Naturgy e relicitação do gás no RJ podem atrasar ainda mais estádio do Flamengo no Gasômetro

Naturgy e relicitação do gás no RJ podem atrasar ainda mais estádio do Flamengo no Gasômetro

O sonho do estádio próprio do Flamengo no Gasômetro ganhou um novo obstáculo, e desta vez o problema não está apenas no custo bilionário da obra, na engenharia financeira do clube ou na prudência da gestão de Luiz Eduardo Baptista, o Bap. A questão central passou a ser a indefinição sobre a operação de gás existente no terreno, administrada pela Naturgy, em meio ao processo do Governo do Estado do Rio de Janeiro para relicitar as concessões de gás canalizado. Na prática, enquanto não houver clareza sobre quem vai operar o serviço a partir de 2027, onde será instalada uma nova estrutura e como será feita a remoção da estação atual, o Flamengo não consegue sequer transformar o terreno em canteiro de obras.


Ouça nossas análises e entrevistas sobre a eleição do Flamengo no seu agregador de podcast preferido: Spotify, Deezer, Amazon, iTunes, Youtube Music, Castbox e Anchor.


A fala de Bap colocou o projeto em outro patamar de realidade. O presidente afirmou que o estádio não está abandonado, mas deixou claro que o Flamengo não pode iniciar a construção hoje, ainda que tivesse dinheiro suficiente para bancar toda a obra. Segundo ele, a estação de gás localizada no terreno abastece cerca de 400 mil cariocas, possui tubulação ativa no subsolo e não pode simplesmente ser removida pelo clube. Depois da retirada da operação, ainda haveria um prazo de descontaminação estimado em dois anos. A declaração desmonta a ideia de que o estádio depende apenas de vontade política, venda de naming rights, parceiros comerciais ou uma poupança mensal feita pelo clube.

O ponto novo é que a decisão do Governo do Estado de abrir uma nova licitação para a concessão de gás teria travado ainda mais o processo. A informação é que a Naturgy, sem saber se continuará operando a concessão, parou ações relacionadas à saída do terreno. Com isso, o Flamengo ficaria sem interlocutor efetivo para tratar da remoção da estação, enquanto a Prefeitura também não estaria avançando na busca de uma nova área para remanejar a estrutura. A relicitação das concessões de gás do Rio, de fato, foi anunciada pelo governo estadual após questionamentos do TCE-RJ, abertura de CPI na Alerj e estudo da FGV que apontou vantagens em uma nova concorrência, apesar da previsão de indenização bilionária à Naturgy.

O problema que já existia e foi tratado como detalhe

A presença da infraestrutura de gás no terreno do Gasômetro não é uma descoberta de agora. Desde 2024, já havia registro de que a construção do estádio estava condicionada à definição de uma solução para a transferência da Estação de Regulagem e Medição, o chamado City Gate, que fica na área adquirida pelo Flamengo. À época, informações publicadas apontavam que a operação poderia levar de três a quatro anos e precisaria ser negociada entre Flamengo, CEG/Naturgy, Agenersa e Estado do Rio de Janeiro, com participação também da Prefeitura por causa da solução territorial.

A diferença é que, no debate político rubro-negro, esse gargalo foi muitas vezes minimizado. Durante a campanha eleitoral, a promessa de inauguração do estádio em novembro de 2029 foi usada como peça de convencimento, quase como se o terreno comprado já estivesse livre para a obra. Quem alertava sobre a estação de gás, a tubulação ativa, a necessidade de transferência e os prazos técnicos era tratado como pessimista, opositor ou alguém tentando sabotar o sonho da torcida. O tempo mostrou que o problema não era narrativa contrária ao Flamengo, mas uma barreira concreta, física, regulatória e operacional.

Bap, que foi acusado por adversários de ser contra o estádio, agora sustenta uma posição mais cautelosa. Ele diz que nunca se opôs ao projeto, mas que não fará a arena se isso significar transformar o Flamengo em SAF, quebrar o clube ou reduzir sua competitividade esportiva. O argumento é financeiro e institucional. Segundo o presidente, o custo de capital para construir o estádio é maior do que a margem operacional que o Flamengo tem hoje, mesmo em um cenário em que o clube alcança resultados históricos no futebol sul-americano.

TRANSMISSÃO AO VIVO COMPLETA:

A nova licitação do gás e o efeito dominó no Gasômetro

A relicitação da concessão de gás é um tema estadual, mas seus efeitos chegam diretamente ao terreno do Flamengo. O contrato atual envolve a operação da Naturgy no Rio de Janeiro, e o governo decidiu iniciar novo processo licitatório para modernizar o setor, aumentar eficiência e garantir tarifas mais competitivas. O problema é que, enquanto essa disputa não se resolve, qualquer planejamento de remoção de estrutura sensível fica mais complexo, porque não se sabe se a atual concessionária continuará, se uma nova empresa assumirá, quais obrigações entrarão no contrato e quem ficará responsável por negociar o deslocamento da estação do Gasômetro.

Depois de definida a concessionária e encontrado um novo terreno para a estação, seriam necessários cerca de seis anos até a liberação efetiva da área: quatro para construção da nova estrutura e passagem dos dutos, mais dois para descontaminação do espaço atual. Só depois disso o Flamengo poderia iniciar a obra do estádio. Mesmo que esse prazo ainda dependa de confirmação formal das partes envolvidas, ele revela o tamanho do desafio. O estádio não está atrasado por falta de entusiasmo. Está travado porque há uma operação essencial de gás funcionando no local, e serviço público essencial não se remove com discurso de campanha.

Esse cenário torna praticamente impossível sustentar a inauguração em 2029 como horizonte realista. O prazo já era apertado quando se falava em estudos, licenças, financiamento, projeto executivo, arqueologia, urbanismo, desapropriações indiretas e descontaminação. Com a indefinição da concessão de gás e a eventual paralisação das ações da Naturgy para deixar o terreno, a linha do tempo se alonga de forma dramática. A retórica eleitoral vendeu velocidade; a realidade está cobrando técnica.

LEIA MAIS:

CASO PREFIRA OUVIR:

O Flamengo faz caixa, mas dinheiro não remove gasoduto sozinho

Outro ponto relevante é a poupança para o estádio. O Flamengo está guardando dinheiro mensalmente para formar caixa destinado ao projeto. Esse movimento é positivo porque mostra que o clube não abandonou o tema e tenta construir capacidade própria de investimento. Ainda assim, os valores acumulados são pequenos diante de uma obra estimada em bilhões e de um ambiente econômico em que juros, inflação, custo de capital e perda de poder de compra afetam qualquer planejamento de longo prazo.

O problema é que, neste momento, o gargalo não é apenas financeiro. Mesmo com parceiros, naming rights antecipado, poupança robusta ou financiamento estruturado, o Flamengo não pode começar a construir enquanto a área não estiver liberada. Bap foi direto ao dizer que, mesmo com R$ 3 bilhões disponíveis hoje, o clube não poderia executar a obra por causa do impedimento concreto da infraestrutura de gás. Isso muda a natureza do debate: antes de discutir inauguração, capacidade, camarotes, cadeiras cativas ou modelo de receita, é preciso resolver o básico, que é ter o terreno em condições legais, ambientais e operacionais para receber um estádio.

Essa constatação não diminui o sonho, mas exige honestidade. O Flamengo tem concessão do Maracanã por mais 18 anos, sente-se em casa no estádio e possui tempo para planejar sem comprometer sua saúde financeira. Isso não significa desistir do Gasômetro. Significa reconhecer que o clube não pode repetir o velho erro de transformar desejo legítimo da torcida em promessa sem amarração técnica. O estádio próprio continua sendo uma ambição histórica, mas a história recente mostra que o Flamengo precisa tratar o tema com menos palanque e mais engenharia, menos ansiedade e mais governança.

No fim, a questão da Naturgy expõe a diferença entre comprar um terreno e poder construir nele. O Flamengo venceu uma etapa importante ao adquirir a área do Gasômetro, mas herdou junto uma operação estratégica para o abastecimento de gás da cidade. Agora, com a relicitação estadual, a insegurança sobre quem comandará a concessão a partir de 2027 e a falta de interlocução clara, o projeto entra em uma fase ainda mais lenta. O clube pode continuar poupando, estudando e trabalhando nos bastidores, mas a obra só começará quando Estado, Prefeitura, regulador, concessionária e Flamengo resolverem uma equação que a campanha eleitoral tratou como rodapé. A torcida tem direito de sonhar com sua casa; também tem direito de saber que, hoje, a chave do estádio passa antes por dutos, concessão pública, remoção industrial e descontaminação do que por maquete bonita.

Flamengo trata terreno do estádio como resolvido, mas ainda falta publicação oficial

+ Siga o Ser Flamengo no Twitter, no Instagram e no Youtube.

Comentários

Descubra mais sobre Ser Flamengo

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Blog Ser Flamengo

Deixe uma resposta