, ganha trailer; confira
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